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Ilustração: Feito por IA/Shutterstock
Edição 293

Já comprou seu bunker?

Bilionários estão se preparando para grandes catástrofes, mas uma empresa já oferece casas protegidas “de tudo” para pessoas comuns

“Mal a criatura me percebeu, fugiu com mais do que velocidade humana.
Fiquei imóvel; o trovão cessou, mas a chuva continuou, e a cena mergulhou numa
escuridão impenetrável. Pensei no ser que eu lançara entre os homens, dotando-o da
vontade e do poder de realizar propósitos de horror… quase como se fosse meu próprio
vampiro, meu próprio espírito liberto do túmulo e forçado a destruir tudo o que me era caro.”

Mary Shelley (Frankenstein)

A matéria de capa da revista TechLife News desta semana começa assim:

Convencidos de que a inteligência artificial poderá em breve superar o controle humano — ou que o colapso social poderá ocorrer — várias das figuras mais influentes da indústria de tecnologia se preparam para o que chamam de ‘transição’. Executivos como Sam Altman, Peter Thiel e Mark Zuckerberg investem milhões em complexos de sobrevivência, ilhas particulares e sistemas de segurança controlados por IA, apostando que sua riqueza e visão podem protegê-los das consequências de suas próprias criações.”

Aparentemente, é um absurdo: esse pessoal cria a inteligência artificial e depois vai se esconder dela em bunkers, deixando-nos ao relento, pagando a mensalidade pelo serviço que eles criaram? E mais: para fugir da IA, eles criam um sistema de isolamento controlado por IA? Não tem lógica. De qualquer jeito, os movimentos dessa elite tecnológica ainda estão imersos em segredo. Talvez a gente nunca saiba como realmente são esses bunkers.

Sam Altman, o CEO da OpenAI (criadora do ChatGPT), já revelou que estocou “armas, ouro e máscaras de gás” para emergências “relacionadas à inteligência artificial ou à bioengenharia”. Segundo a matéria da TechLife News, “muitos desses líderes — antes futuristas otimistas — agora parecem administradores cautelosos, cientes de que o progresso pode se transformar em perturbação mais rápido do que eles conseguem administrar”.

Para o autor da reportagem, Douglas Rushkoff, que se especializou em temas de ética e tecnologia, esses magnatas da IA vivem numa “mentalidade de fuga”. Para Rushkoff, “eles não querem consertar o mundo. Eles querem uma versão do mundo que continue a servi-los.”

“O paradoxo da era da IA ​​é que seus avanços mais transformadores vêm acompanhados do medo do colapso”, conclui a reportagem da TechLife News. “As mesmas pessoas que financiam pesquisas sobre superinteligência e imortalidade digital também se preparam para cenários em que a própria civilização se tornará obsoleta. Se o futuro se desenrolará como um apocalipse ou um renascimento dependerá menos das máquinas e mais das escolhas humanas que as guiam. Mas, por enquanto, a divisão está aumentando: enquanto a maior parte do mundo enfrenta as incertezas da automação, os poucos que a construíram estão se preparando — literalmente — para o que vier a seguir”.

Christopher McFadden, da revista Interesting Engineering (“Engenharia Interessante”), acha que essas informações alarmistas são exageradas. Segundo ele, o dono da Meta, Mark Zuckerberg, está “construindo um enorme complexo no Havaí, supostamente com um enorme abrigo subterrâneo, embora ele negue que seja um ‘bunker do juízo final’”. Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, também estaria usando seus US$ 2,5 bilhões na construção de uma residência com seguro contra apocalipse na Nova Zelândia. 

Ilustração: Feito por IA/Shutterstock

O bunker do Führer

Adolf Hitler terminou sua carreira num bunker. Após provocar direta ou indiretamente a morte de 20 milhões de pessoas, Hitler se refugiou numa casa subterrânea de trinta cômodos que havia mandado construir debaixo da Chancelaria, em Berlim, sede do governo alemão. Enquanto as forças aliadas bombardeavam a cidade, o Führer passou sua última semana trancado com a mulher e os cúmplices Martin Bormann e Joseph Goebbels e sua família. Com as luzes permanentemente acesas, Hitler foi perdendo qualquer contato com a realidade. Às 15h30 do dia 30 de abril de 1945, ele entrou com a mulher, Eva Braun, num dos cômodos do bunker. Eva tomou uma cápsula de veneno. Hitler deu um tiro na própria cabeça.

Eva Braun ao lado de Adolf Hitler | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Abrigos subterrâneos reforçados existem desde a Antiguidade. Assírios, persas e gregos já escavavam túneis e câmaras para proteção militar e estocagem de grãos. O conceito moderno de bunker se desenvolveu durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Bunkers foram uma obsessão durante a década de 1950 e 1960, quando parecia certo que a União Soviética e os Estados Unidos iriam se destruir mutuamente numa chuva de ogivas nucleares. Famílias compravam casas subterrâneas, isoladas contra infiltrações e radiação nuclear. As pessoas acumulavam comida em lata, galões de água e contavam com um rádio para tentar se informar sobre o que estava acontecendo no mundo exterior — se é que haveria um mundo exterior. 

Na década de 2020, empresas como a americana Rising S e a checo-suíça Oppidum passaram a vender um novo conceito de bunker — residências subterrâneas luxuosas, com spas, cinemas e jardins internos. Os clientes passaram a ser os muito, muito ricos.

Algumas opções de plantas baixas para serem construídas dentro dos abrigos subterrâneos do complexo Vivos xPoint, apresentadas pela empresa Vivos | Foto: Divulgação

A Inteligência Artificial Geral

Novas ameaças reforçaram, em teoria, a necessidade de bunkers. A ameaça nuclear hoje é ainda maior. A possibilidade de um acidente (ou terrorismo) biológico semelhante ao da covid-19 criou mais um fator de medo. De certa forma, todos nós fomos obrigados a transformar nossas casas em bunkers, ainda que precários.

E agora temos a ameaça teórica da Inteligência Artificial Geral (IAG). É a capacidade hipotética de uma IA de compreender ou aprender qualquer tarefa intelectual de que um ser humano seja capaz. A partir daí, não haveria mais a capacidade de distinguir o que seria humano e o que seria IA. O que levaria, segundo os mais alarmistas, ao domínio do planeta pelas máquinas — as quais nos jogariam no lixo da obsolescência.

Essa ameaça é real? É paranoia? De qualquer jeito, já virou uma bandeira para a esquerda reclamar dos vilões da hora, os “bilionários”. Porque só os muito ricos teriam o direito de sobreviver num bunker em caso de catástrofe apocalíptica.

Bunkers para todos

Para frustração dos esquerdistas, empresários já estão construindo bunkers para pessoas comuns. A empresa Vivos oferece refúgios a partir de US$ 55 mil (pouco menos de R$ 300 mil), mais um pagamento de aluguel pelo terreno de US$ 1.091 (R$ 5,8 mil) por ano.

O Vivos xPoint é chamado de “a maior comunidade de sobrevivência da Terra”. São 575 bunkers “à prova de tudo” localizados na cidade de Edgemont, no Estado americano da Dakota do Sul. A área onde essas construções estão instaladas, segundo a empresa, equivale a três quartos da ilha de Manhattan.

Segundo a Vivos, cada um dos bunkers tem a capacidade de acomodar “confortavelmente” de 10 a 24 pessoas por um ano ou mais. A empresa garante que “a proteção vale para praticamente todas as ameaças conhecidas, pois cada bunker inclui uma enorme porta de proteção de concreto e aço, que veda qualquer permeação de água, ar ou gás, poços de ventilação de ar e exaustão e uma saída de emergência secundária.”

Precisaremos todos de bunkers? Se a humanidade chegar a esse ponto, o próprio conceito de civilização já estará destruído. Infelizmente, é uma possibilidade real. 

A ameaça da Inteligência Artificial Geral continua sendo uma teoria ainda no terreno da ficção científica. A covid-19 pode ter sido apenas um ensaio de contaminação global num mundo interconectado.

A ameaça mais concreta continua sendo as 12.241 ogivas nucleares acumuladas por nove países. O maior estoque delas (4.309) está na Rússia, um país hoje governado por um homem que acha seu direito invadir países vizinhos e todos os dias ameaça usá-las. Cinquenta ogivas estão nas mãos de uma espécie de Nicolás Maduro da Coreia do Norte. Basta um acidente, um mal-entendido, um problema técnico — e em minutos os mísseis começarão a voar.

Já comprou seu bunker?

Imagem do interior de um bunker do complexo Vivos xPoint, da empresa Vivos | Foto: Divulgação

***

Existem bunkers no Brasil?

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Getúlio Vargas determinou que edifícios residenciais e comerciais no Rio de Janeiro com mais de 1,2 mil metros quadrados deveriam ter bunkers. O Rio era a capital do país e havia o receio de ataque, já que o Brasil havia declarado guerra ao Eixo nazifascista. Submarinos da marinha alemã invadiam constantemente o litoral brasileiro. Um dos maiores bunkers foi o da galeria Menescal, que tinha a capacidade de abrigar quase mil pessoas. A arquiteta Isabella Cavallero identificou mais de 30 abrigos construídos no Rio durante a Segunda Guerra.

O empresário André Luiz Freitas, de Joinville (SC), está construindo desde 2023 seu próprio bunker em sua fazenda e garante que estará preparado até para um ataque nuclear. Ele e sua mulher, Maria Elizia Soares, são fanáticos por filmes de zumbis.

Imagens da construção do bunker de André Luiz | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Já existem pelo menos oito empresas brasileiras atuando nesse setor. Algumas, como a AureaMedic, especializaram-se numa área específica, a de proteção radiológica. Ou seja, a construção de áreas para retenção de material radioativo usado nos hospitais. A falta de um bunker causou um acidente grave com césio-137 num hospital de Goiânia em 1987.

Também existem empresas brasileiras produzindo bunkers residenciais sob sigilo. Em 2020, uma das construtoras, a RCI First, estimou que havia 63 bunkers instalados no Brasil, 53 no estado de São Paulo. Eles estariam concentrados em casas dos muito ricos em bairros de elite. 

Alguns desses bunkers contariam com o chamado “quarto do pânico”, para que os moradores se isolassem completamente do mundo exterior em caso de ataque. O maior desses bunkers, segundo reportagem da revista Superinteressante, teria 120 metros quadrados, decorado com “obras de arte, móveis assinados por designers renomados e porcelana importada”.


dagomirmarquezi.com
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6 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    Eles pretendem que passemos a viver em distritos subterrâneos igual jogos Vorazes? Deus nos livre

  2. Maria José de Lacerda
    Maria José de Lacerda

    Na realidade o homem cria por vaidade e orgulho, mas quando a consciência retoma o seu papel inafastável, já não sabem mais o que fazer.com o monstro criado por suas ideações doentias de poder.. o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Eles não são imortais, e até dentro de um Bunker a vida tem um fim. E ele pode ser doloroso e cruel. A evolução deve ser pensada com responsabilidade, pois do contrário pode ser tão primitiva como foi na idade da pedra!

  3. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    Não é que eles achem que a “criação” deles vá sair de controle. Eles sabem que a IA foi criada e programada por gente que ODEIA a humanidade. Não ser como nos filmes em que cientistas desenvolve uma criatura, esta desperta, supera as espectativas, desenvolve auto-consciência, se torna maligna, resolve destruir a humanidade. A IA foi desenvolvida por gente que deseja o último estágio.

  4. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Eu estou tranquilo a respeito da máquina substituir o homem. Máquina nenhuma vai substituir o humano porque o humano tem uma mente que é mística e insubstituível capaz de criar a inteligência artificial e de desmanchá-la. Agora o bunker é correto porque a terceira guerra mundial está próxima e talvez os bunkers não sirva pra nada

  5. Felipe Polido Fernandes
    Felipe Polido Fernandes

    Como cristão, não acredito em nada disso de Revolução das máquinas, zumbis, etc. Acredito no que está escrito no livro de Apocalipse

  6. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Dagomir Marquezi, inacreditável esse artigo, somente você para me por ao par do que acontece nesse mundo tecnológico. Não sabia que no Brasil há bunckers e que existem milionários investindo na área desse segmento de segurança máxima “plus”.Gostei de ler,obrigada.

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