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Edição 290

A multinacional do crime organizado

Criminosos transformaram contrabando, falsificação, roubo de cargas e adulteração de combustíveis em um negócio bilionário

Era madrugada de 19 de julho quando agentes da Polícia Militar Rodoviária avistaram um caminhão suspeito trafegando pela Rodovia SP-294, em Marília. As luzes das viaturas piscaram em sinal de parada, e a carreta desacelerou lentamente até se deter no acostamento. Veteranos em operações de contrabando, os policiais abriram a carroceria esperando encontrar mais uma carga irregular qualquer. Mas o que viram parecia um armazém sobre rodas: caixas de perfumes importados, relógios, óculos, isqueiros e cadeados, todos sem nota fiscal. A mercadoria havia saído do Paraguai e tinha como destino a capital paulista. Avaliada em R$ 20 milhões, a carga se transformou em uma das maiores apreensões do ano no interior de São Paulo.

O flagrante impressiona, mas está longe de ser exceção. Trata-se apenas da superfície de um sistema clandestino que drena bilhões de reais da economia paulista e já se organiza como uma corporação global, com fornecedores internacionais, logística sofisticada, canais de distribuição múltiplos e uso intensivo de tecnologia. É essa estrutura que o Anuário de Mercados Ilícitos Transnacionais em São Paulo, elaborado pelo Observatório de Mercados Ilícitos da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), se debruçou para mapear, quantificar e revelar em detalhes como funciona a multinacional do crime organizado.

A mercadoria havia saído do Paraguai e tinha como destino a capital paulista | Foto: Divulgação/Polícia Militar Rodoviária
Avaliada em R$ 20 milhões, a carga se transformou em uma das maiores apreensões do ano no interior de São Paulo | Foto: Divulgação/Polícia Militar Rodoviária

Só em 2023, ano do relatório mais recente sobre o tema, as atividades ilícitas mapeadas — do contrabando de cigarros ao roubo de cargas originais e falsificadas — provocaram mais de R$ 22,5 bilhões em prejuízo direto para a indústria paulista. Esse montante reúne mercadorias roubadas, receitas corroídas pela invasão dos produtos clandestinos no mercado e despesas extras que as empresas tiveram com seguro, segurança privada e sistema de rastreamento. Mas as perdas não param aí: cerca de 160 mil empregos formais deixaram de ser criados e quase R$ 10 bilhões em impostos escaparam dos cofres públicos.

“O cenário está totalmente fora de controle porque temos uma legislação penal benevolente, permissiva e arcaica”, observa o coronel Fábio Cajueiro, ex-chefe do Estado-Maior do Comando de Policiamento da PM do Rio. “Deputados federais e senadores não fazem as alterações necessárias na lei, que é federal, e sem um endurecimento não há como enfrentar o crime. O país virou um paraíso para organizações criminosas.”

A mentalidade corporativa

Por décadas, o contrabando e a pirataria foram tratados como delitos pulverizados, associados a pequenos grupos oportunistas. Essa visão perdeu validade. O estudo mostra que o crime amadureceu e se profissionalizou. Hoje, funciona com planejamento empresarial: analisa risco, diversifica produtos, busca margens maiores e reinveste em expansão.

É comum que a mesma rede abasteça desmanches automotivos, falsifique roupas e cosméticos, adultere combustíveis e mantenha presença ativa no comércio eletrônico. A logística inclui rotas rodoviárias com baixa fiscalização, portos e aeroportos vulneráveis e armazéns clandestinos capazes de movimentar contêineres inteiros sem deixar rastro.

“As facções criminosas passaram a ver a falsificação de produtos como uma forma de maximizar os lucros”, explica o advogado Rodolpho Ramazzini, diretor da Associação Comercial Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF). “Elas deixaram de falsificar itens inofensivos, como gibis, figurinhas, camisetas e tênis, para atuar em setores mais lucrativos, mas que ao mesmo tempo trazem riscos à saúde, como bebidas alcoólicas e instrumentos cirúrgico-hospitalares. Hoje, falsificam produtos que matam brasileiros.”

Nesta semana, por exemplo, veio à tona o escândalo de adulteração de bebidas em São Paulo. O assunto ganhou destaque depois da explosão de casos de intoxicação por metanol. Até agora, dez ocorrências foram confirmadas, 37 estão sob investigação e cinco mortes foram registradas. A adição de metanol é apenas um dos tipos de fraude praticados por produtores ilegais para reduzir custos. Também são comuns a diluição com água e produtos químicos, o uso de corantes e aromatizantes artificiais para imitar características de bebidas originais e até a reutilização de garrafas e rótulos de marcas conhecidas para enganar o consumidor.

Uma indústria bilionária

Produtos com carga tributária elevada, como cigarros (80%), bebidas alcoólicas (60%), combustíveis (40%) e eletrônicos (50%), são os principais alvos do mercado ilegal. A alta tributação eleva os preços no comércio formal e incentiva as quadrilhas a oferecer versões contrabandeadas ou falsificadas mais baratas, o que alimenta o ciclo da pirataria.

O anuário expõe com precisão onde o crime mais lucra:

Tabaco: cerca de R$ 7,5 bilhões. O cigarro paraguaio, barato e sem imposto, domina pontos de venda informais e financia facções criminosas. A carga tributária irrisória no Paraguai permite preços até 60% mais baixos que os nacionais.

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Químicos e combustíveis: quase R$ 4 bilhões. A adulteração da gasolina e do diesel aumenta os riscos de incêndio e poluição. Já o contrabando de defensivos agrícolas proibidos ameaça a saúde de trabalhadores e contamina o solo.

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Automotivo: R$ 3,7 bilhões. Roubo de carros e peças sustenta desmanches e mercados paralelos hostis. O setor está ligado a mais de 15% dos crimes violentos no Estado, e parte dos veículos é exportada clandestinamente para países da África e para vizinhos da América do Sul.

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Higiene e cosméticos: R$ 2,2 bilhões. Perfumes falsificados e produtos adulterados, produzidos com insumos tóxicos, circulam em feiras populares e plataformas on-line, o que põe em risco a saúde dos consumidores.

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Vestuário: R$ 2,2 bilhões. Roupas pirateadas, em grande parte vindas da China e do Paraguai, invadem o varejo informal. A cadeia inclui trabalho análogo à escravidão, especialmente de imigrantes em oficinas clandestinas.

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Eletrônicos: cerca de R$ 2 bilhões. Celulares são o alvo preferencial: fáceis de revender e transportar, os aparelhos estão ligados a mais de 30% da criminalidade violenta paulista. Há exportação clandestina para outros países.

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Alimentos e bebidas: mais de R$ 500 milhões. Produtos sem inspeção sanitária chegam a consumidores com facilidade. Bebidas adulteradas e cargas roubadas alimentam um mercado com 85% de participação estrangeira.

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Brinquedos: R$ 360 milhões. Quase todos importados ilegalmente da China e do Sudeste Asiático, esses produtos chegam sem certificação de segurança.

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Medicamentos: mais de R$ 230 milhões. Falsificados ou desviados, esses produtos incluem antirretrovirais, quimioterápicos e remédios de uso contínuo. São vendidos principalmente em redes sociais e marketplaces digitais, sem nenhum controle sanitário.

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A era do contrabando digital

Antes restrito aos camelôs, o comércio de falsificados migrou para o ambiente on-line. Hoje, produtos ilegais são anunciados em plataformas de e-commerce — de redes sociais a grandes marketplaces — e chegam à casa do consumidor com aparência legítima e entrega rápida.

O estudo chama esse fenômeno de “contrabando digital”, e seu impacto é visível nas empresas: quase 5% relatam enfrentar concorrência direta de produtos ilegais vendidos pela internet e cerca de 15% foram vítimas de golpes virtuais. Os criminosos exploram a estrutura dos marketplaces, desde sistemas de pagamento até ferramentas de marketing, para se camuflar entre vendedores regulares.

Nesses espaços virtuais, lojas falsas usam fotos profissionais, milhares de avaliações compradas e logística exemplar. As mercadorias entram no país sem recolher impostos, muitas vezes chegam a armazéns clandestinos e, de lá, são despachadas por transportadoras regulares, misturadas a cargas lícitas. O uso de redes sociais e aplicativos de mensagens dificulta a fiscalização, enquanto marketplaces populares, como MercadoLivre, Amazon e Shopee, ainda enfrentam limitações para conter vendedores irregulares. Esse ambiente digital barateou a operação criminosa: atualmente, o mercado clandestino é capaz de vender produtos para todo o país sem manter lojas físicas. Usam somente armazéns discretos e contas criadas com CPFs de laranjas.

O avanço da inteligência artificial tende a ampliar esse problema, pois facilita a produção de documentos falsos de alta qualidade, a criação de perfis virtuais convincentes e a execução de golpes em larga escala. “As facções funcionam como verdadeiras empresas do crime”, constata o cientista político e ex-policial militar João Henrique Martins, que coordenou o Centro de Inteligência de Segurança Pública de São Paulo no governo Tarcísio de Freitas. “Cada grupo atua de forma empresarial, de modo a explorar as oportunidades de mercado. Foi assim que o tráfico de drogas evoluiu e que outros setores, como contrabando de defensivos agrícolas, combustíveis, alimentos e tecnologia, passaram a ser dominados por facções em busca de margens de lucro elevadas.”

Sem esperança

O descrédito na Justiça ajuda a explicar por que a segurança privada virou um custo fixo para quem produz no Brasil. De acordo com o estudo, apenas 4,5% dos crimes cometidos contra a indústria chegam a uma fase processual em que o autor é identificado e responsabilizado. A investigação costuma parar ainda na delegacia: faltam estrutura, prioridade e integração entre as polícias. Não surpreende que quase 60% das empresas vítimas de crimes desistam de registrar boletim de ocorrência, convencidas de que nada será apurado ou de que o processo consumirá tempo e dinheiro sem resultados concretos.

Nesse cenário, a insegurança jurídica molda as decisões estratégicas das empresas. Cerca de 30% das companhias, por exemplo, desistiram de abrir filiais ou expandir operações em virtude da criminalidade. Ao mesmo tempo, a maioria destina parte relevante do orçamento à autoproteção: quase 80% das empresas usam sistemas eletrônicos de vigilância, mais de 70% contratam seguros e aproximadamente 45% mantêm segurança armada terceirizada. Recursos que poderiam financiar inovação, pesquisa e novos postos de trabalho acabam desviados para prevenir roubos e mitigar prejuízos.

Por causa da insegurança e da falta de resposta estatal, as empresas são pressionadas a investir pesado em autoproteção. Segundo o estudo, os gastos com segurança privada somam cerca de R$ 170 bilhões por ano — dinheiro que vai para vigilância, seguro, rastreamento e escolta. É um custo invisível, que não pesa sobre concorrentes de países mais seguros e mina a competitividade da indústria brasileira.

“O Executivo, o Legislativo e o Judiciário não reagem à altura do crime organizado”, resume o economista Pery Shikida, especialista em mercados ilícitos. “Os arranjos institucionais permitiram a consolidação dessas organizações bilionárias. Há falta de interesse e coordenação. O Judiciário, por exemplo, é visto com desconfiança. Isso criou um ambiente em que o crime se aperfeiçoa e se mantém altamente compensador.”

Shikida, com base em suas pesquisas sobre a economia do crime em estabelecimentos prisionais e em entrevistas com detentos, defende o endurecimento da legislação penal. Ele propõe medidas como a prisão perpétua e o cumprimento integral da pena, sem saídas temporárias ou progressões automáticas. Segundo o especialista, o fortalecimento das leis contra crimes econômicos e a revisão de políticas que mantêm ilícitos altamente lucrativos, como o contrabando de cigarros, são essenciais para desestimular a criminalidade.

Um fenômeno enraizado

O contrabando não é novo em São Paulo. Nos anos 1980 e 1990, produtos do Paraguai já atravessavam fronteiras clandestinas. Mas a globalização do crime e o comércio digital ampliaram a escala. O que antes era rota de muambeiros tornou-se cadeia global estruturada. Nos anos 2000, as facções criminosas perceberam o potencial de lucro e passaram a investir em logística, segurança armada e lavagem de dinheiro. A expansão dos marketplaces e das redes sociais na última década criou a vitrine perfeita: baixo custo, acesso direto ao consumidor e aparência de legalidade.

Enquanto o crime inova, o aparato estatal é lento: mudanças legais dependem de longos debates no Congresso; a fiscalização carece de recursos e tecnologia; e o Judiciário permanece sobrecarregado com julgamentos que não lhe competem. A impunidade para os verdadeiros marginais mantém o custo do crime abaixo do potencial de lucro.

Para a indústria, resta competir em desvantagem: produtos legais pagam impostos, seguem normas sanitárias e de segurança e enfrentam um concorrente que não cumpre nenhuma dessas regras e ainda pratica preços agressivos.

A urgência de reconhecer o inimigo

O flagrante de Marília, com seus R$ 20 milhões em produtos ilegais, joga luz em um problema que normalmente fica escondido em estatísticas. Não se trata de um caminhão isolado, mas de uma engrenagem que atravessa fronteiras, financia a violência e enfraquece a economia formal. Ignorar esse fenômeno é aceitar que o maior conglomerado ilegal do país siga crescendo. Ele não tem marca, endereço nem ações na Bolsa de Valores, mas já funciona como uma multinacional lucrativa e difícil de ser desmantelada. Não se trata do Primeiro Comando da Capital (PCC) nem do Comando Vermelho. É uma prática descentralizada no submundo da bandidagem.

Nesse cenário, é fundamental tratar o crime econômico como uma ameaça à soberania do país, e não apenas como um problema policial. Isso exige integração entre as forças de segurança, as autoridades financeiras, as agências reguladoras e o setor privado; criação de leis que realmente punam quem financia e lucra com o ilícito; e investimento estatal em tecnologia de rastreio e inteligência, como o mapeamento de cadeias ilícitas e a identificação das rotas usadas pelos criminosos. Enquanto as soluções não saem do papel, o crime continua a operar com lucro em escala de multinacional e risco de negócio de esquina.

Leia também “Na contramão da segurança”

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6 comentários
  1. Rosely M G Goeckler
    Rosely M G Goeckler

    Excelente reportagem! Profunda e esclarecedora!

    Para variar a impunidade é o estímulo! Não pode ser considerado uma democracia um país com tanta impunidade!

    Enquanto há perseguição política, todo tipo de lambança ocorre!

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    É difícil combater o crime organizado quando o PT é a maior facção e está em um estágio avançado ele é aliado da China e a compra pela Internet de produtos falsificados facilita, ele está dentro dos três poderes e OAB

    1. Edilson Salgueiro

      A situação é péssima, Erasmo. Mas tem jeito.

      Abraço!

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Melhor artigo da semana, Edilson Salgueiro tive o grande privilégio de conhece-lo pessoalmente no falecimento de meu irmão. Abordou com detalhes toda a corrupção dos artigos adulterados e falsificados que vem do Paraguai e China. Em São Paulo chegou a matar com metanol bebidas adulteradas,pessoas estão cegas.Essa é a face do crime Obrigada pelo artigo.

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