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"Calutron Girls" em seus painéis, na usina de Y-12 em Oak Ridge, Tennessee, durante a Segunda Guerra Mundial. Os calutrons eram usados para refinar minério de urânio em material físsil, durante o Projeto Manhattan. A maioria não tinha ideia do objetivo de seu trabalho. Gladys Owens, a mulher sentada em primeiro plano, só soube do propósito exato de seu trabalho ao ver esta foto em um tour público pela instalação, cinquenta anos depois | Foto: Ed Westcott /US Army/Manhattan Engineering District/Domínio Público
Edição 283

Imagem da Semana: o segredo de Oak Ridge

Cidade foi a primeira escolhida para fazer parte do Projeto Manhattan

Projeto Manhattan era o codinome de uma operação americana ultrassecreta para desenvolver e testar armas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Envolveu mais de 100 mil pessoas, custou cerca de US$ 2 bilhões e teve o apoio do Canadá e Reino Unido. Oak Ridge, no Tennessee, foi a primeira cidade americana escolhida para abrigar boa parte do projeto.

O complexo militar-industrial de Oak Ridge era gigante o suficiente para sustentar sua própria economia, incluindo lojas e cinemas. Quase 60 mil acres de terras agrícolas e casas de moradores locais foram desocupadas e compradas pelo governo federal, em 1942, para hospedar a operação. Havia dormitórios e alojamentos para uma média de 30 mil pessoas, além de 10 mil casas e apartamentos. Dez escolas funcionavam no conglomerado. Dezenas de milhares de pessoas, militares e civis, foram empregadas, mas grande parte desconhecia que Oak Ridge — juntamente com outras unidades em Los Alamos, no Novo México, e Hanford, no Estado de Washington — era o lar do Projeto Manhattan.

Vista aérea do campus do Laboratório Nacional de Oak Ridge | Foto: Oak Ridge Office of Environmental Management, U.S. Department of Energy
Casas pequenas e simples em construção em Oak Ridge, Tennessee, por volta de 1945, para trabalhadores da Clinton Engineering Works, do Projeto Manhattan | Foto: Everett Collection/Shutterstock

Durante anos, tudo o que acontecia nas dependências de Oak Ridge havia sido um segredo bem guardado. A cidade não aparecia nem no mapa. Edward Clark, fotógrafo da revista Life, capturou essa atmosfera misteriosa e taciturna. Uma de suas fotos mostra uma pessoa lendo uma placa que diz: “O que você vê aqui. O que você faz aqui. O que você ouve aqui. Deixe aqui”. A imagem de Clark é uma das mais populares na loja de fotos Life.

Esta placa nas instalações do governo em Oak Ridge, onde a bomba atômica foi desenvolvida, alertava os funcionários para não falarem sobre seu trabalho, 1945 | Foto: Ed Clark/Life Picture Collection/Shutterstock
Um outdoor em Oak Ridge incentivando o sigilo entre os trabalhadores | Foto: James E. Westcott/Domínio Público

Matéria da revista Life publicada no dia 20 de agosto de 1945 descreveu o ar enigmático que permeava Oak Ridge: “Milhares de operários da construção civil chegaram, trabalharam e, jurando segredo, partiram em silêncio. Especialistas famosos no mundo todo chegaram anonimamente, prestaram sua consultoria e evaporaram. Com cautela — pois sobre suas cabeças sempre pairava a ameaça de dez anos de prisão ou uma multa de US$ 10 mil —, os técnicos de laboratório, auxiliares, estenógrafos e cientistas de Oak Ridge sondavam as informações uns dos outros sem resultado. Um planejamento extremamente cuidadoso havia compartimentado o trabalho e, portanto, o conhecimento.”

Hoje todos já sabem a verdade: a Little Boy, bomba de urânio, e a Fat Man, bomba de plutônio, foram desenvolvidas dentro das instalações secretas de Oak Ridge. Ali era uma importante base para o Projeto Manhattan, onde o urânio foi enriquecido até ficar radioativo o suficiente para a fissão nuclear. O complexo abrigava as usinas de enriquecimento de urânio (K-25 e Y-12), a usina de difusão térmica líquida (S-50) e o reator piloto de produção de plutônio (Reator de Grafite X-10).  

“Superbomba Atômica, Fabricada em Oak Ridge, Atinge o Japão”. Manchete do jornal Knoxville News-Sentinel, sediado em Knoxville, Tennessee. Publicado em 6 de agosto de 1945, dia em que os Estados Unidos lançaram a primeira bomba nuclear em Hiroshima, Japão. | Foto: Tennessee Virtual Archive

Muitos dos que trabalhavam no projeto não tinham ideia do que estavam fazendo, a exemplo das “Calutron Girls”, um grupo de jovens mulheres — a maioria com ensino médio completo e pouca ou nenhuma experiência científica — que operavam os calutrons, máquinas usadas para separar isótopos de urânio, no Complexo de Segurança Nacional Y-12. O urânio enriquecido que elas ajudaram a produzir foi usado no desenvolvimento da bomba atômica “Little Boy”, lançada no dia 6 de agosto de 1945 sobre Hiroshima. Só depois desse acontecimento, a verdadeira natureza dessas cidades foi revelada ao mundo.

Operadora de calutron, em 1944, Oak Ridge. A maioria das funcionárias conhecia apenas os detalhes de sua estação específica e tinha pouco conhecimento de como suas ações contribuíam para o enriquecimento de combustível nuclear | Foto: Ed Westcott/ Atlanta National Archive
Trabalhadores saindo da fábrica Y-12 do Projeto Manhattan na troca de turno, 1945, em Oak Ridge | Foto: Wikimedia Commons

O projeto foi liderado pelo Brigadeiro-General Leslie Groves, em Manhattan, Nova York, mas a construção da bomba propriamente dita foi supervisionada por Robert Oppenheimer, chefe do Laboratório de Los Alamos e também conhecido por ser o “pai da bomba atômica”. Foram mais de 600 mil pessoas envolvidas, incluindo milhares de cientistas, engenheiros e técnicos, assim como trabalhadores da construção civil e as pessoas que mantiveram as três cidades secretas funcionando.

Julius Robert Oppenheimer, físico teórico americano e diretor do Laboratório Nacional Los Alamos durante a Segunda Guerra Mundial. Geralmente é creditado como o “pai da bomba atômica”, por seu papel no Projeto Manhattan | Foto: Domínio Público

A primeira detonação bem sucedida de um dispositivo nuclear, chamado de teste “Trinity”, ocorreu em 16 de julho de 1945 e foi realizado no campo de teste de mísseis de White Sands, no Novo México. Menos de um mês depois, o presidente Harry Truman autorizou o uso de armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, encerrando oficialmente a guerra mais mortal e destrutiva da história da humanidade. O custo foi trágico, com uma perda excepcionalmente alta de vidas civis nas duas cidades destruídas. Foi a única vez na história em que armas nucleares foram usadas. O lançamento das bombas pelos Estados Unidos contra o Japão tornou-se um dos eventos mais marcantes do século XX.

J. Robert Oppenheimer e Leslie Groves nos restos do teste Trinity, em setembro de 1945. | Foto: Wikimedia Commons

Apesar do fim da Segunda Guerra Mundial, o trabalho em Oak Ridge estava apenas começando. Hoje existem vários projetos diferentes para ajudar o país, incluindo a criação de formas de tratamento do câncer, a viabilização da exploração espacial em Marte e o fornecimento de energia nuclear.

O Projeto Manhattan inaugurou a era nuclear e deixou legados duradouros que ecoam por todo o mundo até hoje, mas também levantou questões éticas e dilemas morais entre cientistas e cidadãos. O avanço da ciência nuclear gerou inovações na medicina e na exploração espacial, mas também trouxe impactos humanitários, resíduos radioativos e problemas de saúde. O segredo fabricado em Oak Ridges mudou o mundo para sempre.


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Leia também “Imagem da Semana: carrasco em toga vermelha”

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4 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Muito bom, não sabia que o projeto envolveu tanta gente

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