Lembro de ler os artigos de J. R. Guzzo quando ainda morava em Brusque (SC). Recebia a Veja às segundas-feiras. A revista chegava embalada num plástico transparente. No inverno, depois do almoço, ia para a varanda da casa aproveitar o solzinho débil e devorar as reportagens. Muitas vezes, começava pelo fim. E eis que era agraciada com os textos precisos e afiados de J. R. Guzzo. No canto da página, uma foto minúscula ilustrava a face do gênio, autor de artigos que conseguiam traduzir com clareza e astúcia as mazelas do Brasil. Aos 15 anos, ficava imaginando como seria se um dia pudesse ficar frente a frente com o grande jornalista.
Corta para o ano de 2020. A Revista Oeste inicia suas atividades em março, mês marcado pela decretação da pandemia de covid-19. Assumi a missão de coordenar o site de Oeste, como editora. Nos primeiros dias, a redação ficou esvaziada. O trabalho remoto se impôs diante do inimigo invisível e desconhecido. Mas logo nas semanas seguintes, as reuniões de pauta, realizadas às segundas-feiras, foram retomadas. É o dia em que editores, diretores e o conselho editorial se reúnem para discutir os assuntos mais importantes da semana e definir as pautas para a revista. Foi na tarde de uma segunda-feira de abril de 2020, numa São Paulo silenciada pelas medidas de lockdown, que se deu o meu primeiro encontro com o Número 1.
Foi praticamente um tête-à-tête. Nos primórdios de Oeste, e naquelas circunstâncias atípicas, só participavam da reunião semanal o publisher Jairo Leal, o então diretor de redação, Kaíke Nanne, e J. R. Guzzo. Ao chegar na sala, Guzzo já estava sentado. Na hora, preservei a devida distância sanitária. Mas ele logo quebrou o protocolo e me cumprimentou, sem o equipamento para proteger nariz e boca — a máscara repousava enrolada no punho da mão direita. Rapidamente, entendi que estava diante de um homem destemido. Guzzo enxergou a situação para além da crise de saúde global. Ele foi direto ao ponto: os políticos iriam aproveitar a desgraça mundial para roubar e confiscar as liberdades dos cidadãos. Dito e feito. Foi o que denunciamos por quase dois anos em diversos artigos e reportagens de Oeste.
Esse é só um exemplo da visão de longo alcance de J. R. Guzzo. Ele sabia enxergar o fato e separar, como poucos, o que era ruído e o que era essencial. Às vezes, emudecia durante as reuniões de pauta. Usava uma Bic e começava a desenhar. Tracejava principalmente rostos, de vários estilos: barbados, carecas, cabeludos. E quando a discussão emperrava num ponto, ele saía do modo silencioso-artístico e dava o veredicto preciso. Era a bússola necessária para orientar o caminho.
Cético, realista, objetivo. Não tinha paciência para a preguiça, nem para a burrice. Tinha profundo respeito pelo leitor. Ele sempre dizia que o ato de escrever era simples, mas nem por isso fácil. Não gostava de palavras rebuscadas, nem termos complicados. Guzzo se orgulhava ao contar que, frequentemente, era abordado por gente simples, que lia e compreendia seus artigos. Era um baita elogio para ele. E uma lição de jornalismo para todos nós.
Ao longo de cinco anos de convívio, descobri que partilhávamos de um mesmo prazer — a boa comida. Nos jantares, ele se divertia com meu apetite voraz. Na minha última viagem à França, tive o privilégio de receber, por WhatsApp, a lista com os restaurantes favoritos do Guzzo em Paris, cidade onde ele morou por alguns anos. E que lista! Além do nome do restaurante, havia a indicação do prato a pedir. Tudo devidamente ilustrado com emojis das iguarias francesas. Sim, Guzzo era adepto das figurinhas do aplicativo. Enquanto percorria o circuito gastronômico parisiense sugerido pelo jornalista glutão, compartilhei alguns registros. Ele vibrava com palminhas e mãos estendidas ao receber as fotos do beef bourguignon (“carne ensopada”), dos suflês e do filet au poivre (“filé com molho de pimenta”).



Guardo essa lista com carinho. E os desenhos. E os ensinamentos. Minha carreira na comunicação se funde à existência da Revista Oeste. Ao completar 30 anos, fiz uma transição de carreira e concretizei um velho sonho de adolescência adormecido: o jornalismo. Jamais poderia imaginar que teria tanta sorte. Trabalhei e só aprendi, muito, ao lado do melhor profissional do jornalismo do Brasil. Guzzo era pura inspiração. Aos 77 anos, ajudou a fundar a Oeste. Trabalhou até o último instante, com coragem e independência, para denunciar os abusos do poder e a cegueira ideológica de boa parte da imprensa.
A cena fantasiosa que nutria na varanda de casa, ainda muito jovem, se materializou. A jornada ficou infinitamente mais desafiadora com a oportunidade de aprender e conviver com o Número 1 do jornalismo brasileiro. Vai ser difícil sem ele por perto. Mas Guzzo mostrou caminhos. Como ele mesmo disse: “Enquanto tiver Oeste, nós não vamos mudar. Vamos continuar fazendo o que sabemos fazer, e fazer direito”. Honraremos seu legado.

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Competente Paula Leal, todo sucesso a você.
Parabéns pelo belo texto e testemunho, Guzzo deixou um legado maravilhoso.
Maravilhoso o texto da Paula Leal. O Mestre Guzzo, possuía também o dom de se cercar de excelentes profissionais, desde que estes fossem excelentes pessoas. A Oeste é o resultado dessa seleção.
Paula Leal, grande lembrança, Guzzo nunca respeitou o lockdown e acredito que talvez seja o único da família que não pegou covid. Eu também trabalhei na pandemia e atendi presencialmente. Ele me confessou em um Natal, sempre esperei isso de você. Bjo grande, fui censurada pela minha filha e irmã pela brincadeira do cordão de ouro que ganhou de presente de uma fã.