Eu conheci o Guzzo na redação da Veja há 42 anos. Era dia 10 de julho e ele estava completando 40 anos de idade. Vinha andando pelo corredor principal com os passos tranquilos de sempre, parando para ser cumprimentado pelas pessoas e parecendo se surpreender a cada cumprimento. Eu lhe dei também os parabéns, me apresentei, e ali nasceu uma enorme amizade que nunca se quebraria.
Com comentários simples, lógicos e invariavelmente inteligentes, o Guzzo formou e influenciou centenas de jornalistas que tiveram a sorte de trabalhar ou conviver de perto com ele. Mas o Guzzo que eu conheci foi muito além disso: foi um profissional generoso. “Você quer mesmo ser jornalista?”, perguntou-me um dia. “Então, eu vou te ajudar a ser uma boa jornalista, mas você vai ter que seguir à risca as minhas orientações”. O primeiro fardo que me coube foi voltar para os bancos da escola. Além de não ter nada de experiência prática, eu não tinha o diploma de jornalista exigido naquela época para poder trabalhar na área. Eu tive, portanto, que fazer uma segunda faculdade, esquecer a vida social por alguns anos e perder noites e noites de sono treinando a escrita jornalística. Mas chegou o dia em que o ouvi dizer que havíamos atingido nosso objetivo. Eu tenho com ele uma dívida eterna de gratidão, pois graças à sua boa vontade e dedicação eu pude ter uma carreira.
Ele teve paciência comigo e com boa parte daqueles que cruzaram seu caminho querendo aprender de verdade. O Guzzo explicava o porquê das coisas. Num tempo em que os editores se limitavam a dizer “isso aqui está um lixo, faça de novo” e alguns chegavam a rasgar a matéria na cara da pessoa quando achavam o texto ruim (não havia ainda computador e as reportagens eram escritas em laudas) — e pior, na frente de todo mundo — o Guzzo era um exemplo de calma e educação. Nunca ninguém deve tê-lo ouvido gritando no meio de uma redação, outra coisa muito comum no ambiente jornalístico. Ele tinha consideração com aqueles que não sabiam o que ele sabia. E ele sabia muito de tudo, pois era observador e culto. Cada entrada de três minutos em sua sala rendia algum aprendizado. Ou vários. Resolver problemas, e principalmente não os aumentar, era a sua especialidade.

Guzzo nasceu com o dom da escrita. Trabalhou até o dia em que morreu e achava uma tremenda sorte ser pago para fazer algo que só o divertia. Em seus últimos anos de vida, com a saúde se deteriorando e as limitações físicas aumentando, ele se distraía principalmente escrevendo suas colunas. Escrevia tão rápido que às vezes parava o texto na metade só para deixar um pouco de prazer para mais tarde. Há muito o que se admirar no Guzzo. A lucidez, a clareza, o raciocínio rápido, a memória invejável, a coragem. Mas o que eu mais admirava era a sua simplicidade.
Ter alcançado o maior e dos mais influentes postos do jornalismo brasileiro aos 32 anos de idade — que era o de diretor de redação da revista Veja quando esta tinha importância e credibilidade — poderia tê-lo transformado numa pessoa presunçosa e arrogante, como geralmente acontece quando o sucesso profissional chega antes da maturidade. Mas o Guzzo era inteligente e seguro demais para cair nessa armadilha. Manteve-se sempre fiel à sua natureza simples e discreta, apesar de ter passado anos frequentando ambientes poderosos e endinheirados. Ele não se impressionava nem ligava a mínima para títulos e aparências. Foi difícil convencê-lo a trocar o antigo iPhone por um modelo mais atual, quando este já nem aceitava mais atualizações. Quanto a seu velho Corola 2010 não houve jeito, ele não viu razão para novas aventuras. “Esse carro nunca quebrou, para quê vou trocar?”
Eu considero um grande privilégio ter podido conviver com ele tanto tempo. Trabalhamos juntos por quase vinte anos, e depois continuamos ainda mais amigos. O Guzzo esteve ao meu lado em quase todos os meus momentos felizes e difíceis. Ele foi também amigo das minhas filhas, e aí estava outro aspecto surpreendente da sua personalidade: ele se interessava pelos jovens genuinamente, e tinha paciência com eles, independente do seu grau de maturidade. Ele esteve próximo e construiu uma relação de amizade totalmente inesperada com cada uma das minhas filhas, que nunca chamaram de amigo alguém de outra geração. Gostar dele era fácil. Carinhoso, doce e divertido, tinha infinitas histórias para contar e estava sempre disposto a sentar e conversar, sobre qualquer assunto. Deixava a Sherazade no chinelo.
Guzzo sem dúvida vai fazer muita falta ao Brasil. Faria em qualquer época por sua cabeça brilhante, seu equilíbrio impecável e seu poder de enxergar o cerne das questões e traduzi-lo em poucas e simples palavras. No momento atual, então, nem se fale! Calou-se uma das poucas vozes que diziam tudo aquilo que quase todos os dias temos vontade de gritar. Para mim, o único consolo é saber que ele teve a morte que desejava: rápida, sem dor e em casa, ao invés de num hospital. As lições do verdadeiro homem de bem que ele foi são infinitas. O vazio que ficou é enorme. A saudade nunca vai passar. Vai com Deus, meu querido! Você não acreditava Nele, mas Ele não se ofende com isso.

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Fiquei extremamente feliz em ler este artigo de MARIA AMÁLIA BERNARDI por expressar não só a admiração pelo grande jornalista, como expressar um grande amor por um outro ser humano, mostrando como este outro a amava e à sua família. Vi alguma coisa minha no Guzzo, o que me deixou extremamente feliz Gosto enormemente de ser professor e só isso fez minha vida ser interessante. Ele gostava de ser jornalista, por isso seu trabalho foi fantástico…Fiquei feliz pela M AMÁLIA BERNARDI… Um abraço.
O José Roberto Guzzo era fantástico. Eu era, e continuo sendo seu admirador incondicional. Fui assinante da revista Veja por mais de trinta anos, e minha primeira leitura era seu artigo. Quando ele e Roberto Pompeu de Toledo deixaram a revista cancelei minha assinatura. Não havia mais motivo para continuar. Nunca soube o motivo da sua saída. Cancelei a assinatura em protesto, que não foi silencioso, haja vista que comuniquei à redação da Revista a razão do adeus. Um grande homem e um excepcional jornalista. Onde quer que esteja, que esteja em paz.
Alberto de Sousa Bezerril
Que texto lindo!
Maria Amália, prazer em ler seu texto, sim você conheceu Guzzo de perto, de verdade.Obrigada por esse relato tão verdadeiro de meu irmão. Sim as lembranças de Guzzo nunca serão esquecidas,me deu sábios conselhos em momentos difíceis e delicados de minha vida.Admirava demais sua capacidade de observar fatos e pessoas,sua simplicidade .Um grande ser humano, nunca esqueceremos.Bjo.