Ato 1
Em 13 de junho de 1983, fui convidado a ser o novo crítico de cinema da revista Veja. Atingir esse posto aos 30 anos de idade na mais importante revista do país foi um grande feito. Durou pouco.
No começo, tudo foi festa. Mas a Editora Abril, na época, não era um local agradável de se trabalhar. Quando a gente terminava cada artigo, entregava a um dos editores. Eles demoravam horas intermináveis para que cada linha fosse lida e adaptada ao famoso padrão Veja de qualidade jornalística.
Numa das salas ficava o editor José Roberto Guzzo — que não cuidava dos meus textos. Era uma figura meio ranzinza, distante, temida pela redação. Após 87 dias de minha gloriosa entrada na Veja, pedi demissão. Não aguentei a pressão. Parti e deixei o Guzzo com suas pilhas de laudas a corrigir.
Ato 2
Catorze anos depois, voltei para a Abril, que agora era outra editora, numa sede de luxo com todas as facilidades e confortos que um funcionário pudesse desejar. Como era um entusiasta da tecnologia, o então diretor da editora, Paulo Nogueira, me convidou a escrever uma coluna para a revista Info.
Aproveitei para sugerir a edição de um “Dicionário de Informática” para que os leitores leigos entendessem o significado de coisas como sistema operacional, hard disk, placa-mãe e outros termos esotéricos. Seria uma longa jornada de A4 (o tamanho padrão de folhas sulfite usadas para impressão) a ZIP (uma mídia já extinta de armazenamento de dados).
O Paulo topou na hora. E indicou para o projeto um supervisor editorial de luxo: José Roberto Guzzo. Sorridente, afável, entusiasmado com o projeto — o contrário do “ogro”, como era pintado nos meus tempos de Veja.
O dicionário demorou pouco menos de sete meses para ficar pronto. No dia 8 de janeiro de 1998, entreguei os originais para o grande Guzzo — que admirou minha capacidade de deixar aquele assunto árido de forma mais acessível até para ele, que era um leigo no assunto. Infelizmente, a Editora Abril demorou demais para publicar o dicionário e desistiu dele. Na época, perdi minha chance de exibir ao mundo minha parceria com J. R. Guzzo.
Há uns cinco anos, decidi lançar o Dicionário de Informática 1997 em versão digital. Para servir como uma espécie de museu escrito de uma época de pioneiros. E também, claro, para finalmente colocar o nome do Guzzo próximo ao meu nos créditos de um livro.
Ato 3
Em 2007, fui demitido da Abril. Não muito tempo depois, a própria editora se desfez num final melancólico de sua gloriosa história.
Mais dez anos se passaram. Em 2017, eu estava numa situação profissional ruim. Não me lembro como consegui esse encontro, mas no dia 18 de janeiro eu estava almoçando com o Guzzo no restaurante Piratininga, no bairro da Vila Madalena. Era uma situação curiosa: dois caras que se conheceram vinte anos antes tinham sua primeira conversa pessoal.
Antes mesmo que chegasse o primeiro prato, a conversa estava embalada. Ia das memórias do passado em comum, à situação política e aos prazeres oferecidos pelos trens europeus. Acho que entre o primeiro e o segundo café, abri o jogo. Eu precisava de um emprego. A Abril não existia mais. A chamada grande imprensa havia se convertido num território dominado pela militância esquerdista. E eu não tinha vez nesse território.
“Será possível, Guzzo, que a nossa profissão esteja destruída no Brasil? Será que nenhum empresário vai colocar a mão no bolso para fazer uma publicação que não seja de esquerda e ligada ao petismo?” Ele não respondeu diretamente a essa dúvida cruel. Disse que já havia gente conversando a respeito. E me pediu paciência. Ele se lembraria de mim quando tivesse alguma novidade.
No dia 11 de agosto de 2020 marcamos outro almoço. A vaga noção de uma revista “não esquerdista” agora era uma realidade desde março. Conversamos muito sobre o novo projeto. “Por que a revista se chama Oeste?”, perguntei. “É um nome, como todos os outros”, disse Guzzo. “Nessa área, o projeto e a qualidade valem muito mais do que qualquer nome. Você poderia imaginar pelo nome que uma revista chamada ‘Veja’ chegaria onde chegou?” Foi a primeira das muitas lições que teria do professor Guzzo nos anos que se seguiram.

Ato 4
No princípio, fui um colunista trabalhando remotamente. A diretora Branca Nunes me convidou então a fazer parte efetiva da redação. No dia 28 de junho de 2021, participei da minha primeira reunião de pauta e me sentei à mesa com as pessoas que aprendi a admirar à distância: Jairo Leal, Silvio Navarro, Paula Leal. E José Roberto Guzzo. (Nessa época, Augusto Nunes, com outros compromissos, comparecia quando podia).
As reuniões aconteciam às segundas, na então minúscula sede da Oeste. E reuniões, de pauta ou não, costumam ser uma espécie de terapia em grupo. No começo, eu percebia uma certa desconfiança natural do Guzzo com relação às pautas que eu sugeria. Ele não tinha mais a curiosidade do passado com relação à tecnologia. E achava estranhas algumas das minhas visões pessoais sobre o mundo.
Mais para frente, essas diferenças geraram alguns atritos entre nós nas reuniões. Algumas de nossas visões de mundo e de imprensa eram diferentes. Natural. Em compensação, quando o Guzzo queria elogiar, lançava um bombardeio de generosidade, como esta troca de mensagens, em 7 de janeiro de 2023:
Guzzo
“Caro Dagô
A matéria do consórcio internacional da mídia está simplesmente espetacular. Acho que é a melhor coisa que você já escreveu para a revista — poderia muito bem ser a capa. É uma honra para a Oeste publicar uma matéria tão bem feita como essa”.
Dagomir
“Guzzo, hoje é só 7 de janeiro e eu já ganhei o ano. Super super super obrigado. Engraçado é que eu resolvi fazer uma matéria meio ‘guzzoniana’, com lógica e simplicidade. Capricha na abertura, capricha no final, mantenha o recheio informativo, honesto e acessível. Aprendi com você”.
Guzzo
“Muito bom ouvir isso de um profissional como você, meu caro! Olha: eu acho que você nunca vai errar seguindo essa regra. Escrever bem, na minha opinião, é obedecer a dois princípios: PRINCÍPIO 1 — escreva matérias iguais a essa. PRINCÍPIO 2 — Não existe princípio 2″.
Quanto às reuniões de pauta, baixei minha bola e parei de tentar impor meu ponto de vista. A cada encontro, eu permanecia calado por umas duas horas ouvindo com atenção o que os maiores jornalistas do Brasil (você sabe quem são) tinham a dizer. Para um leigo em política brasileira como eu, aquela foi (e continua sendo) a melhor escola que eu poderia frequentar.
Chegava, então, uma hora em que o pessoal do Oeste Sem Filtro se retirava e ficava pouca gente na sala. Com o planejamento para a próxima edição praticamente resolvido, eu puxava conversa com o Guzzo sobre cultura pop. Ele era dez anos mais velho que eu, mas muitas de nossas referências eram as mesmas.
Descobri que ele tinha conhecimentos preciosos. Como, por exemplo, saber que a SMERSH foi a grande inimiga no início da carreira de James Bond. Ou que o verdadeiro nome do Bolinha era Tomás França, sua identidade secreta como detetive era O Aranha e que o culpado pelos crimes era sempre Palhares, o pai de Luluzinha. Chegamos a conversar também sobre suas bandas favoritas de rock. Ele tinha uma paixão secreta pelo heavy metal.
Esses diálogos foram ficando cada vez melhores. Muitas vezes essas conversas de fim de reunião descambavam para a troca de piadas e a lembrança de programas cômicos de TV esquecidos para sempre.
É assim que vou levar José Roberto Guzzo na minha memória. Não só como um mito do jornalismo. Mas como um homem de 82 anos rindo como uma criança nas reuniões de pauta da Revista Oeste.
Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste




Espetacular, Dagô. Anotei suas lições espalhadas generosamente no artigo. Abs
Artigo muito bom, curti à bessa, obrigada.
Dagomir,você descobriu todos os segredos de Guzzo e de nossa infância, gostávamos demais de ler tudo. As histórias em quadrinhos eram nossas prediletas, Sorte nossa que você veio para Oeste, estou aprendendo aos poucos os segredos da Internet, adorei sua interpretação da Branca de Neve,perfeita.
Obrigado, Teresa! Seus comentários me enchem de alegria. E saber que vocês liam as revistas do Bolinha e da Luluzinha me fez admirar a família Guzzo ainda mais!