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Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Edição 290

De novo, não!

Uma vez mais somos vítimas da irresponsabilidade que encurta ou rompe ciclos de recuperação e desenvolvimento econômico

Nada parece conter o governo Lula 3 em sua decisão de gastar sem parar, elevar a dívida pública — que será paga por todos — e legar ao País uma crise futura. Não fosse a herança bendita de responsabilidade fiscal, crescimento econômico sustentável e de reformas recebida do governo Bolsonaro — uma recuperação que havia começado já no governo transitório de Michel Temer —, estaríamos numa nova recessão. A resiliência brasileira é algo a ser estudado. Mas isso não impede que uma vez mais sejamos vítimas da irresponsabilidade que encurta ou rompe ciclos de recuperação e desenvolvimento econômico, os solavancos que nos atormentam desde sempre e empobrecem o país.

Lembre-se do que foi o Brasil de Lula 2 entregue a Dilma. A disparada chinesa de crescimento acelerado, que consumia commodities internacionais em escala industrial, trouxe-nos superávits de balança comercial com as exportações brasileiras batendo recordes. Nada continha o tresloucado otimismo doméstico do governo com as altas taxas de popularidade de Lula. E do empresariado mais próximo do governo, os donos das “campeãs nacionais”, que se refestelavam com gordos empréstimos a juro baixo do BNDES, criando monopólios que sufocaram pequenos produtores e eliminaram a concorrência, como no setor de carnes. Isso gerava muitos patrocínios e publicidade estatal e das empresas amigas que embriagavam a mídia local.

Tanto dinheiro circulando anabolizava o PIB e gerava uma euforia artificial, porque nada daquilo era sustentável. Apontar o dedo para a insustentabilidade do modelo rendia críticas duras a quem se opunha ao desbunde. A maior parte da mídia estrangeira da época, malformada em realidade brasileira e prepotente desde sempre, foi na onda. O símbolo maior foi a capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando. Nada mais representativo do típico deslumbre de estrangeiros que nunca entenderam o Brasil e hoje sequer entendem a si próprios — vide a atual crise europeia de identidade, econômica e sem fim.

The Economist faria uma espécie de mea culpa, tempos depois, com o foguete do mesmo Cristo Redentor embicando rumo ao abismo. No final, a conclusão foi que o país cresceu sem se desenvolver — uma oportunidade de ouro perdida. Para os ingleses da publicação, que estão do outro lado do Atlântico, nada além de duas capas de revista que se contradiziam. Para os brasileiros aqui, os da vida real, sobrou a pior recessão de nossa história, em 2015 e 2016. O que era para ser a epopeia do gigante adormecido, a decolagem do Brasil, resumiu-se a mais um voo de galinha movido a populismo econômico grotesco, mas que enriqueceu muita gente privilegiada nos altos escalões do poder da Brasília petista.

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O presidente Lula, durante um encontro com a “presidenta” do Banco do Brics, Dilma Rousseff | Foto: Ricardo Stuckert/PR

A visão econômica distorcida, incompetente e enganadora do lulopetismo produziu o mais duro solavanco de que se tem notícia na vida nacional. Saímos do clubão dos países potencialmente ricos para outra experiência latino-americana malsucedida. A esquerda que fala castelhano não decepciona no estrago. Lula surfou em tudo o que não era dele: desde a estabilidade fiscal de Fernando Henrique até a demanda chinesa sem precedentes. Gastou e inchou a máquina pública com um funcionalismo sem compromisso e ineficiente. Esticou a corda. Era só o primeiro ato. Dilma, a gerente de Lula, achou que a China crescendo a 15% ao ano era para sempre. Ruim de serviço e com um problema maior do que ela, a rainha do PowerPoint devolveu à pobreza a tal nova classe média da propaganda governista da época. Com as pedaladas fiscais para cobrir rombos no orçamento, o impeachment se tornou inadiável. A corrupção do Petrolão, que escandalizou o país logo a seguir, levou Lula e o PT à cadeia. Em pouco mais de 13 anos no poder, os dois maiores escândalos de corrupção — o Mensalão e o Petrolão — e gestões temerárias. Em economia, a “sensação de conforto econômico”, modus operandi de Lula, é sedutora. Mas, como no canto da sereia, é também o fim.

E, após mais de seis anos de recuperação do País, porque no Brasil as histórias ruins não terminam, Lula voltaria ao poder sob a tutela do Supremo Tribunal Federal. Depois da estapafúrdia tese do CEP, que anulou as condenações em três instâncias da Justiça — Curitiba não seria o foro adequado, alegaram —, o País da Lava Jato voltaria a ser o Brasil da negociata, do tráfico de influência e de drogas. Enquanto ministros do STF não veem problema em julgar casos de escritórios dos quais seus cônjuges são sócios, o governo federal ignora o crescimento das facções e a infiltração de criminosos na política, na economia e no próprio Judiciário. Pressionado a classificar essas facções como terroristas, o que favoreceria o combate ao crime com apoio internacional, Lula tem rejeitado a possibilidade, como reiterou em seu discurso na ONU. Por quê?

O combo do lulopetismo junta a volta dos déficits das estatais, da explosão fiscal, do populismo barato com o dinheiro do pagador de impostos, da ineficiência administrativa, do aumento da insegurança pública e jurídica, visto o conluio com o STF, hoje o garantidor do governo. Seja com o açodamento e a perseguição judicial aos opositores, o sequestro do Congresso ou a leniência com a autorização de gastos fora do orçamento, a maioria do Supremo é a representação da mais grave desestabilização institucional brasileira desde a redemocratização.

Só que os fatos e os números não pedem licença. O Tribunal de Contas da União já emitiu um alerta ao governo federal, com ares de advertência, de que a sucessiva retirada de despesas das regras fiscais afronta a Lei de Responsabilidade Fiscal. Um número apenas, que seria crime não fosse a benevolência do STF com Lula: R$ 89,9 bilhões de gastos foram retirados do cálculo da meta de resultado primário, em seis medidas de exceção nos anos de 2024 e 2025, já na vigência do Arcabouço Fiscal que o próprio governo fez aprovar no Congresso. Sim, o atual governo federal não cumpre os limites de gastos que ele impôs a si mesmo. Quem acreditaria em alguém que retira da conta o que gastou para dizer que foi austero? O mesmo TCU orientou a equipe econômica de Fernando Haddad a fazer contingenciamento de gastos mirando o centro da meta fiscal. Perdulário desde sempre, o governo federal colocou uma tolerância de gastos além do limite, o que permitiria um endividamento maior sem afrontar as regras. A esperteza não colou.

Mesmo assim, a propaganda governamental insiste na tese de que a economia vai bem. Tal como lá atrás, nos pretensos anos dourados de Lula, que Dilma teve de pagar com sua deposição do cargo, a pergunta é se tudo isso que é chamado de positivo é sustentável. A sequência traz uma série de nãos. Vejamos:

A taxa oficial de 5,6% de desempregados é historicamente baixa. Deveria ser comemorada, mas o contexto impede. Em um país de 213 milhões de habitantes, com 50 milhões ainda dependendo de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, a conta do quase pleno emprego não fecha. Até porque os governos petistas desprezam contrapartidas como educação de crianças e treinamento e recolocação profissional de adultos. Ou seja, é só assistencialismo puro e viciante. Além disso, o IBGE considera empregada qualquer pessoa que tenha uma renda de trabalho, mesmo que informal. Vários setores têm reclamado de falta de mão de obra porque os beneficiados dos programas sociais não querem ser contratados com registro em carteira para não perderem o benefício, apesar de os salários oferecidos pelas empresas serem maiores que o do benefício social. Que futuro isso pode ter?

Foto: Orlando Neto/Shutterstock

A indústria registrou o pior agosto dos últimos dez anos, segundo a CNI. Além da taxa básica de juros em 15%, mantida alta pelo descontrole fiscal do governo, os impactos do tarifaço americano começam a ser sentidos. O antiamericanismo mofado de Lula e o discurso ideológico para agradar os parceiros de Brics, como China e Rússia, provocaram o aumento da tarifa da Casa Branca sobre as exportações brasileiras, de 10% — a tarifa geral para o mundo inteiro — para exclusivos e exponenciais 50%. Adicione-se a isso que, na carta de 9 de julho de Donald Trump endereçada a Lula, o presidente americano citou o descalabro institucional brasileiro que persegue opositores políticos aqui, e críticos e empresas americanas, lá. Em três letras, ele quis dizer STF, o parceiro de consórcio de Lula. As perdas da indústria batem de frente no emprego com carteira. O Caged, que mede as contratações formais, também teve o pior agosto de sua história. No mesmo mês do ano passado, 239 mil empregos foram gerados. Um ano depois, em agosto de 2025, 147 mil vagas. Tecnicamente, o nome disso é uma preocupante desaceleração econômica. Na vida brasileira, são doze meses a mais de Lula no poder que custam muito caro ao país.

A inflação anual de 5,1%, que estaria cedendo, teve um tropeço no IPCA-15 de setembro, a prévia do mês. O aumento de 0,44% pode significar um cavalo de pau. E isso é só um aspecto. Dois outros pontos são ainda mais relevantes: inflação anualizada acima de 5% é muito acima da meta, que é de 3% neste ano. Entende por que o Banco Central manteve os juros em 15% na última reunião do Comitê de Política Monetária? Para proteger a economia do país do próprio governo. E o segundo ponto é que tudo está caro. Ou seja, o custo de vida está, em tese, estabilizado em um patamar muito alto, o que já comprometeu a renda das famílias. O desconforto é grande, a falta de perspectiva, ainda maior. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, mais de 30% das famílias confessaram estar endividadas nos últimos meses.

Os sinais de crise, já de um longo tempo, desmoronam a narrativa oficial do governo. Afinal, como gerar empregos e renda se, em 2024, segundo ano da volta de Lula ao poder, o país registrou o recorde de 2.273 empresas que pediram recuperação judicial? O aumento de mais de 61% em relação a 2023 é só uma continuidade do caos. No primeiro ano de Lula, já havia sido registrado um aumento de 68,7% na recuperação judicial de empresas em relação ao último ano do governo Bolsonaro. O que foi ruim com a mudança de política econômica ficou ainda pior com a continuidade do governo Lula. A Serasa Experian prevê que, pelos dados acumulados até agora, o ano de 2025 pode ter o recorde histórico de empresas que fecham ou pedem ajuda à justiça. A maioria é de micro e pequenas empresas, justamente as que mais geram empregos e são mais suscetíveis à política econômica errática do governo.

E se a economia vai mal para quem trabalha, Lula aposta todas as fichas no velho e deletério modelo de populismo, o vale-tudo de até quebrar o país para aumentar sua popularidade e ganhar as eleições do ano que vem. A ampliação do Vale-Gás, já aprovada na Câmara, triplicará o número de beneficiados se for também aprovada no Senado. A “Luz do Povo”, mais um programa de conta de luz gratuita, atingiria 60 milhões de pessoas. Há ainda um programa em estudo de ônibus gratuito para beneficiários do Bolsa Família. Em nenhum desses novos programas há qualquer indício de se criar condições para trazer essas pessoas ao mercado de trabalho e reduzir no futuro a dependência delas da tutela do Estado. É só assistencialismo na veia e criação de um cabresto eleitoral de manipulação política. A aprovação na Câmara dos Deputados da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que guarda alguma lógica, não será compensada com o governo economizando, mas com mais impostos sobre trabalhadores e empresas.

“Lobo velho perde o pelo, mas não perde o vício”, diz o ditado popular. Lula voltou pior, com uma equipe pior e nada de bom a mostrar. O desprezo pela classe média, por quem trabalha e produz, é latente. Até quando vai se permitir que tudo isso continue e se repita? Até que o país entre em nova recessão, o PT seja apeado do poder e um novo governo responsável, muito longe da esquerda, aceite o desafio de resgatar o país do novo buraco em que Lula e o petismo enfiaram o Brasil?

Pedinte em rua de Salvador, Bahia | Foto: Thales Antonio/Shutterstock

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7 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Ótima matéria Piotto.
    Em 2006 um amigo esquerdista e profundo admirador de Lula dizia “agora sim temos um governo de fato”. Eu apresentava a réplica dizendo que ações de governos devem ser avaliadas com cautela e os resultados, positivos ou negativos, somente serão conhecidos no médio e longo prazos.
    Sobrevivi a Sarney e seu plano cruzado, Collor e o confisco financeiro, ainda tenho arranhões da era Dilma.
    Vou ter que me reinventar para sobreviver a Lula 3.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Esse bandido é pra tá preso ele e toda corja do STF, se quiserem que o Brasil não desce o Quênia

  3. Ana Cláudia Chaves da Silva
    Ana Cláudia Chaves da Silva

    Excelente texto, muito esclarecedor.
    Impressionante como as pessoas não percebem o quanto estão sendo usadas por esse governo incompetente e nojento. Deixam-se enganar com esses programas sociais e, para complementar a “renda”, vão com seus filhos pequenos para a rua pedir esmolas ou restos de comida nas portas dos restaurantes.
    Infelizmente essa situação só vai mudar quando o povo acordar e reagir.

  4. Marcos Antônio de Carvalho
    Marcos Antônio de Carvalho

    Piotto, a clareza de suas ideias chega a brilhar. O que entristece, porém, é que dificilmente veremos os brasileiros trabalhando de novo! Senão vejamos: bolsa família para 50 milhões de pessoas que não querem mais trabalhar para não perderem a ajuda; vale gás, para mais alguns milhões; luz para todos, computando 60 milhões de pessoas; pé de meia, dinheiro na conta de 10 milhões de jovens que, no começo da vida, já não precisarão mais trabalhar, senão ficar esperando os programas sociais. Qual o futuro presidente conseguirá alterar esse estado de coisas? Fique claro que penso que muita gente realmente precisa desses programas, mas que não podem ser tão abrangentes, de modo a impedirem que se busquem rendas do trabalho. Haverá alguma saída, pelo menos a médio prazo? Quanto ao pé de meia, penso que o futuro governo poderia criar um progrma praticamente obrigando que todos os formandos prestassem serviços remuneerados ao governo, cada um em sua área de atuação, durante pelo menos 2 anos, antes do registro profissional correspondente… Só uma ideia….

    1. Mary Rodrigues De Oliveira Rios
      Mary Rodrigues De Oliveira Rios

      Excelente texto! Minha dúvida é: quando sairemos dessa?

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