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Javier Milei, presidente da Argentina | Foto: Reuters/Cesar Olmedo
Edição 290

Javier Milei no momento mais crítico do seu governo

Presidente argentino já obteve resultados positivos, mas ainda não conseguiu cumprir algumas promessas

No aspecto econômico, o eleitor do libertário não tem do que reclamar. Milei assumiu prometendo um “choque” reformista para incentivar o investimento interno e externo, um corte drástico do gasto público para derrotar a inflação, o objetivo inegociável de ter no seu governo um superávit fiscal ou primário (gastar menos do que arrecada) e outro objetivo improvável, mas não impossível, o de conseguir um superávit financeiro ou nominal. Explicado de forma simples: o governo arrecada, gasta, sobra dinheiro, paga os juros da dívida e ainda assim continua sobrando dinheiro.

O compromisso com o fiscal melhorou e muito a macroeconomia, a bolsa de Buenos Aires subiu, o dólar se tranquilizou, “o filme da nova Argentina” tinha roteiro atualizado e, pela primeira vez em muito tempo, o final parecia ser feliz.

O problema estava na microeconomia. Em agosto de 2024, o indicador de pobreza da Universidad Catolica Argentina (equivalente à PUC no Brasil) mostrava que quase 53% dos argentinos estavam em situação de pobreza. A esquerda apostou que somente este indicador seria suficiente para que o governo Milei começasse a se desintegrar, mas as pesquisas de opinião mostravam que ele continuava forte, tanto na imagem pessoal como na do governo.

Seu primeiro ano atraiu a atenção internacional justamente pelo grau de audácia e ruptura com modelos econômicos tradicionais na América Latina.

Seu primeiro ano atraiu a atenção internacional justamente pelo grau de audácia | Foto: Reuters/Agustin Marcarian

Acertos e avanços: o que já conseguiu implementar

Embora seu governo ainda esteja na primeira metade, já há alguns resultados positivos e medidas que podem ser consideradas acertos ou conquistas tangíveis.

Uma de suas promessas centrais era combater a inflação e recuperar a estabilidade monetária. Em seu primeiro ano e nos meses seguintes, houve uma desaceleração da taxa de inflação mensal em relação aos níveis extremamente elevados que havia herdado.

Apenas como referência, o indicador de inflação mensal de dezembro de 2023 (mês em que Milei assumiu o mandato) foi de 25,5%. A inflação de julho de 2025 foi de 1,9%.

Algumas análises destacam que Milei conseguiu recuperar parte da confiança do mercado financeiro e de investidores justamente por sinalizar seriedade nas reformas e comprometimento com a política fiscal, mesmo sob risco político.

Promessas não cumpridas e obstáculos observados até agora

Ao lado dos avanços, há um conjunto significativo de promessas ainda não cumpridas ou parcialmente realizadas, bem como problemas emergentes cujas soluções enfrentam resistência ou inviabilidade prática.

1. Privatizações e ajuste estrutural parcial

Parte da promessa de privatizar empresas estatais e reduzir drasticamente o tamanho do Estado ainda não foi plenamente executada. Algumas privatizações previstas encontram forte oposição política e jurídica.

A reforma setorial (tributária, trabalhista, regulatória) ainda avança com muitos vetos, condicionalidades ou adaptações legislativas, o que reduz o escopo original das propostas.

2. Desigualdade social, pobreza e custo político

Embora tenha havido alguma melhora estatística nos indicadores sociais, o “ajuste” tem impactos reais na população mais vulnerável: cortes em subsídios, reduções no gasto social e a eliminação de intermediários políticos nos programas podem gerar tensões sociais e reações negativas no horizonte de curto prazo.

Os protestos e a resistência social têm sido constantes: manifestações contra as reformas, as greves e as mobilizações sindicais questionam a legitimidade e os efeitos sociais das medidas.

A promessa de “cortar 90% dos impostos nacionais”, anunciada para 2025, ainda não se materializou ou foi intensamente moderada para não gerar colapsos fiscais dramáticos.

3. Institucionalidade e conflitos com o Congresso

Milei enfrenta resistências e derrotas políticas no Senado e na Câmara, sobretudo em suas tentativas de nomeações ou reformas institucionais. Por exemplo, tentou nomear juízes para a Suprema Corte por decreto. Essas escolhas foram rechaçadas pelo Senado, marcando fracassos políticos.

A falta de maioria no Legislativo torna cada proposta vulnerável a modificações não desejadas pelo governo Milei, a rejeições ou diluição de conteúdo, o que compromete a amplitude original das reformas.

Até agora, não há um consenso claro entre províncias e governo nacional para reformas profundas de distribuição de receitas e autonomia provincial — uma pendência importante para avançar no pacto federativo.

4. Sustentabilidade dos resultados e vulnerabilidade externa

O sucesso das reformas depende fortemente de fatores externos, como fluxos de investimento estrangeiro, condições nos mercados internacionais e apoio financeiro externo. Se esses fatores não se concretizarem ou forem voláteis, o governo vai estar vulnerável.

5. Dolarização da economia e fechamento do Banco Central longe de se concretizar

Até agora, as duas promessas mais ousadas — dolarizar a economia e fechar o Banco Central — ainda não foram implementadas ou foram adiadas para evitar choque excessivo.

Dolarizar a economia e fechar o Banco Central | Foto: Shutterstock

A suspeita de corrupção está batendo à porta do governo Milei

Uma das suas frases de efeito de campanha foi: “a casta está com medo”. Quando Milei fazia referência à “casta”, referia-se aos políticos tradicionais, acusados de corrupção, com quiosques nos diferentes governos e que tentavam — com a ajuda de sindicalistas, empresários que perderam importantes contratos estatais e ONGs que deixaram de arrecadar recursos públicos — sujar o presidente argentino.

Só que a sujeira apareceu dentro do próprio governo Milei. A primeira denúncia veio do círculo vermelho do presidente argentino. Diego Orlando Spagnuolo era diretor da Agência Nacional de Deficiência (Andis), pessoa com acesso livre à residência presidencial que teve vazados áudios em que acusa a irmã do presidente, Karina Milei, de ter recebido dinheiro de alguns laboratórios farmacêuticos.

Diego Spagnuolo e o presidente Javier Milei | Foto: Reprodução/La Nación

Esses áudios foram amplamente veiculados na imprensa argentina, sobretudo na parte da imprensa que perdeu os aportes da conhecida “pauta publicitária do governo”, e provocou a desconfiança do eleitorado, que acusou Milei de ser parte da mesma “casta” que tanto propôs combater.

A segunda denúncia é recente e pega em cheio o principal candidato de Milei a deputado federal pela província de Buenos Aires: Jose Luis Espert. Deputado federal que busca a reeleição, Espert é acusado de ter vínculos com um narcotraficante preso na província de Rio Negro (Argentina) e que tem pedido de extradição dos Estados Unidos.

Um representante da oposição ao governo, Juan Grabois, invasor de terras e defensor de bandidos que saem armados para roubar, denunciou Espert. Agora o governo deve resolver se mantém o seu apoio ao candidato libertário, se pede sua saída como candidato ou se finge que nada está se passando e espera que o tempo faça sua parte.

Falta menos de um mês para as eleições que renovarão um terço do Senado e metade dos deputados. As pesquisas eleitorais mostram empate técnico entre governo e oposição, mas se imagina que essas duas denúncias possam corroer o ativo político de Milei.

A importância das eleições e os desafios no curto prazo

As eleições legislativas de outubro de 2025 representarão um divisor de águas para o governo Milei. Será o momento de consolidar apoio, provar resultados e evitar uma reação política que degrade sua capacidade de governar.

Hoje, o partido de Milei, La Libertad Avanza, conta com seis senadores (de 72) e 39 deputados (de 257). Nenhum dos senadores de Milei está buscando a reeleição, por isso, qualquer que seja o resultado, Milei deverá ter senadores que hoje não tem.

Na Câmara de Deputados, o partido buscará a reeleição de 8 dos 39 deputados e tem como objetivo obter 80 vagas para se equiparar aos 98 deputados da oposição (esquerda).

O problema político não está apenas nas denúncias de corrupção próxima ao presidente, como também na falta de controle emocional do presidente argentino. Quem ousa contradizer o libertário é criticado publicamente e acusado de conspirar contra o projeto de melhora nacional. A lista de agredidos inclui jornalistas, ex-aliados políticos, empresários, operadores do setor financeiro e até amigos (ou ex-amigos). Políticos experientes afirmam que um presidente pode até brigar com alguns, mas não pode abrir frente de batalha com todos.

Milei estava acostumado a gritar nos programas de televisão e isso dava audiência. As brigas com quem, na maioria das vezes, faz uma crítica respeitosa ao presidente, podem corroer parte do eleitorado que deseja ver um estadista justificando ações, propondo políticas públicas e combatendo a corrupção (mesmo que para isso tenha de retirar do governo até sua própria irmã), em lugar de ver um briguento que não fala com sua vice-presidente, Victoria Villarruel, não constrói alianças (desqualifica de forma permanente o ex-presidente Mauricio Macri) e se rodeia apenas de pessoas que, por um pouco de poder, falam o que Milei quer ouvir.

Partido de Milei, La Libertad Avanza, conta com seis senadores (de 72) e 39 deputados (de 257) | Foto: Reuters/Tomas Cuesta

Os principais desafios que ele enfrentará

1. A disputa legislativa e a correlação de forças

Se seu partido (La Libertad Avanza ou suas coligações) conquistar mais cadeiras, poderá fortalecer sua base, mas, se sofrer perdas, será refém de alianças incômodas ou dependerá de concessões crescentes para aprovar reformas.

A suspensão das primárias obrigatórias (Paso) para 2025 — aprovada previamente — cria um ambiente eleitoral diferente do habitual, o que impacta estratégias e a mobilização partidária.

Alianças regionais, pactos com governadores provinciais e coalizões serão decisivas para ele superar a fragmentação política argentina. Até aqui, Milei e sua irmã não foram estrategistas na busca destes acordos políticos.

2. Demonstrar resultados concretos e sustentáveis

Para vencer nas urnas, Milei precisará que parte da população consiga perceber benefícios reais: crescimento econômico, geração de empregos, melhoria no poder de compra, redução da pobreza. Este último indicador deu uma força a Milei: o mais recente levantamento mostrou uma pobreza pouco superior aos 30%, muito menor do que um ano atrás, e sem ter aumentado o número de beneficiários da ajuda social.

Se as reformas gerarem estagnação ou recessão, o custo político será alto. Ele terá de mostrar que os sacrifícios iniciais valem a pena.

A estabilidade da moeda e o controle da inflação são cruciais para manter a confiança. Qualquer reversão abrupta poderá minar a credibilidade.

Será necessário avançar nas privatizações, nas reformas regulatórias e nos ajustes fiscais com pragmatismo, de modo a não perder apoios moderados.

3. Pressão social, resistência e risco de desgaste

Movimentos sociais, sindicatos e oposição farão pressão política, sobretudo se cortes atingirem setores sensíveis (educação, saúde, assistência social).

Crises localizadas ou novos escândalos de suspeitas de corrupção podem gerar desgaste.

Ele precisará equilibrar firmeza nas reformas com capacidade de negociação política, para evitar crises institucionais ou bloqueios legislativos.

4. Manter a sustentabilidade macroeconômica

A Argentina continua vulnerável a choques externos, a variações nos preços das commodities e ao apetite de investidores.

Será crucial garantir fluxos de investimento externo, acordos comerciais estáveis, acesso a financiamento internacional e controle da dívida pública. Milei tem conseguido apoio às suas políticas econômicas por parte do FMI e terá reunião bilateral com o presidente americano Donald Trump no dia 14 de outubro, alguns dias antes das eleições. Especula-se que o Tesouro americano autorize um empréstimo de US$ 20 bilhões ao governo Milei.

Se o governo comprometer muito seus superávits ou flexibilizá-los demais, corre o risco de perder o “guarda-chuva” de credibilidade que conquistou até aqui.

Deverá também cuidar do pacto federativo e da relação com as províncias para evitar que reformas nacionais esbarrem em disputas regionais sobre receitas.

5. Eleitoralmente, ampliar apelo além da base radical

Para garantir sucesso em 2025 e sustentar uma agenda até o fim do mandato, Milei precisa ampliar o universo de apoio, conquistando eleitores independentes ou moderados; evitar ser visto apenas como radical ou intransigente em temas importantes para a sociedade; adotar discursos inclusivos, pragmáticos e demonstrar capacidade de gestão; e gerenciar bem a comunicação política para evidenciar vitórias tangíveis e conter narrativas oposicionistas que pintem o governo como irresponsável ou excludente.

Se ele conseguir manter um núcleo duro de apoio e ampliar para setores que se beneficiem das reformas, terá mais margem para governar em 2026 e 2027.

Conclusão: cenários possíveis e apostas

O governo Milei vive uma fase crítica de “meio-termo antecipado”. Seus primeiros meses já geraram resultados econômicos expressivos — especialmente no controle fiscal, na queda da inflação e na diminuição da pobreza —, mas o grau de reforma ainda está longe do ideal prometido, e os custos sociais e políticos são altos.

Se conseguir um bom desempenho nas eleições de outubro de 2025, poderá consolidar sua capacidade legislativa e acelerar transformações profundas. Caso contrário, poderá enfrentar bloqueios institucionais, perda de apoio e retração de reformas.

O horizonte é incerto, mas é justamente em uma gestão tão radical quanto esta que o sucesso dependerá mais da habilidade política, do pragmatismo e da capacidade de unir narrativa e resultados do que de mera ideologia, e Milei mostrou muito pouco em pragmatismo para trazer dirigentes moderados para a base do governo.

O resultado das eleições legislativas de outubro coloca em risco muito mais do que a continuidade de um modelo liberal na economia. O risco, e Milei sabe disso, é deixar a porta aberta para o regresso do pior inimigo do desenvolvimento econômico, social e educativo da Argentina: o Peronismo, que representa o pior expoente do populismo de esquerda.

O resultado das eleições legislativas de outubro coloca em risco muito mais do que a continuidade de um modelo liberal na economia | Foto: Reuters/Francisco Loureiro

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5 comentários
  1. Vanessa Días da Silva
    Vanessa Días da Silva

    A Argentina está aparelhada como o Brasil, por melhores que sejam as intenções do Milei, tem muita gente jogando contra dentro do congresso e das cortes judiciais. O sistema tenta se proteger

  2. Cícero Ruggiero
    Cícero Ruggiero

    Engraçado, se a direita não consegue realizar todas as suas promessas, apesar de conseguir grandes resultados na economia, ela é ameaçada de perder as eleições para a esquerda, que nunca cumpre suas promessas de campanha e sempre leva o país a bancarrota.

    1. Renato Perim
      Renato Perim

      Penso da mesma forma, e quanto ao texto, posso estar enganado, mas parece que o articulista tem um viés meio de centro ou até de esquerda, porque tudo parece radical demais, um político de direita tem que ser polido, não pode falar palavrão, tem que tratar bem quem o insulta… Oras, os de esquerda só sabem fazer isso, vide o ladrão que está na presidência do brasil.

  3. Elias José de Souza
    Elias José de Souza

    Parabéns Segré pelo belo artigo.
    Vou arriscar uma opinião aqui: A direita peca quando tenta resolver todos os problemas, em apena um mandato, criado pela pela esquerda
    por vários mandatos: seja na economia, no combate a corrupção, na questão social,.. Pelo que entendi em menos de 2 anos o Milei já conseguiu grandes feitos na questão econômica e no combate a pobreza, por que não usufluir desses números para obter ganhos políticos?
    No combate a corrupção, não dá para eliminar totalmente em apenas um mandato, se a corrupção aparecr dentro do seu governo basta cortar na propria carne e mostra para a sociedade que não compactua com corrupção e que apesar de ainda haver ela diminuiu em seu governo; as reformas estruturantes são importantes, mas não precisa fazê-las todas em um unico mandato; as mamatas de ONG’s e televisão, sindicatos,… não precisa cortar todas de uma únicas vez, vai cortando aos poucos,…precisa pensar na sobrevivência política, precisa utilizar um pouco das armas da esquerda se quiser sobreviver e continuar o projeto de se livrar da esquerda para sempre.

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