Projeto Manhattan era o codinome de uma operação americana ultrassecreta para desenvolver e testar armas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Envolveu mais de 100 mil pessoas, custou cerca de US$ 2 bilhões e teve o apoio do Canadá e Reino Unido. Oak Ridge, no Tennessee, foi a primeira cidade americana escolhida para abrigar boa parte do projeto.
O complexo militar-industrial de Oak Ridge era gigante o suficiente para sustentar sua própria economia, incluindo lojas e cinemas. Quase 60 mil acres de terras agrícolas e casas de moradores locais foram desocupadas e compradas pelo governo federal, em 1942, para hospedar a operação. Havia dormitórios e alojamentos para uma média de 30 mil pessoas, além de 10 mil casas e apartamentos. Dez escolas funcionavam no conglomerado. Dezenas de milhares de pessoas, militares e civis, foram empregadas, mas grande parte desconhecia que Oak Ridge — juntamente com outras unidades em Los Alamos, no Novo México, e Hanford, no Estado de Washington — era o lar do Projeto Manhattan.


Durante anos, tudo o que acontecia nas dependências de Oak Ridge havia sido um segredo bem guardado. A cidade não aparecia nem no mapa. Edward Clark, fotógrafo da revista Life, capturou essa atmosfera misteriosa e taciturna. Uma de suas fotos mostra uma pessoa lendo uma placa que diz: “O que você vê aqui. O que você faz aqui. O que você ouve aqui. Deixe aqui”. A imagem de Clark é uma das mais populares na loja de fotos Life.


Matéria da revista Life publicada no dia 20 de agosto de 1945 descreveu o ar enigmático que permeava Oak Ridge: “Milhares de operários da construção civil chegaram, trabalharam e, jurando segredo, partiram em silêncio. Especialistas famosos no mundo todo chegaram anonimamente, prestaram sua consultoria e evaporaram. Com cautela — pois sobre suas cabeças sempre pairava a ameaça de dez anos de prisão ou uma multa de US$ 10 mil —, os técnicos de laboratório, auxiliares, estenógrafos e cientistas de Oak Ridge sondavam as informações uns dos outros sem resultado. Um planejamento extremamente cuidadoso havia compartimentado o trabalho e, portanto, o conhecimento.”
Hoje todos já sabem a verdade: a Little Boy, bomba de urânio, e a Fat Man, bomba de plutônio, foram desenvolvidas dentro das instalações secretas de Oak Ridge. Ali era uma importante base para o Projeto Manhattan, onde o urânio foi enriquecido até ficar radioativo o suficiente para a fissão nuclear. O complexo abrigava as usinas de enriquecimento de urânio (K-25 e Y-12), a usina de difusão térmica líquida (S-50) e o reator piloto de produção de plutônio (Reator de Grafite X-10).

Muitos dos que trabalhavam no projeto não tinham ideia do que estavam fazendo, a exemplo das “Calutron Girls”, um grupo de jovens mulheres — a maioria com ensino médio completo e pouca ou nenhuma experiência científica — que operavam os calutrons, máquinas usadas para separar isótopos de urânio, no Complexo de Segurança Nacional Y-12. O urânio enriquecido que elas ajudaram a produzir foi usado no desenvolvimento da bomba atômica “Little Boy”, lançada no dia 6 de agosto de 1945 sobre Hiroshima. Só depois desse acontecimento, a verdadeira natureza dessas cidades foi revelada ao mundo.


O projeto foi liderado pelo Brigadeiro-General Leslie Groves, em Manhattan, Nova York, mas a construção da bomba propriamente dita foi supervisionada por Robert Oppenheimer, chefe do Laboratório de Los Alamos e também conhecido por ser o “pai da bomba atômica”. Foram mais de 600 mil pessoas envolvidas, incluindo milhares de cientistas, engenheiros e técnicos, assim como trabalhadores da construção civil e as pessoas que mantiveram as três cidades secretas funcionando.

A primeira detonação bem sucedida de um dispositivo nuclear, chamado de teste “Trinity”, ocorreu em 16 de julho de 1945 e foi realizado no campo de teste de mísseis de White Sands, no Novo México. Menos de um mês depois, o presidente Harry Truman autorizou o uso de armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, encerrando oficialmente a guerra mais mortal e destrutiva da história da humanidade. O custo foi trágico, com uma perda excepcionalmente alta de vidas civis nas duas cidades destruídas. Foi a única vez na história em que armas nucleares foram usadas. O lançamento das bombas pelos Estados Unidos contra o Japão tornou-se um dos eventos mais marcantes do século XX.

Apesar do fim da Segunda Guerra Mundial, o trabalho em Oak Ridge estava apenas começando. Hoje existem vários projetos diferentes para ajudar o país, incluindo a criação de formas de tratamento do câncer, a viabilização da exploração espacial em Marte e o fornecimento de energia nuclear.
O Projeto Manhattan inaugurou a era nuclear e deixou legados duradouros que ecoam por todo o mundo até hoje, mas também levantou questões éticas e dilemas morais entre cientistas e cidadãos. O avanço da ciência nuclear gerou inovações na medicina e na exploração espacial, mas também trouxe impactos humanitários, resíduos radioativos e problemas de saúde. O segredo fabricado em Oak Ridges mudou o mundo para sempre.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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Ótima coluna.
Muito bom, não sabia que o projeto envolveu tanta gente
Espetacular aula de pura história!
Obrigado!
Bárbaro. Sensacional!