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Edição 283

Streaming sem fim

Estamos vivendo uma era de ouro de opções de entretenimento. Mas o preço pode ficar alto

Imagine um restaurante chamado Diffusion des Chefs. É um buffet que reúne os pratos de vários restaurantes. São centenas de caldeirões e bandejas com pratos fumegantes e saladas coloridas. O aroma está no ar. Você pagou por tudo — e pagou caro. Olha as bandejas, são tantas opções… Você não consegue se decidir. Seu prato continua vazio.

O Diffusion des Chefs é uma imagem simbólica da atual situação do mercado de streamings de vídeo. Esse é um mercado que parece não parar de crescer. São opções demais. E nosso comportamento não parece tão racional. Não temos tempo para assistir a tudo o que assinamos.

Mas tudo na vida precisa de uma perspectiva histórica. Até o dia 18 de setembro de 1950 não havia televisão no Brasil. Nessa data surgiu a TV Tupi. Em algum tempo, criou-se um sistema conhecido como “TV aberta”: cinco canais. Lá por 1975, os cinco canais continuavam no ar, mas uma única emissora era assistida por quase todos os brasileiros: a Rede Globo. Globo em casa, Globo nos bares, Globo nos hospitais.

No início dos anos 1980 surge uma opção: um aparelho chamado videocassete. Com ele, as primeiras locadoras. Quem não queria depender da Globo podia alugar vídeos e mandar no próprio entretenimento. Foi o primeiro momento de libertação. Mas a TV ao vivo continuava com seus cinco canais.

O passo seguinte começou em 1991, quando a TV por assinatura se tornou uma possibilidade para quem quisesse se libertar dos cinco canais. Bastava ter acesso à rede de cabos da NET ou da TVA. Em 1996, com a DirecTV e a Sky, nem o cabo era necessário. Em qualquer ponto do Brasil, bastava apontar sua antena para um satélite e ter dezenas de programas disponíveis.

Mas tudo isso era ao vivo. Quem quisesse ver e rever um filme quando desejasse continuava dependendo da locadora. A situação atual — o “grande buffet” — nasceu em setembro de 2011 com a Netflix.

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Nasce a era do streaming

A Netflix mudou completamente as regras do mercado de entretenimento. Você não precisava mais pagar por um vídeo alugado, como na locadora. Por uma mensalidade fixa (equiparável ao preço do aluguel de um único vídeo), o cliente tinha acesso a todo seu acervo de filmes e documentários.

A essa altura, a dependência da Globo e das emissoras abertas tinha ficado para trás. O público da TV convencional foi encolhendo e envelhecendo. O modelo multiplicou os sistemas de streaming. Hoje é praticamente impossível saber de cor o número de serviços oferecidos. Pagamos um pouquinho pelo streaming A, um pouquinho pelo B — e levamos um susto quando chega o extrato do cartão de crédito.

Para facilitar a compreensão desse panorama, vamos fazer aqui uma tabela mais completa possível dos serviços de streaming disponíveis no Brasil e seus respectivos preços, que podem variar constantemente. A tabela serve apenas como uma referência. A diferença de preços geralmente se dá pelo fator de exibição dos programas com anúncio ou sem anúncio. Aqui estão relacionados apenas os preços de assinaturas mensais, não as opções de pagamento anual.

TOTAL EM REAIS697,17834,08
MAIS BARATOMAIS CARO
Adrenalina Pura14,9014,90
Amazon Prime19,9029,90
Apple TV+21,9012,90
Aquarius22,9022,90
Belas Artes12,9012,90
BOOH!14,9014,90
Cindie12,9012,90
Combate34,9034,90
Crunchyroll14,9919,99
Curiosity18,9037,90
CurtaOn14,9014,90
Disney+27,9966,90
Filmelier14,9014,90
Globoplay22,9022,90
Imovision24,5024,50
Looke16,9016,90
Love Nature9,909,90
Max29,9055,90
MGM+19,9019,90
MLS34,9039,90
Mubi34,9034,90
NBA League Pass54,9954,99
Netflix20,9055,90
Oldflix16,9016,90
Paramount+27,9034,90
Premiere59,9059,90
Sony One14,9014,90
Stingray6,606,60
Telecine29,9029,90
Universal+24,5024,50

Existem alguns sistemas gratuitos, como o Plex, especializado em conteúdos do passado. Outros streamings gratuitos estão vinculados a canais de TV aberta: +SBT, PlayPlus (TV Record) e Cultura Play (TV Cultura). Os sistemas parecem se multiplicar oferecendo mais e mais opções — o que faz nossos controles remotos esquentarem em nossas mãos numa eterna indecisão. 

O fenômeno cresce também com os serviços de streaming esportivos. Eles oferecem cobertura completa de torneios específicos. São o paraíso dos fanáticos pela NBA, MLS e competições de lutas. E indicam mais problemas para o sistema de canais abertos.

Nos EUA é mais caro

Essa lista poderia ser ainda maior. Alguns streamings ainda não estão disponíveis por aqui. Um deles é o Peacock, um complexo de canais que inclui a NBC, Telemundo, USA, SyFy, Universal, Entertainment e Dreamworks. 

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Outro serviço de streaming é a BBC, com seu vasto complexo de canais envolvendo esportes, notícias e documentários. Mas a mentalidade britânica é tão estatizada que o serviço (chamado iPlayer) não pode ser acessado nem pelo atalho do VPN. Acredite se quiser, quem tenta acessar o iPlayer é questionado se já pagou seus impostos ao governo de Sua Majestade.

Temos ainda o Izzy, só com produções israelenses. Custa US$ 16 mensais (o equivalente a R$ 83). E mais: ITVX, Criterion, Shudder, BritBox (nenhum deles acessível no Brasil). E não podemos esquecer o vasto universo do YouTube.

Quanto aos preços, estamos pagando muito menos no Brasil do que nos EUA. Lá, a assinatura mensal da Netflix (em preços equivalentes em reais) vai de R$ 42 a R$ 134. A Prime Video, de R$ 49 a R$ 81. O Max, de R$ 54 a R$ 113.

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A diferença de preços talvez seja uma das razões pelas quais o Brasil está ultrapassando os EUA em gasto mensal médio. Deu na Forbes Brasil: “O Brasil está se consolidando como um dos mercados mais dinâmicos e promissores para o setor de streaming e entretenimento digital. Segundo a Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2023–2027 da PwC, o país deve atingir R$ 206,5 bilhões em receitas totais de entretenimento e mídia até 2027, superando proporcionalmente os gastos dos consumidores americanos”.

E no entanto nosso mercado cresce

Segundo a Forbes, o brasileiro gasta em média R$ 118 por mês com streaming e o americano cerca de R$ 212. Isso explica em parte o fato de os brasileiros assinarem em média quase o dobro de serviços do que os americanos: 3,8 contra 2. O estudo da Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia calcula que os brasileiros vão gastar mais de R$ 51 bilhões até 2027 em serviços de streaming. Os americanos deverão gastar muito mais: R$ 3,46 trilhões. Mas o crescimento do segmento aqui é maior.

Estamos exagerando na nossa fúria de assinar serviços de streaming? Não existe esse julgamento, apenas as velhas e sábias leis do mercado. Para uma população que passou décadas hipnotizada pelo plim-plim da rede Globo, essa fartura pode ser um sinal muito saudável. Na Coreia do Norte e em Cuba, existe apenas uma TV oficial. Melhor para nós ficarmos na dúvida sobre o que escolher no vasto buffet do Diffusion des Chefs.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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5 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Eu assino vários kkkk não tem coisa melhor. Liberdade para assistir o que quiser.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Os EUA deve arranjar um jeito de libertar todos os países da América dos seus respectivos tiranos

  3. Sonia Regina Del Nero Vitullo
    Sonia Regina Del Nero Vitullo

    Sempre um artigo impredível, Dagomir. Eu assino a Brasil Paralelo, excelente!

  4. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Obrigada pelo artigo Dagomir, muito esclarecedor.Para mim a vinda do streaming para o Brasil foi libertador. Não conseguia mais assistir a TV aberta com os canais disponíveis, passei pelo vídeo cassete, depois para CDS.Minha decisão de passar para TV a cabo,que na época não tinha a tecnologia de hoje,.foi por causa de minha filha.Tive que oferecer mais opções, só havia programas péssimos na TV aberta.Deu certo, ela aprendeu a assistir filmes e interpretar o conteúdo tinha apenas nove anos. Hoje assino apenas duas plataformas, são suficientes. Bem vindo ao mundo digital, saber escolher bem é o gatilho .

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