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Foto: Montagem Revista Oeste
Edição 281

Parem as máquinas

Talvez lá de cima ele esteja dizendo: “Menos, meu amigo. Menos”. Nunca vi ninguém fuzilar a solenidade com tanta convicção (e elegância)

A vida pregou uma peça no Guzzo. Conheci poucas pessoas tão desinteressadas por papéis heroicos, mas o fato é que isso acabou acontecendo com ele: sua missão jornalística virou uma missão libertadora. Talvez, lá de cima, ele esteja dizendo: “Menos, meu amigo. Menos”. Nunca vi ninguém fuzilar a solenidade com tanta convicção (e elegância).

Então, pedindo perdão antecipado ao Guzzo se isso soar solene, repito: sem almejar tal papel, e até talvez sem o reconhecer como seu, o jornalista José Roberto Guzzo virou um libertador. Isso ficou claro no dia 2 de agosto de 2025, quando a vida ordenou: parem as máquinas.

Aí as rotativas passaram a imprimir uma edição extraordinária que trazia a manchete de capa: Guzzo venceu.

Venceu não só por sua carreira jornalística gloriosa, que inclui a direção de um dos maiores e mais influentes veículos de comunicação que este país já teve — a Veja, uma marca que já foi um farol; venceu não só porque mostrou a várias gerações o que é fazer jornalismo de qualidade; venceu não só porque, diante da decadência generalizada da imprensa, fundou com Augusto Nunes e Jairo Leal um veículo que já na primeira infância se tornou líder — a Revista Oeste. Guzzo venceu principalmente porque, ao anúncio de sua morte, sobreveio uma enxurrada de amor.

A morte de jovens comove, especialmente, pela interrupção precoce da vida. Aos 82 anos, J. R. Guzzo morreu como um jovem. O tom das manifestações que se espalharam pelas redes, muito além do grande círculo da Oeste, mostra mais do que uma multiplicação de homenagens: mostra a comoção dos que se afeiçoaram ao Guzzo — e sentiram a interrupção precoce da sua caminhada com ele. Afinal, Guzzo estava no auge. E as ameaças à liberdade também.

Desculpe, mestre. Você rechaçaria essa solenidade. Mas tenho que dizer que a sua missão jornalística virou missão libertadora. Todos esses corações que choraram com a sua partida estão semeados pelo seu senso de justiça, pela sua intransigência com os delitos de boa aparência, pelo seu respeito à realidade dos fatos e pela destruição do moralismo com a arma simples e poderosa da moral. Tudo isso é plantação de liberdade. Má notícia para os tiranetes.

Talvez, lá de cima, o Guzzo esteja dizendo: “Nem missão libertadora, nem missão jornalística. Eu só fiz o meu trabalho e cumpri com a minha responsabilidade”.

OK, mestre. Ficamos combinados assim. Este é o legado: façam o seu trabalho (bem feito) e cumpram com a sua responsabilidade (até o fim). Se estiverem na dúvida sobre o caminho, releiam José Roberto Guzzo na Oeste. E descubram que a vida recompensa os que a respeitam como ela é.

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste

4 comentários
  1. GABRIELA ZIBETTI
    GABRIELA ZIBETTI

    Paradoxal o pragmatismo de J. R. Guzzo. O cético que se tornou autoridade na luta pela liberdade. Saudosos, ficaremos por aqui, fazendo o nosso trabalho.

  2. Marta Patricia Schroeder Russi
    Marta Patricia Schroeder Russi

    Belíssima homenagem Fiuza. Ele merece

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Obrigada Fiuza,me emocionei com suas palavras. As máquinas pararam nesse dia,dois de agosto as cinco horas.da manhã .Mas posso dizer que nunca vi tanto amor e reconhecimento, Guzzo deu seu melhor na Revista Oeste. Bjo.

  4. Sandra barros
    Sandra barros

    Parabéns pelo texto, acho que muitas pessoas invisíveis como eu sentiram essa perda como a de alguém próximo. Uma tristeza para nós aqui, mas a certeza que ele está no caminho dos Céus.

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