Não que não o fizera antes. Já tinha enviado mensagens ao Guzzo ou falado com ele pessoalmente sobre algum de seus artigos por diversas vezes. Era preciso me conter a cada semana, ou mesmo algumas vezes por semana, visto que ele escrevia para outras publicações, a cada artigo publicado na Revista Oeste, para não enviar mensagens frequentes. O texto era brilhante, as sacadas e analogias, geniais. Agudo, certeiro, corajoso, J. R. Guzzo escrevia e as pessoas compartilhavam de forma espontânea no gesto, na iniciativa. Mas por dentro era muito mais: faziam-no porque queriam que aquela mensagem atingisse mais gente, movidos por esse sentimento brasileiro crítico, aflorado recentemente, de enorme demanda reprimida por dar ainda mais certo como país e sociedade. Sentimento que não vai parar até ser suprido. Enfim, foi assim durante todo esse tempo. Um amigo, um conhecido, alguém que você segue na rede social, mesmo que você tivesse perdido algum artigo dele, ou que estivesse ocupado lendo outro artigo que ele também já havia assinado, sempre tinha alguém lhe mandando um “veja o que o Guzzo escreveu”.
Eu mesmo já o fizera muitas vezes, como confessei logo na primeira linha deste artigo. Ele, muito generoso, agradecia e continuava o debate. Por isso, quero trazer aqui uma troca de mensagens que tive com ele no início do mês de julho deste ano. Apesar de tentar me conter para que isso não fosse tão frequente a ponto de incomodá-lo, visto que ele, como insisto em lhes dizer, continuava a conversa com outros pontos, não resisti em fazê-lo de novo em referência ao seu artigo “A gente somos inútil”, da edição 275 de Oeste, publicada em 27 de junho de 2025, bem recente, de outro dia.

Em uma análise do ataque preciso dos EUA às instalações militares e nucleares do Irã, com os indetectáveis bombardeiros B-2 — o estado da arte da engenharia aeronáutica militar que traduz a imensa superioridade militar norte-americana em relação a qualquer outro país no mundo —, Guzzo passou pela destruição da diplomacia brasileira diante do anacronismo ideológico e tolo de Lula até a falta de prioridades e estratégia, que culminou com o desmonte das capacidades das Forças Armadas Brasileiras, para entrar no âmago do que define um país minimamente civilizado: a defesa da democracia. Reproduzo o trecho:
“Se é inútil como força de defesa, a tropa brasileira consegue ser inútil ainda para cumprir a única função legal que lhe restaria: zelar pelo respeito à Constituição, segundo regras expressamente previstas em lei, caso as instituições falhem nessa tarefa. É tudo o que as Forças Armadas não fazem no Brasil de hoje. O consórcio STF-Lula transforma o Brasil, a cada dia mais, num Estado policial totalitário, anárquico e fatalmente corrupto. Faz uma política interna de ruína. Faz uma política externa vizinha à traição. Anula diariamente as leis e a Constituição Federal. Os militares baixam cada vez mais a cabeça.”
Longe de uma crítica severa e sem propósito aos milhares de militares brasileiros que escolheram a caserna como carreira e dedicação ao público, era uma defesa deles, de um suporte do Estado e da sociedade, não sem antes chamá-los à responsabilidade institucional — defender o país “segundo regras expressamente previstas em lei”. Foi uma crítica dura, com defesa expressa da legalidade na veia.
Guzzo era diretor de redação quando da época do regime militar. Conviveu com a censura na mesa ao lado, lidou com a opressão do jornalismo e, vejam só, muitos anos depois não quis expurgar os militares da vida brasileira. Ao contrário, em um de seus últimos artigos chamou os militares à vida brasileira como parte indelével da sociedade, desde que não cedam à tentação do “carreirismo de Brasília” e cumpram o seu dever de honra de proteger a Constituição de 1988, justamente a que fora o ápice do fim dos militares no poder. Li e reli a coluna. Na segunda-feira seguinte ao lançamento da edição no fim de semana, escrevi a ele pelo “Zap” e revelo aqui nossa conversa privada:
“Guzzo, querido, que primor o seu artigo e a radiografia que faz da realidade do país. Um primor dolorido porque os fatos não pedem licença nem vêm com anestesia. Nem poderiam. São fatos e requerem reação. Corpos inertes, porque anestesiados, não reagem. Tampouco deve o autor intelectual do artigo, intelectual de fato que é, deixar de fazê-lo como pretendeu, independentemente da expressão crua da realidade que expõe. Afinal, ele tem compromisso com o que vê e pensa sob a honestidade intelectual que o guia. E isso é o que importa. Guzzo, seu texto já seria brilhante pela sua composição em si. Mas, por ser naturalmente a antítese do que faz a nata dos pretensiosos artistas e intelectuais da extrema-esquerda, que atrasam este país há décadas porque se acham o Olimpo do pensamento, é sublime por si só. Obrigado.”
Lembra que lhes contei da imensa generosidade de Guzzo? E que ele continuava o debate? Então, a resposta dele é tudo isso junto e bem pontuado.

“Caríssimo, muito obrigado!
Essa eu vou guardar para ler e reler naqueles momentos em que a gente precisa de uma dose de incentivo. Muito feliz e orgulhoso com toda a sua generosíssima apreciação.
Acho que estava mais do que na hora de deixar claro o que pensamos desses artistas sem obra, intelectuais sem inteligência e que têm a ‘ruanê’ em vez de público.
O Brasil trocou a ‘inteligentsia’ pela ‘burritsia’.
Obrigado de novo e abração!!!”
No sábado passado, em que acordei com a notícia de seu falecimento, vieram-me à memória essa generosidade e a perspicácia de seus artigos. Guzzo foi um gigante. Ou, como gosto de chamar os grandes que me antecederam no jornalismo, um “jornalistão”. A saudade será sempre grande e nos fará muita falta. No entanto, generoso como sempre foi, deixa-nos caminhos a seguir.
Dias antes, no último encontro, estivemos com ele em sua casa para a reunião de pauta da Revista Oeste. A locomoção limitada pelo tratamento médico das últimas semanas o impedira de vir até o 17º andar do Conjunto Nacional, à sala do Jairo Leal, publisher de Oeste e sócio de Guzzo e Augusto Nunes na criação da revista. Lá, ele nos anteciparia o que viria a ser a última e genial sacada dele: a coluna “Monumento à cegueira”. Inspirado por todo o debate internacional sobre a inteligência artificial, Guzzo inventou a “CA – Cegueira Artificial” para explicar o fenômeno atual no Brasil de indecências jurídicas e governamentais que parte da imprensa escolhe não enxergar. O artigo que servirá como crítica por muito tempo cola, sem dó, a covardia em quem se nega a aceitar o que seus olhos lhe mostram, mesmo que os fatos que comprometem a vida decente neste país sejam cristalinos, expostos que estão à luz do dia. Mas igualmente homenageia os que não se afastam da honestidade intelectual, mesmo sob ameaça “de vara” dos Supremos absurdos e abusos dos atuais donos do poder no país.
Guzzo, querido, uma honra para mim. Eu, seu leitor em Veja, ainda quando era um jovem jornalista, estou hoje em Oeste podendo dividir com muito mais gente histórias e conversas que tivemos. Vá em paz! E você sabe: vamos continuar por aqui!
Leia todos os artigos de J. R. Guzzo na Oeste



Grande Piotto!
Obrigada, obrigada e obrigada Piotto. Uma honra suas palavras. Bjo.
Obrigada pelo texto e por compartilhar a conversa privada q tiveram com o publico