No princípio, eram as trevas na Primeira Turma do Supremo, até que Fux ordenou: Fiat lux! E a luz foi feita nos seus votos. O primeiro, mostrando que para condenar são necessários fatos, provas e não narrativas e suposições; no segundo, veio a luz da sabedoria, pesando na balança da Justiça e encontrando a virtude da humildade para confessar o erro, arrepender-se e decidir não persistir no equívoco, não errar mais, em nome da Justiça e do Estado de Direito. Para seus pares, aconselhou: “Não há demérito maior que o juiz pactuar com seu próprio equívoco”. Era como se um juiz romano pontificasse: Errare, humanum est; perseverare in errore, diabolicum. Errar é humano, mas insistir no erro é diabólico.
Já no voto de 10 de setembro, em que absolveu Bolsonaro e outros, Fux deu uma aula magna de Direito. Escancarou os desvios do devido processo legal; mostrou que não havia provas, apenas criações; que o processo deveria estar na primeira instância, que não há crime em cogitações de crime; lembrou que é preciso individualizar cada acusação, ao contrário do genérico adotado pelo relator. Aliás, demoliu todos os argumentos do relator Morais. Mesmo assim, os demais da Primeira Turma ficaram anestesiados à lógica e à aula de Estado de Direito. O resultado foi 4 a 1. O certo ficou só.
Talvez o voto de Fux em setembro o tenha obrigado a reexaminar toda a questão do 8 de janeiro e ele acabou fazendo um exame de consciência nos votos que emitira pelas condenações dos que já haviam sido julgados. Então veio a sua catarse no voto desta semana, julgando os do “núcleo da desinformação”. Foi um voto dirigido a seus pares da turma, exortando-os a voltar às quatro linhas da Constituição. Mas primeiro fez confissão de seus pecados, de ter cometido injustiças ao condenar outros do 8 de janeiro. “O tempo e a consciência não permitem sustentar os mesmos votos, após examinar os fatos com serenidade, à luz das garantias constitucionais”. Um juiz precisa de serenidade; não de pressa, muito menos da raiva da vingança. Deve ter lembrado de outro truísmo do Direito Romano, Gratia et Iustitia, quando ponderou que “o sofrimento dos que esperam justiça não pode ser em vão”.
Foi a forma cavalheiresca que ele encontrou para exortar seus colegas a imitarem-no em arrependimento e correção de rumo, ainda que o espírito de corpo tenha a tendência natural de salvar aparências, uma imagem do Supremo que o próprio Fux já havia diagnosticado, ao assumir a presidência da corte em 10 de setembro de 2020, de que estava se deteriorando na medida em que dava resposta a tudo, se metendo em assuntos da esfera político-legislativa e, na ocasião, pediu que seus pares tivessem a virtude passiva. O que se viu foi o ativismo judicial abertamente defendido por Barroso, que chegou ao ápice com a declaração pública de que “nós derrotamos o bolsonarismo”. Agora seus sucessores estão concluindo a obra ao condenarem o bolsonarismo. No voto-exortação, Fux sentenciou: “Há mais coragem em ser justo parecendo ser injusto do que ser justo para salvaguardar as aparências da Justiça.”
No mesmo voto, Fux ponderou que, num momento de comoção nacional, a Justiça procurou oferecer uma resposta rápida para impedir a instabilidade político-social. “Precipitação travestida de prudência”, como percebe Fux agora. Mas a lógica da urgência incorreu em injustiça — argumentou ele. “O meu realinhamento não significa fragilidade, mas firmeza na defesa do Estado de Direito.” É disso que fala eloquentemente a tarifa de 40% sobre exportações brasileiras para os Estados Unidos. O distanciamento do Estado de Direito — como deve ter dito Marco Rubio para Mauro Vieira no encontro a sós na Casa Branca. Fux insistiu com seus exemplos para a Primeira Turma: “Com o passar do tempo, amadurece o senso de humanidade — e coragem para reexaminar nossos próprios vereditos.” Coragem e humildade que ainda não chegaram à turma, que mais uma vez deixou Fux como único voto certo.
“Precipitação travestida de prudência”, como percebe Fux agora. Mas a lógica da urgência incorreu em injustiça — argumentou ele. “O meu realinhamento não significa fragilidade, mas firmeza na defesa do Estado de Direito.”
Dito isso, ele pediu, e o presidente Fachin concordou, para mudar para a Segunda Turma, onde ficou aberta a vaga de Barroso. Uma simples mudança estratégica que provoca grandes mudanças. Antes, havia maioria de um mesmo lado em ambas as turmas. Agora, inverte a maioria na Segunda Turma. De um lado, Fux, Nunes Marques e André Mendonça; de outro, Gilmar e Toffoli. Três a dois, agora com sinal invertido. Fux, sorteado relator do recurso contra o TSE sobre inelegibilidade de Bolsonaro, pode julgar o recurso na sua nova turma. E ainda existe o Senado, por onde o indicado por Lula deve passar por sabatina, para saber se preenche a principal exigência constitucional de “notável saber jurídico”. Notável, como lembra Ives Gandra, é muito acima da média; é expoente, modelo e fonte em saber jurídico.

“Mas o tempo, esse árbitro silencioso e implacável, tem o dom de dissipar as brumas da paixão, revelar os contornos mais íntimos da verdade e expor os pontos que, conquanto movidos pelas melhores intenções, redundaram em injustiça”, disse Fux, na sua cadeira de confessionário e púlpito de pregação. Parece uma manifestação extraordinária, mas deveria ser lugar-comum, rotina. Parece algo extraordinário porque afundamos no atoleiro dos desvios. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Fiat Fux! Faça-se a luz para os cegos verem.
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Uma vaga no Supremo demanda além da indicação pelo Presidente da República, da conhecida idoneidade moral e o bem vindo notável saber jurídico. O problema é que de uns tempos para cá esses requisitos foram relegados não ao segundo, mas quinto plano. Hoje há ministros que afora a indicação e a sabatina, não têm a menor condição de atender a idoneidade e ao notável saber. Um ministro atual, debochadamente, ante sua ignorância jurídica, foi apelidado por seus pares de ESTAGIÁRIO. Há quem se declare COMUNISTA, há o ADVOGADO DO PRESIDENTE, o REPRESENTANTE DO CRIME ORGANIZADO, O ADVOGADO DO PCC. Não poderia ocorrer maiores desmoralizações com tantos nomes que jamais poderiam estar em uma Suprema Corte, mas interrogados em uma delegacia de polícia. Assim caminhamos não para premiar o saber, a idoneidade, mas para desmoralizar e popularizar cada vez mais aquilo que deveria ser maior prêmio para juristas de renome.
O voto do ministro Fux foi brilhante e reacendeu a minha esperança de que tudo pudesse mudar, mas não adiantou. Creio que foi um pouco tarde. Que pena
Toda a farsa cairá em breve. Tenhamos fé em Deus e em Seu plano
Não acredito em uma só palavra desse Fux. Ele continua sendo morde e assopra. Se ele fosse decente não daria liminar e habeas-corpus para ladrão de velhinhos ficarem calados e ou ficar em silêncio sem poder ser preso no país que tudo pode, menos ser honesto
texto maravilhoso.
Alexandre é do time certo.
jornalismo responsável e justo.
que de fato haja LUZ neste STF repleto de injustiças.
👏 Bem percebido, Alexandre. Que época!
Matéria irretocável do mestre Alexandre Garcia.
Em terra de cego quem tem um olho é rei.
Não seria necessário muito esforço para Fux se destacar em meio a seus pares, mas ele foi brilhante, como um enviado para resgatar a sanidade.
De fato, o cenário é mais complexo. Há ministros que não agem mais por si, mas são chantageados. Rabo preso é doença grave.
Que Deus ilumine e proteja Fux para que ele seja um verdadeiro instrumento de justiça.
Excelente artigo.
Esse artigo do mestre Alexandre Garcia deveria ser transformado em um quadro, para ser exposto em todas as faculdades de letras, de jornalismo, de direito e em todos os tribunais do país. Mais do que um artigo, é uma poesia em homenagem ao bom juiz, àqueles que julgam desprovidos de idéias pré concebidas, e dos humildes que reconhecem sua falibilidade. Parabéns ao insuperável mestre Alexandre. Seus artigos nos enchem de esperanças!
Gosaria que atendesse a um pedido de um velho jonalista do interior, da colônia, do fundo do sertão. Hoje no Oeste sem Filtro, gostaria de saber de ti se é verdade (oficialmente) que Messias e Pacheco tiveram seus vistos cancelados nos EUA. Lembrei que para nomeação de um membro do STF o Senado deve sabatiná=lo, além de ver cumpridas exigências constituicionais, como pessoa ilibada e de largo saber. Se os citados foram sancionados é porque há um crime (não é suposição) e, por esta razão, não poderão passar na sabatina. Como jungir para um cargo que se exige da pessoa uma ficha corrida bem limpa e eles já estão com a “ficha suja” internacionalmente? Eu me arrependo dos meus peados, mas não posso pedir aos outros que tambem sigam meu exemplo.
sabias palavras Sr Alexandre, o ministro Fux teve a oportunidade e a coerencia de mudar de opinião e fazer justiça aos injustiçados do 8/1, porem o SR Barroso vai se corroer, pois agora ficou incapaz de mudar de atitude e praticar justiça, sabe que estava errado e vai se correr no ostracismo……