O sol ainda está nascendo quando a base militar entra em alerta. Não há som de turbinas de jatos, helicópteros ou tanques se movendo. O aviso vem silencioso: um enxame de drones autônomos armados cruza a fronteira a mais de 200 quilômetros de distância, detectados por sensores de longo alcance conectados à internet militar das coisas. Em segundos, os sistemas de defesa despertam. Torres giram automaticamente e escudos a laser começam a disparar feixes invisíveis que, em menos de um segundo, vaporizam as primeiras colunas de drones. Ao mesmo tempo, um pulso violento de micro-ondas derruba dezenas de aparelhos de uma só vez. Prevendo isso, o invasor enviou milhares de “soldados”.
É um ataque coordenado, uma nuvem ameaçadora. Alguns grupos se apresentam ao sacrifício: voam e emitem sinais propositais para atrair a atenção e o esforço do rival. Naturalmente serão abatidos — o revés está na conta como preço e parte da estratégia. Enquanto isso, outra frota de drones, muito mais numerosa e armada, avança pelo flanco desguarnecido. Do alto, um míssil hipersônico, atento à movimentação, é lançado. O projétil guiado por sistema de orientação multimodal cruza o céu num deslocamento equivalente a oito vezes a velocidade do som. Não dá tempo de piscar. Radares tradicionais viram peças de museu ante a incapacidade de qualquer tipo de interceptação. A única chance está nos recursos de inteligência artificial (IA) que calculam a rota exata em frações de segundo e acionam um laser de alta potência para desintegrar a ogiva antes do impacto.
No chão, soldados avançam pela cidade usando capacetes de realidade aumentada. Munidos de um dispositivo com touchpad, acessam pelo visor uma sobreposição de informações: localização de inimigos, mapas 3D de ruas bloqueadas e trajetórias seguras para avanço. Por cautela, um robô batedor de apenas 60 cm de altura corre à frente, alimentando a tropa com imagens térmicas de possíveis emboscadas. Do espaço, satélites em órbita baixa captam movimentos de forças inimigas e transmitem dados em tempo real. A centenas de quilômetros de distância e teoricamente embutido em um ambiente seguro, o comando central processa tudo em menos de 30 segundos para a tomada de decisão e os ajustes precisos e imediatos conforme cada nova informação.

O caos na comunicação
De repente, a rede de comunicação sofre um colapso. O cérebro da operação entra em pane. Não é um problema técnico; foi o inimigo que detonou uma bomba de pulso eletromagnético, desligando tudo que não estivesse protegido. Computadores, veículos e até sistemas médicos caem. A cidade fica às escuras. Em meio ao blackout assustador, a população civil gruda os olhos em seus celulares em busca de socorro.
Sintonizadas com o clima de incerteza, as telas começam a projetar vídeos e mensagens alarmantes, encenadas por impostores de porta-vozes oficiais. Tudo é falso. Uma campanha de desinformação em tempo real dá a notícia de que a base foi tomada e a região, rendida. O objetivo é propagar pânico, demolir o moral e desmobilizar defesas. A estratégia, integralmente apoiada em inteligência artificial, consiste em confundir e aniquilar a razão. A batalha se estende pelo céu, pela terra, pelo mar, pelo espaço e pelo mundo digital. Não há uma frente clara de combate. A guerra está em todos os lugares ao mesmo tempo. O futuro chegou, e ele não se parece em nada com o que o mundo conhece.
O texto acima é uma ficção, mera projeção. Contudo, na opinião de especialistas, por volta de 2050 essa pode ser a realidade no planeta. De acordo com a Markets and Markets, reconhecida pela revista Forbes como uma das consultorias de gestão mais confiáveis do mercado nos EUA, o setor global de defesa e armamentos deve movimentar US$ 3 trilhões até 2035 (crescimento médio de 5,5% ao ano). O foco das nações desenvolvidas está na modernização de suas Forças Armadas com sistemas digitais, plataformas remotas e defesa cibernética. A inteligência artificial aplicada a sistemas de armamento autônomo desponta como solução disruptiva. A ela, os governos deverão bater continência.

Rússia e o ‘Chernobyl Voador’
Conhecidos como Lethal Autonomous Weapon Systems – LAWS (“Sistemas de Armas Autônomas Letais”), esses sistemas são capazes de identificar, escolher e atacar alvos sem intervenção humana direta. De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), os maiores orçamentos militares do mundo continuarão sendo dos Estados Unidos (US$ 880 bilhões por ano), seguidos por China (cerca de US$ 240 bilhões), Rússia (US$ 140 bilhões), Índia (US$ 90 bilhões) e Arábia Saudita (US$ 80 bilhões). Os norte-americanos lideram em tecnologia e orçamento, mas a China e a Rússia patrocinam avanços agressivos. Os asiáticos, por exemplo, já testam enxames de drones dotados de IA e investem pesado em mísseis hipersônicos capazes de cumprir o trajeto entre Pequim e Nova York (11,2 mil quilômetros) em 53 minutos — o tempo de uma série de TV. Os russos projetam o chamado “Chernobyl Voador”. Invisível aos radares, o míssil voa por semanas carregando uma assustadora ogiva nuclear com propulsão atômica instável. A arma, com nome oficial de Burevestnik, está em testes no Ártico.
Tanques, fuzis e mísseis convencionais vão sobreviver, porém, como acessórios de sistemas inteligentes. A infantaria — os tradicionais soldados da linha de frente em solo — ganhará sensores e exoesqueletos, que são as estruturas mecânicas ou robóticas para uso junto ao corpo humano com o objetivo de ampliar força, resistência e mobilidade. Vão funcionar como uma armadura tecnológica parecida com o figurino de Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr., no filme Homem de Ferro (2008). Em alguns anos, o blindado, aquele do emblemático canhão, não será tripulado; seus operadores vão estar a milhares de quilômetros, trabalhando com um joystick.
A guerra do futuro, preveem os analistas, tende a marcar mais presença em regiões geopolíticas instáveis, como Europa Oriental, Ásia-Pacífico, Oriente Médio e América do Sul, com destaque para Venezuela e Colômbia. Países com fronteiras tensas ou disputas territoriais devem se atualizar para não ficarem tecnologicamente vulneráveis. O modelo de combate vai mudar, mas as zonas de tensão permanecerão, como se isso fosse uma característica atávica. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os conflitos de nova geração já ocorrem em regime conta-gotas, alheios a uma declaração formal de guerra. Ciberataques, sabotagens digitais, drones em zonas cinzentas e espionagem automatizada são parte da nova realidade.
Davi contra Golias
Nesse contexto, vale recordar dois episódios recentes que servem de prenúncio quanto ao caráter tecnológico avassalador que se desenha. O primeiro, no início de junho deste ano, refere-se aos 117 drones ucranianos, avaliados em US$ 750 cada um, que atacaram bases aéreas russas. Sem qualquer soldado em combate direto, a operação destruiu ao menos 40 aeronaves inimigas, incluindo bombardeiros estratégicos. Com peso inferior a dois quilos e envergadura de no máximo 30 cm, cada um desses drones foi escondido em contêineres de madeira e transportado por caminhões até as proximidades das bases russas. De lá, receberam um comando remoto. O saldo da ofensiva, que custou para os ucranianos menos de US$ 60 mil, foi a eliminação de parte da frota aérea pesada russa, avaliada em US$ 7 bilhões.
Quase um mês depois, foi a vez de o mundo ficar de queixo caído com a Operation Midnight Hammer, ou Operação Martelo da Meia-Noite. Em 18 horas, os Estados Unidos realizaram um ataque militar coordenado contra três importantes instalações nucleares do Irã (Fordow, Natanz e Isfahan). A ação combinou o que há de mais sofisticado no arsenal contemporâneo da indústria bélica global. Os fundamentalistas do aiatolá Ali Khamenei sentiram o impacto da GBU-57, uma bomba de 13,6 toneladas que serve para destruir estruturas enterradas profundamente, como são geralmente as instalações nucleares. O artefato foi transportado pelos B-2 Spirit, aeronaves que voam diretamente até os alvos sem permitir um alerta prévio aos inimigos.
Quem vai dar o primeiro disparo
Apesar de toda essa tecnologia, o futuro sugere um perfil ainda mais furtivo, cirúrgico e fulminante. “O próximo conflito global não deve começar com mísseis, mas com um blackout em larga escala causado por um código de computador”, arrisca o analista militar britânico James Patton Rogers, diretor-executivo do Brooks Tech Policy Institute, na Cornell University, um instituto nos EUA voltado ao estudo de políticas de segurança, tecnologia e geopolítica. Na visão de Peter Singer, Ph.D. em Relações Internacionais e voz influente no campo da tecnologia militar, não é exagero admitir que a guerra do futuro está em curso. “Ela está sendo gestada em laboratórios de inteligência artificial, centros de comando espacial e estações subterrâneas de guerra cibernética”, contou. “O conflito armado tradicional, com tanques de guerra e soldados no campo de batalha, está cedendo espaço a sistemas autônomos, armas invisíveis e decisões comandadas por algoritmos”.
Singer diz em seu livro Wired for War (Preparado para a Guerra) que essa evolução “torna os conflitos humanos menos visíveis e emocionalmente distantes”. Para ele, serão movimentos muito mais à base de fórmulas matemáticas e muito menos à base de humanos. “Menos gente morrendo pode tornar as decisões de ir à guerra muito mais fáceis, produzindo uma tendência preocupante com implicações profundas na política e na ética”. Seu pensamento coincide com o que diz o general da reserva do Exército brasileiro Sérgio Etchegoyen, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo Michel Temer. “Estamos entrando em uma era em que o primeiro tiro será disparado por uma máquina, não por um soldado”.

O peso da tecnologia quântica
Outro ponto de atenção no futuro, dizem os especialistas, é a tecnologia quântica, que transforma fenômenos microscópicos, antes restritos à física teórica, em aplicações práticas que podem revolucionar computação, comunicação, defesa e ciência. “Desde a quebra de criptografia até a capacidade de identificar submarinos de ataque nuclear submersos, essas tecnologias, em 20 a 30 anos, poderão afetar as atividades de segurança e inteligência, bem como balançar os pilares da dissuasão nuclear entre as grandes potências”, explica Augusto Teixeira Júnior, pós-doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército brasileiro.
Professor visitante no Departamento de Estudos de Guerra, na King’s College London, no Reino Unido, Teixeira vislumbra com apreensão o conjunto de transformações na perspectiva de eventuais guerras. “Se considerarmos que diversos países — notadamente Estados Unidos e China — estão em uma competição geopolítica e tecnológica global, a mudança no patamar de força poderá criar condições para conflitos com severas consequências globais e destrutivas”.
No centro dessa metamorfose, um dos aspectos mais intrigantes para os pesquisadores é identificar o real lugar a ser ocupado pelo homem. “Dificilmente teremos condições tecnológicas para uma guerra sem seres humanos. Contudo, armas autônomas são um tema preocupante no campo da estratégia e tática militar, assim como no espaço da ética”, diz Teixeira Junior. “Por mais tecnológica que seja a guerra, ela ainda será uma atividade humana cuja natureza é imutável e política”.
O robô nos campos de batalha
Especialista em Geopolítica e Teoria da Guerra, o professor Sandro Teixeira Moita, também docente e pesquisador na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, afirma que nos próximos anos o mundo vivenciará uma grande experimentação entre homem e máquina, em que a robotização será a protagonista no campo de batalha. Na sua visão, a presença de drones talvez seja o grande destaque deste primeiro momento do século 21, com uma significativa influência nos conflitos até 2040 ou 2050. “A massa de robôs ajuda a diminuir os custos políticos de enviar soldados para zonas de combate, o que, paradoxalmente, pode tornar ainda mais atrativa a opção de ir à guerra, pois um dos fatores que tornam os conflitos impopulares são as mortes de soldados e a pressão das famílias”.
Na visão dos analistas, o futuro da guerra será híbrido: humanos e máquinas lado a lado, decisões guiadas por IA e sistemas autônomos. O poder estará nas mãos de quem agir com velocidade, precisão e inteligência científica. Em meio a essa vantagem competitiva, outra certeza é: quem não se adaptar poderá simplesmente sumir do mapa.

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É assim que se constrói um país, com um sistema de defesa potente capaz de eliminar qualquer ameaça externa. Invejável a estrutura militar dos Estados Unidos da América.
Excepcional sabemos que estamos perto do fim