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Edição 281

Mestre em argumentar

Mesmo quem discordava de Guzzo reconhecia sua capacidade de articular ideias de forma persuasiva. Concordando com ele ou não, todos pareciam admitir que se tratava de um mestre na arte de argumentar

Os comentários que lamentam a morte de José Roberto Guzzo ressaltam a capacidade que tinha o grande jornalista de abordar e criticar com objetividade, coragem e contundência, em sua coluna semanal, os problemas atuais do Brasil. Louvam também o texto acessível e direto, as palavras usadas com a precisão de um relojoeiro ao montar e desmontar o instrumento de medir as horas. Nada tão justo. Mas se esquecem da capacidade imensurável de trabalho de Guzzo, da qual sou testemunha, pois fui por mais de 20 anos seu comandado na redação da revista Veja, em São Paulo. Ressalto que, profissionalmente, ele enfrentava qualquer parada, por mais difícil ou desafiadora que fosse.

Lembro de um episódio exemplar. No dia 22 de maio de 1979, após uma assembleia geral no Tuca, o teatro da PUC, quase 1.700 jornalistas de São Paulo decidiram, por voto aberto, entrar em greve. Reivindicavam 25% de aumento salarial e imunidade para os representantes sindicais nas redações. A paralisação imitava o movimento sindical dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo, que cruzaram os braços em 1979 e 1980, sob a liderança do então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, obtendo sucesso.

A greve dos jornalistas, porém, foi um fracasso. Seis dias depois da deflagração, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) julgou-a ilegal. Pior: os jornais paulistanos continuaram a ser publicados normalmente, com a ajuda de um punhado de fura-greves. Mas Veja não precisou de profissionais que desrespeitassem a decisão da assembleia. A greve começou em uma terça-feira e a revista tinha que rodar, se não me engano, de sexta-feira à noite para sábado de madrugada. Em quatro dias, Guzzo, que era seu diretor de redação, cargo ocupado por ele entre 1976 e 1991, fechou a edição inteira auxiliado pelo redator-chefe.

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Circulou depois que ele, trabalhando sozinho dia e noite, redigiu 70% dos textos da edição. Não foi pouca coisa. A revista da greve teve cerca de oitenta páginas, com duas dezenas de seções. Iam da Carta ao Leitor à editoria de investimentos, passando por internacional e política nacional (Brasil), além de literatura e artes plásticas, que requeriam profissionais especializados. Conclusão: Guzzo realizou uma proeza digna de ser inscrita no Guinness World Records, o livro dos recordes e superlativos reconhecidos internacionalmente.

Outro talento seu era o senso editorial. Para começar, conseguia antever no dia da reunião de pauta a edição que sairia da gráfica. Quando seguro do resultado, podia sentenciar: “Teremos uma boa edição”. Saia ele próprio para reportagens e, ao contrário de outros diretores, jamais deixou de escrever na revista, além da obrigatória Carta ao Leitor. Fechava a porta da sua sala e, do lado de fora, ouvia-se o toque-toque da máquina de escrever. Tais qualidades ajudaram-no a fazer da Veja a mais lida e influente publicação semanal de notícias do Brasil, cuja tiragem foi catapultada sob a direção de Guzzo: saltou de 175 mil para 1 milhão de exemplares.

Isso fora a lenda de que Veja desenvolveu sua linguagem acessível, a abrangência e a profundidade dos textos, graças às reportagens traduzidas ou adaptadas da publicação coirmã norte-americana Newsweek, com a qual manteve acordo. Desse entendimento, sobretudo, era beneficiária a editoria internacional, que Guzzo comandava desde o início da revista. Não por acaso, as demais seções passaram a ser estimuladas a observar aquele trabalho. 

Os leitores de Guzzo impressionavam-se com sua inflexível convicção conservadora. Ressalte-se, porém, que o grande jornalista nunca abriu mão da defesa dos direitos às liberdades e garantias fundamentais protetoras do indivíduo em relação ao Estado e à sociedade. Aliás, diante de sua coluna, as pessoas dividiam-se em dois grupos. De um lado estavam as que a liam sempre — e eram milhares. “Guzzo falava tudo o que gostaríamos de dizer”, comentou uma professora gaúcha.

Outras, fiéis ao missal da esquerda, abominavam a coluna de Guzzo, recusando a leitura. Um adepto dessa orientação política, porém, revelou-nos um comportamento que talvez explique a capacidade de prender a atenção e o poder dos escritos do grande jornalista. Evitava sua coluna “pelo medo de ser convencido por ele”. Mesmo quem discordava de Guzzo reconhecia sua capacidade de articular ideias de forma persuasiva. Concordando com ele ou não, todos pareciam admitir que se tratava de um mestre na arte de argumentar.

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1 comentário
  1. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Guzzo era assim não importa em qual veículo trabalhava, trazia sua lucidez e respeito aos fatos. Esse era nosso Guzzo e meu irmão de alma.Tristeza infinita..

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