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Cena e poster do filme "O Testamento do Dr. Mabuse" | Foto: Montagem Revista Oeste/Wikimedia Commons/Divulgação
Edição 290

Trump, Hegseth e o retorno da sanidade

A esquerda global consagrou a insanidade e a iniquidade em lei, relegando os sãos e os justos à condição de párias, extremistas e virtuais criminosos

“Prepare-se, caro leitor, e prepare seus filhos e netos, para viver num mundo de alucinações e fantasias desnorteantes, onde conhecer a verdade mesmo sobre coisas simples será um desafio que só pessoas investidas de uma coragem intelectual fora do comum poderão vencer. Prepare-se para viver no hospício do Dr. Mabuse, onde o mais louco dos pacientes faz a cabeça dos médicos e os coloca a serviço de seus planos malignos”.

As palavras acima foram escritas por Olavo de Carvalho em novembro de 2009, em artigo no Diário do Comércio. Aquele ano era o primeiro do governo de Barack Obama nos EUA, eleito com a promessa (ou ameaça) de “transformar fundamentalmente a América”. A palavra “fundamentalmente” deve ser destacada. O “organizador comunitário”, discípulo de Saul Alinsky, prometia não apenas uma mudança de governo, mas uma mudança nos fundamentos da nação que, desde a sua independência (um processo de alcance axiológico universal), passou a ser considerada como um farol do mundo livre, da soberania nacional, da democracia representativa, das liberdades civis e da ordem constitucional liberal-burguesa.

O presidente Barack Obama faz o juramento de posse durante a 56ª cerimônia de posse presidencial, em Washington, D.C., EUA (20/1/2009) | Foto: Wikimedia Commons

Obama e seus aliados políticos cumpriram a promessa, virando a América de ponta-cabeça e consagrando em política de Estado toda a agenda radical da esquerda das últimas décadas, em especial a ideologia do identitarismo woke e do antiamericanismo. Com Obama, Clinton, Biden etc., os EUA criaram o Complexo Industrial de Censura e passaram a exportar, em lugar de liberdades e direitos civis, uma sofisticada tecnologia de perseguição e controle político de dissidentes. Exportaram também os métodos de ação política terrorista e divisionista adotados por movimentos tais como Antifa e Black Lives Matter, fartamente financiados por agências governamentais (como a Usaid) e organizações pseudofilantrópicas como as de Soros, Rockefeller, Omidyar etc. E exportaram, sobretudo, o transtorno mental coletivo chamado de transgenderismo, que hoje produz em série militantes tanto mais raivosos e violentos quanto mais institucionalmente chancelados em seu delírio de interpretação (no sentido do termo conferido pelo psiquiatra francês Paul Sérieux).

Há, então, ao menos uma década e meia desde que a esquerda global consagrou a insanidade e a iniquidade em lei, relegando os sãos e os justos à condição de párias, extremistas e virtuais criminosos. Nesse tempo, a assim chamada imprensa “profissional” (ou mainstream media, como dizem os americanos) converteu-se no principal mecanismo de normalização e normatização dessa drástica inversão revolucionária promovida pela esquerda nos campos da ética, da estética, do conhecimento, da vida religiosa etc. A loucura passou a ser vendida como lucidez, a aberração como virtude, e o bom senso mais elementar — segundo o qual, por exemplo, um homem vestido de mulher não é uma mulher — virou crime contra a humanidade.

Foto: Shutterstock

Note-se que, nas mãos da imprensa “profissional”, até mesmo os gestos mais triviais da vida cotidiana foram ostracizados e proscritos. O churrasco de domingo passou a ser apresentado como vilão do aquecimento global, um gravíssimo crime de ódio contra a biosfera. Segundo estudos “científicos” convenientemente pinçados (e generosamente financiados), meninas que apreciam princesas da Disney são brutalmente lesadas em sua autoestima. Caso você tenha pensado em presentear meninas com bonecas e meninos com carrinhos, saiba que está cometendo uma crueldade simbólica grave, ao reforçar peremptoriamente os estereótipos de gênero. Nem o hábito masculino de vestir cuecas escapou ileso da polícia woke de costumes, pois o novo mandamento impõe lingeries masculinas, as quais, “dizem especialistas”, reduzem a masculinidade tóxica.

Em seu artigo de 2009, significativamente intitulado “No hospício do Dr. Mabuse”, Olavo faz referência ao filme O Testamento do Dr. Mabuse, um clássico do expressionismo alemão. Nele, o cineasta Fritz Lang nos apresenta o arquétipo do manipulador mental, um mestre do crime que, apesar de preso, continua a governar uma rede de assassinatos, fraudes e terror psicológico à distância. Mais que cometer crimes, Mabuse — o personagem-título — controla mentes, fomenta o caos e transforma a própria percepção da realidade em seu instrumento de poder, criando um verdadeiro hospício social. O filme serve de metáfora da vulnerabilidade das instituições e da sociedade diante de indivíduos ou ideias que operam pela manipulação psicológica, sugerindo que a loucura e o mal podem prosperar mesmo quando parecem derrotados.

Cena do filme O Testamento do Dr. Mabuse | Foto: Divulgação

Coincidentemente lançada no ano da ascensão do nazismo, a obra antecipa com inquietante precisão a atmosfera de medo, obediência cega e controle ideológico que viria a dominar a Alemanha e a Europa nos anos seguintes. Mabuse encarna o totalitarismo em sua forma mais abstrata, que não consiste apenas na subjugação de corpos, mas na subversão das consciências e na corrupção das normas, em decorrência do que cidadãos comuns se tornam cúmplices ou vítimas da própria manipulação. Daí que o filme não é apenas um thriller de suspense, servindo também como um tratado moral e uma advertência política contra ideias malignas que, disseminadas de maneira sistemática e quase invisível, podem alterar permanentemente a percepção do bem e do mal, invertendo padrões de sanidade e normalidade.

Lang antecipa, assim, um princípio que seria observado décadas depois: a eficácia do poder totalitário não reside apenas na força, mas na capacidade de transformar o absurdo em normalidade, a loucura em virtude e o medo em obediência, com consequências devastadoras para a sociedade inteira. O terror psicológico de Mabuse é, portanto, uma premonição cinematográfica da ascensão de regimes ideológicos que manipulam a realidade e subordinam a razão ao delírio organizado e às psicoses de massa politicamente induzidas.

O hospício civilizacional mabuseano, há tempos denunciado por Olavo (cujo hábito de ter razão já é bastante conhecido), fornece o contexto da reação histérica de militantes de redação (inclusive brasileiros) contra Pete Hegseth, secretário de Guerra do governo Trump, que decidiu proibir militares obesos, fora de forma e as extravagâncias do transativismo (outrora oficializado no governo Biden). Para escândalo da esquerda, o secretário apelou ao senso comum: nas forças armadas americanas, os soldados devem ser física e mentalmente aptos. O horror! O horror!

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, participam de uma reunião de gabinete na Casa Branca, em Washington, D.C., EUA (26/8/2025) | Foto: Reuters/Jonathan Ernst/Foto de arquivo

A restauração do senso comum, ainda que parcial, é, paradoxalmente, a maior revolução possível num mundo que já parecia irreversivelmente mergulhado no hospício do Dr. Mabuse. Por fim, em homenagem aos muitos militantes de redação que, após décadas confortavelmente instalados no mundo às avessas projetado por suas taras ideológicas, passaram a se escandalizar com o mundo real das pessoas comuns, deixo aqui este humilde sonetinho de minha lavra, dedicado à jornalista Leilane Neubarth, a quem Trump e Hegseth magoaram tão cruelmente.

Bom senso, senso atroz

O esbugalho habitual

Mais e mais se esbugalha

Pesa assim, que nem cangalha,

Na tez da ruiva global.

Há espanto sem igual

Percorrendo os olhos fitos.

Um a um, desabam os mitos.

É notícia ou funeral?

“Não mais gordos na trincheira?”

Revolta-se, resoluta.

“Ou se é padre, ou se é freira?”

Pois é vã tanta careta.

Trump e Hegseth com a batuta.

Haja tarja — e tarja preta!

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6 comentários
  1. Maria Lucia Benevides de Schueler
    Maria Lucia Benevides de Schueler

    Excelente texto! Nem sempre a verdade agrada. Parabéns!

  2. Paulo Roberto Pazinatto
    Paulo Roberto Pazinatto

    É ridícula essa estória de que general não pode ser gordo. Desde quando eles estão na linha de frente, aonde a aptidão física é importante? Generais tem que ser bons estrategistas e conhecer a máquina da guerra. Se é gordo, magro, etc,,, não importa. Ao ver a revista aplaudir tudo o que Trump faz e determina, sem nenhuma crítica, tenho cada vez mais a certeza de que não irei renovar a assinatura.. Grande decepção esta revista Oeste !

    1. Julio José Pinto Eira Velha
      Julio José Pinto Eira Velha

      Se for por falta de adeus, até logo.

  3. Emilio Sani
    Emilio Sani

    Como sempre, mais um excelente texto e melhor ainda foi a dedicação do soneto!

  4. Joaz Santana Praxedes
    Joaz Santana Praxedes

    Maravilha! Que Deus o abençoe, creia o senhor nele ou não.

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