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Cláudio Castro, o STF e Nayib Bukele | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Wikimedia Commons
Edição 295

O espantalho Bukele

De costas para El Salvador, o petismo, o STF e outros consortes do establishment erguem uma barricada para trancar o caminho da repressão sem tréguas ao crime organizado

Nem Cláudio Castro, nem Lula. O personagem central da convulsão em que o Brasil mergulhou a partir da operação policial realizada em duas favelas cariocas, na nublada manhã de 28 de outubro, está a mais de 6 mil quilômetros do Rio de Janeiro. Seu nome caiu na boca do povo assim que começaram a vir a público as primeiras informações sobre o impressionante — e crescente — número de bandidos mortos ou capturados pela polícia fluminense na Operação Contenção. Estaríamos vendo, na figura do até então opaco governador do Rio de Janeiro, o surgimento de um novo Nayib Bukele, o todo-poderoso presidente de El Salvador que se tornou sinônimo de ação rápida e fulminante contra o crime?

Essa é uma boa pergunta que caberá ao povo brasileiro, e somente ao povo brasileiro, responder, no momento em que se dirigir às cabines de votação em 4 de outubro de 2026. Não, meu caro leitor, não estou falando da eleição presidencial, e sim da eleição para o Congresso Nacional. Porque o Bukele que partiu para o encarceramento em massa dos bandidos de alta periculosidade só existe porque assim decidiu o povo de El Salvador, farto de discursos políticos vazios que encobriam a covardia ou até mesmo o acumpliciamento das autoridades com as facções que instalaram o terror no país. E ainda que tenha recebido uma votação descomunal, quase 85%, na eleição de 2024, não foi este o trunfo decisivo para Nayib Bukele assombrar criminosos e desmascarar autoridades relapsas ou coniventes com a bandidagem ao redor do mundo. Sua força foi dada pela maciça eleição de congressistas que asseguraram a ele respaldo político para se tornar o Bukele que o mundo não conheceu em seu primeiro mandato, iniciado em 2019.

Nayib Bukele e Gabriela Rodríguez de Bukele no Palácio Nacional de San Salvador durante a segunda posse presidencial de Bukele (1/6/2024) | Foto: Wikimedia Commons

Se o brasileiro quiser passar o Brasil a limpo, terá de entender que, embora adote o presidencialismo, o País não mudará de verdade a partir das ideias ou da vontade do presidente que for eleito — seja quem for. O poder real, desde a instalação da ditadura do STF em março de 2019, está na Corte dominada pelo petismo — e nem mesmo o petista que hoje preside o país, e muito menos o seu partido, estão em condições de contrastar a vontade dos ministros “supremos”. Lula e o PT são sócios da Corte, sim, mas não passam de sócios minoritários. Quem, então, pode varrer do STF tipos como Alexandre de Moraes, sancionado pela Lei Magnitsky por violação de direitos humanos, ou Gilmar Mendes, que se apressou em fazer comentários que desautorizam a ação da polícia do Rio de Janeiro contra o narcotráfico?

O Senado da República.

É aí que se decidirá o jogo nas eleições de 2026 — e o crime organizado, que não dorme em serviço, já está fazendo suas apostas para impedir qualquer possibilidade de que o Brasil tente recuperar os territórios dominados pelo tráfico com a determinação de um Bukele. Ou de um Cláudio Castro, o herói acidental que foi surpreendido por uma interpelação hostil e ilegal de Alexandre de Moraes, apenas um dia depois da Operação Contenção. Não é coincidência, tampouco, a imediata decisão da ministra Cármen Lúcia de retirar da gaveta um processo de cassação do governador do Rio que mofava há meses no Tribunal Superior Eleitoral. Castro foi comparado a Bukele, e isso fez o céu — aliás, o inferno — desabar sobre sua cabeça. Por quê?

Ministro Alexandre de Moraes, o governador Cláudio Castro e o secretário de Polícia Militar Marcelo Menezes no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), na Cidade Nova (3/11/2025) | Foto: Divulgação/Philippe Lima

São vários porquês, e podemos começar pelo menos falado deles.

Em 2021, a Assembleia Legislativa de El Salvador afastou os ministros da Suprema Corte e, inclusive, o PGR deles, o Fiscal General, sob acusação de que cometiam arbitrariedades ao barrar decisões de Bukele que determinavam a prisão de quem violasse o lockdown durante a pandemia de covid-19. No mérito, discordo radicalmente da decisão de Bukele — como se viu, trancafiar as pessoas em casa foi uma das mais tresloucadas e inúteis medidas tomadas no Brasil e em vários países do mundo, entre outras ações de pura histeria e diversionismo praticadas a pretexto de combater a pandemia. Mas, deixando de lado a questão de mérito, o processo de colocar os ministros de uma Suprema Corte sob o escrutínio de um parlamento livremente eleito pelo povo é um exercício puro de democracia. Alguém como Luís Roberto Barroso poderia dizer que as instituições foram derrotadas e que a sala constitucional salvadorenha deveria ser protegida para exercer seu papel “contramajoritário”, etcétera, etcétera. Não faltou quem, por lá, sustentasse este ponto de vista, e se o povo estivesse de acordo poderia ter dado uma surra eleitoral em Bukele na eleição de 2024. Mas o que se viu foi o presidente saltar de um patamar de 52% dos votos, na sua primeira eleição, em 2019, para quase 85% em 2024. E, mais do que incensá-lo, a população ofereceu ao presidente reeleito uma base de apoio ainda mais retumbante na Assembleia Legislativa Nacional.

O processo de colocar os ministros de uma Suprema Corte sob o escrutínio de um parlamento livremente eleito pelo povo é um exercício puro de democracia.

O povo falou, enfim. E é isso o que dá calafrios em Cármen Lúcia, Moraes, Gilmar e turma. Tudo farão, e já fazem, com a mansa sujeição do procurador-geral da República, Paulo Gonet, para barrar candidaturas competitivas do campo político que saúda e abençoa a Operação Contenção da polícia fluminense, em vez de defini-la como “matança” (afirmação de Lula à imprensa estrangeira) ou “episódio lamentável”, balbucio de Gilmar Mendes.

Ministros do STF que se lambuzam de poder não admitem a formação de um Congresso Nacional que os chame à responsabilidade e cobre cada arbitrariedade que vêm cometendo há mais de cinco anos. Para eles, este é um cenário de terror.

Paulo Gonet, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia, em sessão plenária do STF (6/11/2025) | Foto: Antonio Augusto/STF

E para mais da metade dos brasileiros, uma chance de depuração institucional e reconquista do território democrático.

Imaginem processos de impeachment tramitando no Senado para cobrar do ministro Dias Toffoli a anulação de processos e a destruição de provas colhidas durante a Lava Jato, maior operação de combate à corrupção de que se tem notícia (veja artigo de Augusto Nunes nesta edição). Ou Alexandre de Moraes respondendo à acusação de fraude processual que lhe é feita por ninguém menos que o seu ex-assessor no “Departamento de Enfrentamento à Desinformação”, Eduardo Tagliaferro. Aliás, os abusos de Moraes são tantos que será difícil escolher um deles para ser o escopo de um processo de impeachment. Eu começaria pelo caso Cleriston Pereira da Cunha, que a meu ver foi deixado a morrer na Papuda porque Moraes, ao cabo de vários meses, ignorou sucessivos laudos médicos sobre o grave estado de saúde de “Clezão” e deu de ombros, até mesmo, para o parecer da Procuradoria-Geral da República, favorável ao relaxamento da prisão para que fosse tratado adequadamente.

Gilmar Mendes, o ladino decano do STF, já se movimenta nos bastidores para blindar a si e a seus colegas do risco de um impeachment pós-2026. Uma das ideias é retirar do cidadão brasileiro e atribuir ao procurador-geral da República a iniciativa para apresentar um pedido de impeachment de ministro do Supremo. Uma tolice: um parlamento eleito livremente pode, como ocorreu em El Salvador, derrubar o PGR que desafiar a vontade popular expressa nas urnas. Talvez seja difícil para ministros poderosos entenderem que todo poder emana do povo, e que seus artifícios legais jamais serão barreiras inexpugnáveis em um regime autenticamente democrático. Barricadas, como aquelas que o Comando Vermelho instalou em seus domínios nas favelas cariocas, podem ser enfrentadas. É o que demonstrou Cláudio Castro em seu dia de Bukele.

O ministro Gilmar Mendes em sessão plenária do STF (30/10/2025) | Foto: Luiz Silveira/STF

Há outro porquê na reação ríspida do establishment brasileiro, e seus consortes, à operação de Castro. E, de novo, quem aparece envolto em um lençol para assustar suas excelências é ele, o fantasmagórico Nayib Bukele. Com a credencial de quem conseguiu reduzir a taxa de homicídios de 53 para menos de 2 por 100 mil habitantes, Bukele declarou em um evento conservador, em março de 2025, sua incredulidade com a situação vivida pelo Brasil. “Como é possível que uma organização criminosa possa se apropriar de um território inteiro e o governo não possa tirá-la de lá?”, perguntou. Alguém próximo a ele arriscou uma resposta. “Por que estão dentro do governo.” De pronto, Bukele assentiu. “Por isso!”

É essa pergunta — e é essa resposta — que deixam o petismo e os seus fiadores dentro do STF em situação patética perante o mundo. Bukele chegou a citar vários países, como os Estados Unidos e mesmo o Canadá, com suas regiões inóspitas, e perguntou se alguém conhece, nessas nações, algum lugar que esteja fora do controle do Estado. Cláudio Castro apresentou a mesma provocação em suas primeiras declarações públicas após a operação, convidando os presentes a imaginar se, em qualquer grande cidade do mundo, como Nova York ou Barcelona, alguém que portasse um rifle semelhante aos do Comando Vermelho ficaria vivo por mais de 20 segundos.

O Senado instalou esta semana uma CPI para investigar o crime organizado no Brasil e o relator escolhido, Alessandro Vieira (PMDB-SE), afirmou que centrará seus esforços em buscar experiências bem-sucedidas de alguns Estados brasileiros no combate à criminalidade, incluindo Sergipe, sua base eleitoral. Um dos governadores, Romeu Zema, já fez o óbvio: foi a El Salvador conhecer o Centro de Confinamento do Terrorismo e saber de outras medidas que podem inspirar o Brasil. Mas dificilmente a CPI trará algum representante do governo de El Salvador para oferecer contribuições.

Há uma barricada impedindo o acesso a este debate.

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10 comentários
  1. Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva
    Luzia Helena Lacerda Nunes Da Silva

    Arrepiante seu artigo.
    Você é a melhor aquisição de Oeste dos últimos tempos.

    1. EUGENIO CARLOS BORGES ESBER
      EUGENIO CARLOS BORGES ESBER

      Muito obrigado pelo estímulo, Luzia. A OESTE precisa de pessoas que leiam e apóiem o jornalismo independente, como é o seu caso.

  2. Raimundo Nonato Costa
    Raimundo Nonato Costa

    Esta matéria poderia ser liberada pela revista para leitura do maior contingente possível, como contribuição para a libertação do Brasil em 2026.

    1. EUGENIO CARLOS BORGES ESBER
      EUGENIO CARLOS BORGES ESBER

      Creio que a OESTE já tenha este hábito de liberar conteúdos, Raimundo, mas agradeço a você pela sugestão.

  3. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Eugênio Esber foi cirúrgico.
    Não se combate o crime organizado no país porque as instituições são escudos para os criminosos.
    Simples assim.

    1. EUGENIO CARLOS BORGES ESBER
      EUGENIO CARLOS BORGES ESBER

      Grande parte dos brasileiros, Donizete, compartilham do seu ponto de vista.

  4. Renato Perim
    Renato Perim

    Concordo com todas as premissas do excelente colunista Eugênio Esber. Mas eu acho ele otimista demais. Esperar que sejam eleitos cidadãos honestos? Com nossas urnas? Com nossos eleitores? Tem muita gente honesta no brasil sim mas a quantidade de pilantras e bestas quadradas supera em dezenas de vezes. Temos muitos aproveitadores, coniventes, covardes, etc, pra ter esperança de um país melhor. Francamente eu não espero mais nada desse lugar. É daqui pra pior. Quem tiver condições que vá embora pra outro país com sua família.

    1. EUGENIO CARLOS BORGES ESBER
      EUGENIO CARLOS BORGES ESBER

      Entendo teu desencanto, Renato. Talvez eu esteja, mesmo, pecando por otimismo. Mas nascemos num país que amamos, e onde quer que estejamos, aqui ou lá fora, como nossos bravos refugiados/asilados/autoexilados, sempre estaremos tentando, e tentando, e tentando, fazer algo por nossa terra.

  5. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Anos atrás eu achava que o judiciário poderia limpar o congresso. Hoje temos de torcer por uma PEC da blindagem para que deputados criem coragem pra enfrentar o stf.

    1. EUGENIO CARLOS BORGES ESBER
      EUGENIO CARLOS BORGES ESBER

      Nossa esperança, Gilson,é 2026. Especialmente a eleição para o Senado.

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