Nesta última semana, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, bateu recorde de 157 mil pontos. Na terça, dia 11, registrou a 12ª alta seguida com o dólar registrando o menor valor desde 2024. Desavisados do mercado financeiro chegaram a comparar com a época do Plano Real, em 1994, quando foram 15 altas consecutivas. Naquela época, no entanto, o País estava embalado pela promessa concreta de estabilidade da moeda, fim da inflação e eleição de Fernando Henrique Cardoso. Lá, tudo se concretizou. Depois de mais de uma década, o País se livraria de uma hiperinflação que chegara a 2.500% ao ano. A democracia, tal como prevista na Constituição, vigorava e a esperança era real, tal como o Plano. A reeleição do presidente sociólogo, quatro anos depois, teve a consagração popular também confirmada em primeiro turno. Por isso, pelos números e os momentos completamente diferentes da história, é que a comparação feita por alguns agentes do mercado financeiro avilta a sensatez. Se bem que é a mesma turma que achou que Lula 3 teria algum apreço pela austeridade fiscal. Ignoraram os fatos. E a história não perdoa quem ignora os fatos. No primeiro mandato de Lula, o ministro da Fazenda Antônio Palocci mandava na economia sem intermediários e reforçou a receita dos governos FHC como forma de trazer confiança ao governo recém-eleito, cujo presidente tinha histórico hostil à responsabilidade fiscal e perfil raivoso. Hoje, Lula é só Lula. E trouxe na mochila desgastada de quem ficou parado no tempo Janja, a deslumbrada primeira-dama, e fez de Fernando Haddad, eleito o pior prefeito de São Paulo, seu ministro da Fazenda. Outros tempos. Tempos bem diferentes.
O economista, diplomata e ex-presidente do banco do Brics, Marcos Troyjo, veio a público nesta mesma semana para apontar problemas estruturais e conjunturais que colocam em risco a vida brasileira. Troyjo foi secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais da equipe de Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Jair Bolsonaro que, apesar de conviver com a pandemia e a guerra na Ucrânia, concluiu o mandato com superávit primário, forte redução da dívida pública em relação ao PIB e crescente investimento externo. Em uma postagem no perfil pessoal na rede LinkedIn, Marcos Troyjo escreveu:
- “Gastos públicos como percentual do PIB estão subindo.
- Dívida como percentual do PIB está subindo.
- Impostos como percentual do PIB estão subindo.
- Intervenção governamental (e dos governantes) na economia está subindo.
- Êxodo de milionários do Brasil está subindo.
- Produtividade da economia não está subindo.
- Eficiência das estatais não está subindo.
- Investimento em P, D & I não está subindo.
- Número de empresas com ações em bolsa não está subindo.
- Taxa de poupança como percentual do PIB não está subindo.”
O alerta postado originalmente com emojis de exclamação e gráficos, demonstrando clara preocupação com a perda de credibilidade da economia brasileira e suas repercussões no presente e no futuro, veio acompanhado de trecho de um pensamento do filósofo espanhol José Ortega y Gasset: “Yo soy yo e mis circunstancias”. O trecho escolhido já seria suficiente para entender o que se passa no País. Mas a frase inteira é ainda mais incisiva, que já reproduzo traduzida para o português: “Eu sou eu e minhas circunstâncias; se eu não salvo as minhas circunstâncias, tampouco salvo a mim”. É um chamamento a mais gente se manifestar sobre o retrocesso econômico e institucional em andamento no País, antes que seja tarde demais. Trata-se, e agora falo por mim, da política econômica de um governo e de números positivos da Bolsa de Valores — ou mesmo do câmbio mais favorável — que não encontram conexão entre si. E neste caso, diferentemente do Plano Real e do início do que viria a ser a era FHC, não tem nexo. Lula 3 vai surfar no que não é dele, como sempre fez ao herdar o País de gestões responsáveis que lhe deixaram legados preciosos. Depois de exaurir os ganhos recebidos, passa a chamar de “herança maldita”. Pudor não é o forte dessa gente. Analistas mais cuidadosos já retomaram a razão ao explicar a recente festa do mercado financeiro. Foram o cenário externo de baixa dos juros americanos — o que traz dinheiro para economias emergentes, inclusive para a renda fixa com taxa Selic de 15% ao ano por aqui — e a expectativa de queda na popularidade de Lula, dificultando sua reeleição, que explicam o movimento de alta da Bolsa e de valorização do câmbio. Ou seja, eram o presente do cenário externo e o futuro sem Lula da política brasileira que impulsionavam o mercado.

Mas vamos colocar números aos pontos levantados por Troyjo. Eles são realmente preocupantes.
Nos últimos 15 anos, o gasto público do Brasil em relação ao PIB saiu de 40,9%, em 2010, para 47,2%, em 2025. Os dados são do Tesouro Nacional. E um dos componentes que impulsionam essa elevação dos gastos é o aumento dos benefícios sociais, de 12,3% para 15,6% do PIB. Gastos sociais no Brasil não são necessariamente um problema. Há um apelo da política que perpassa a esquerda e a direita. O atraso é o aumento de gastos sociais sem critérios de eficiência e a ausência de porta de saída, o que “vicia o cidadão”, como diria Luiz Gonzaga. Veja que o País hoje enfrenta falta de mão de obra em todos os setores porque beneficiários não querem sair do Bolsa e voltar ao mercado formal de trabalho. Uma bolsa aqui e um bico informal acolá. É precarização social e informalidade bancada pelo Estado. Que sentido faz isso?
A Dívida como percentual do PIB está subindo de maneira temerária. A mesma Secretaria do Tesouro traz os números oficiais. A estimativa é que até o fim do governo Lula, a relação Dívida/PIB, hoje em 78,1%, deve chegar a 82,5%. Era de incríveis 71,7% no final do governo Bolsonaro, depois de um amplo programa de responsabilidade fiscal. Comparar é vida. E solução.
O Brasil tem o maior soft power do planeta ao alimentar 1 bilhão de pessoas mundo afora, mas o governo atual joga contra. Lula tem alergia à eficiência.
Impostos como percentual do PIB estão subindo. O que esperar de um governo cujo ministro da Fazenda ganhou o apelido de “Taxad”, em referência ao seu sobrenome Haddad. A sanha arrecadatória do governo tem apelido jocoso e números doloridos a quem trabalha e produz. Desde que tomou posse, o atual governo criou novos impostos ou aumentou taxas já existentes por 25 vezes. No ano passado, a arrecadação federal, dos Estados e dos municípios bateu recorde ao atingir 34,2% do Produto Interno Bruto. Apesar disso, encerrou o ano com R$ 43 bilhões de déficit. Agora, em 2025, as estimativas apontam para um novo rombo de R$ 73 bilhões. E o culpado maior é o próprio governo federal. O percentual de impostos em relação ao PIB foi de 21,4% no ano passado: uma alta de 1,5 ponto percentual na comparação com o ano de 2023. É uma asfixia tributária imparável.
Não bastasse a insegurança jurídica de normas que mudam as regras do jogo com o jogo em andamento — e até depois do jogo jogado, como fez o STF ao mudar entendimento de lei tributária e determinar cobrança retroativa, apesar da coisa julgada —, a intervenção do Estado na economia é crescente. Mas quando o assistencialismo chega a milhões de brasileiros sem nenhum senso prático de melhora de vida real, apenas como cabresto econômico que mantém miseráveis sob tutela do Estado, isso influencia diretamente o resultado de eleições. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, 94 milhões de pessoas no Brasil dependem de algum tipo de auxílio financeiro distribuído pelo governo. Além do mínimo para sobreviver, essas pessoas estão sendo retiradas da pobreza ou mantidas aprisionadas lá? Fato é que custa caro ao pagador de impostos porque a ineficiência do programa social é injusta com quem recebe e com quem paga.

O êxodo de milionários do País está em alta. E perder riqueza no País por insegurança jurídica, democracia em risco ou degradação macroeconômica é muito ruim. O leitor de Oeste não entra no maniqueísmo indigente de ricos x pobres, mas muitos ainda são manipulados com essa falácia eleitoreira do lulopetismo. É preciso alertá-los. É o dinheiro de quem tem poupança que financia investimento privado no País. Não só. Também financia a dívida do governo ao comprar títulos de dívida de um governo que não para de gastar. Com base em dados da consultoria Henley & Partners, o portal InfoMoney diz que o Brasil deve registrar a saída líquida de 1.200 milionários em 2025. O êxodo de quase R$ 50 bilhões é o maior da América Latina e coloca o Brasil na sexta colocação mundial de países que mais perdem milionários. O dinheiro que sai daqui vai para os Estados Unidos, especialmente o Estado da Flórida, além de Portugal, Ilhas Cayman, Costa Rica e Panamá. Todos, veja só, realmente democráticos e seguros.
O Brasil precisa de gente séria a lhe governar. A produtividade do trabalho, segundo o IBGE, cresceu apenas 0,53% em 2024. Em 2025, estagnou e dá sinais de declínio. Os poucos sinais positivos vêm do agronegócio, o setor que Lula chama de “fascista”. O Brasil tem o maior soft power do planeta ao alimentar 1 bilhão de pessoas mundo afora, mas o governo atual joga contra. Lula tem alergia à eficiência. Sob sua gestão, as estatais voltaram a ter influência partidária, o que resultou em má administração e escândalos. Até agosto deste ano, as empresas públicas tiveram déficit primário de R$ 8,3 bilhões. Em 2022, último ano do governo Bolsonaro, foram superavitárias em R$ 6,1 bilhões. A comparação é necessária porque expõe o errado e o certo. Depois de registrar lucro no governo anterior, mais um governo petista de Lula quebrou os Correios pela segunda vez. É um caso de malfeito crônico. O plano de recuperação da estatal, estimado em R$ 20 bilhões, está com dificuldades de encontrar parceiros privados. Quem em sã consciência poria mais dinheiro num ralo de incompetência e sabe-se lá mais o quê?

Por fim, nos quesitos da economia que demonstram confiança ou projetam crescimento, os números são igualmente ruins ou insuficientes para garantir uma recuperação sustentável. Os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação ainda carecem de mais recursos e eficácia. O Brasil investe em média 0,7% do PIB, muito abaixo da média global de 2%. Isso nos coloca abaixo até dos vizinhos latino-americanos. De outro lado, a Bolsa de Valores de São Paulo não teve qualquer novo lançamento de abertura de capital nos últimos quatro anos. Pior. No mesmo período, 36 empresas fecharam o capital na B3. Junte-se a isso que a taxa de poupança, que não está subindo, impede a projeção de novos investimentos. Com o governo federal gastando como se não houvesse Brasil amanhã, e as famílias comprometendo um percentual maior da renda em consumo por causa da inflação, sobra pouco para investir. Abaixo até dos emergentes, a taxa de poupança do País em relação ao PIB está em 14,5%, depois de três quedas consecutivas.
Diante dos números expostos, a pergunta do título é imprescindível: quando vamos nos salvar? Já, como deveríamos fazer, ou vamos esperar a eleição do ano que vem? O tempo não perdoa.
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NÃO VAMOS NOS SALVAR! É DEFINITIVA ESTA SITUAÇÃO! ELES USARÃO O MESMO ALGORITMO USADO EM 2022.
Bota o governo todo no xadrez e o STF TSE e eleições igual a da França
Exatamente.
Parabéns, Piotto. Seu texto é claríssimo!!
Eis a questão: ser ou não ser. A bolsa de valores está em alta na espectativa de que ano que vem será o último ano do governo petista
no poder. Mas esse mesmo governo não poderá utilizar esse números na campanha eleitoral em seu favor e reverter o provável resultado eleitoral e se reeleger?
Não vamos. Perdemos.
Não vejo saída