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Silvio Navarro e J.R. Guzzo | Foto: Sylvio Rocha/Revista Oeste
Edição 281

Aprendi a escrever com ele

A lição mais importante foi a primeira: "Escreva com coragem"

Algumas pessoas cruzam as nossas vidas e deixam marcas para sempre: J. R. Guzzo me ensinou a escrever com coragem. Essa história começa em 2012, quando o conheci na antiga redação de Veja, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Eu era um jovem editor de política, recém-chegado à revista, e ele a maior estrela do jornalismo escrito. Na época, Guzzo aceitou participar de transmissões em vídeo — feitas nas redes sociais e no site —, inauguradas com o julgamento do Mensalão. Aliás, foi nesse pequeno estúdio de vidro, erguido no fundo da redação, que mais tarde eu arriscaria meus primeiros passos diante de uma câmera. Mas esses breves encontros, contudo, não tinham nada a ver com tela: ele era o meu ídolo com a caneta à mão.

Depois de alguns meses, quando as conversas passaram a correr com a mínima intimidade, resolvi levar um texto, impresso de última hora, para que avaliasse. O tema era quente. A política brasileira fervia naquela semana, e ele estava lá justamente para tratar disso. O mestre leu. Perguntei: “O que você achou?” Guzzo me olhou e começou a resposta com o seu tradicional “Olha, Silvio…”. Isso eu aprenderia com os anos: quando a frase começava com “Olha, Silvio…” era porque tinha algum problema ali. Passaram-se mais dois segundos e continuou: “Tecnicamente, o texto está correto, mas eu não publicaria, não achei bom”. Esperei apreensivo pelo desfecho da resposta. “Não tem erro de português, o raciocínio está certo, mas você precisa entender que não trabalha mais na Folha de S.Paulo. Aqui é a Veja”. De fato, eu havia passado doze anos no jornal. Essa fala foi um divisor de águas — ou melhor, de como passei a me preocupar com a maneira como a mensagem chega ao destinatário.

Quando deixei a revista, em 2018, seguimos trocando mensagens com frequência, participando de jantares com amigos em comum, principalmente a minha outra referência neste ofício, Augusto Nunes. Assim foi até o rever na recém-criada Oeste, em 2020, onde ocorrem, semanalmente, as reuniões de pauta às segundas-feiras. Aos domingos, Guzzo me enviava um recado pelo WhatsApp para lembrar de levar pacotes de palitinhos de queijo, vendidos numa padaria na cidade de Valinhos, no interior paulista, onde moro. Nesta semana, caiu uma lágrima quando peguei a estrada sem carregar os palitinhos no banco do passageiro.

Há quatro anos, numa edição especial publicada no dia 13 de agosto (edição 73), pela primeira e única vez, participei de uma entrevista ao lado de Guzzo. Na véspera, por força do destino, que às vezes bate à porta das redações, o então presidente do PTB, Roberto Jefferson, deu uma entrevista a Oeste. Guzzo fez as principais perguntas — aquelas que renderiam “a chamada”, como dizia. Ali, vi que ele era um entrevistador tão bom quanto redator. Questionou o que quis, sem rodeios e com enorme franqueza. Esse é um ponto importante: a capacidade de tratar de temas profundos e complexos com extrema simplicidade.

Guzzo me deixou ensinamentos cruciais na carreira: 1) comece com um bom título (“boa chamada”, dizia ele); 2) seja o mais claro possível; 3) escreva como você fala e não brigue com os fatos; e 4) se não estiver satisfeito, recomece, porque se o autor não entendeu, pobre do leitor.

A última lição foi a primeira — e a mais importante — que aprendi com ele: escreva com coragem. Sempre que fiquei encarregado de uma reportagem de Oeste, esperava pela sua mensagem no dia seguinte — que nem sempre chegava. Tínhamos uma brincadeira particular nos últimos anos: eu dizia que receber um elogio dele — a quem, confessadamente, tento copiar — era um “troféu”. Quando ele gostava da matéria, respondia com emojis (figurinhas de WhatsApp) de troféus.

Daqui para a frente, vou continuar esperando, a cada semana, pelos meus troféus — lá do Céu.

Obrigado por tudo, J. R. Guzzo.

Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste

4 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Você é fera, Silvio. Na minha humilde opinião, tem condições de chegar no nível, ou ao menos perto, de J R Guzzo.

  2. Paulo Ernane Rego Queiroz
    Paulo Ernane Rego Queiroz

    Merecida homenagem! Que lição: “Escreva com coragem”. Isso ele sabia fazer muito bem. Vou sentir muita falta de suas “corajosas” matérias.

  3. Teresa Guzzo
    Teresa Guzzo

    Silvio Navarro que delicadeza de texto, obrigada. Sim Guzzo amava comer,como neto de italianos por parte de nosso pai,lembrava sempre do gosto da macarronada feita com massa caseira.Nunca gostou de regime. Bjo.

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