Os franceses sabem restaurar, mas não construir. Com isso, quero dizer que eles têm a habilidade e o gosto para restaurar seus edifícios de uma era anterior, mas perderam, desde 1945, nos anos de sua maior prosperidade, a capacidade de construir algo novo que não seja medonho.
A chegada à cidade vindo do Charles de Gaulle, maior aeroporto parisiense, é a visão do inferno. Uma pessoa que me visitava em Paris e que nunca tinha ido até lá antes disse que imaginava que a cidade fosse a mais bonita do mundo, mas a aproximação do centro quase a traumatizou.

No entanto, não é da incapacidade dos arquitetos franceses modernos que desejo falar, embora a absoluta feiura do que eles criaram não seja totalmente irrelevante para o meu tema, como logo se verá.
O fato é que uma quantidade enorme de paredes e outras superfícies ao longo da estrada que leva a Paris está coberta de grafites ou pichações. Este é um fenômeno social — talvez antissocial — tanto de relativo interesse quanto de importância.
Há, obviamente, uma certa etiqueta para essa pichação, já que quando a área de uma parede é reivindicada por um pichador, ela se torna sua propriedade, por assim dizer, com seu direito exclusivo de nela deixar sua marca. É a versão dos pichadores do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo entre Espanha e Portugal em esferas mutuamente exclusivas.

Mas o que está por trás dessa epidemia de pichação? Infelizmente, nunca consegui conversar com um pichador: não vejo nenhum deles “trabalhando” e não conheço nenhum socialmente. Portanto, resta-me apenas conjecturar sobre seu estado de espírito — embora, mesmo que eu conseguisse falar com eles, não é certo que me diriam sua motivação, ou mesmo que a conhecessem por completo.
Numa sociedade em que tantos anseiam em ser “alguém”, ou seja, alguém que as pessoas conhecem ou que as afeta, e na qual o mero fato de se misturar à multidão representa uma humilhação, pichar é um meio pelo qual uma pessoa, de outra forma sem importância nela, pode impor algo de si a essa sociedade.
A autoexpressão é considerada importantíssima, mesmo que não se tenha nada a expressar além da própria existência, do puro e simples fato de existir. O “eu” deve se expressar, mesmo que não tenha nada a expressar. Embora a pichação me irrite, também sinto que há algo de muito triste nisso, um esforço fútil para se elevar acima da insignificância e do anonimato em uma sociedade de massa na qual se destacar é tanto necessário quanto impossível. As chamadas mídias sociais apenas pioraram uma situação que já existia antes delas.
Mas não para por aí. Percebi que, no geral (nenhuma generalização referente ao comportamento humano é absoluta), os pichadores desfiguram principalmente superfícies muito feias, em vez das bonitas. Tomo isso como evidência de uma faculdade subliminar ou subconsciente de discriminação estética por parte dos pichadores, embora admita que outras explicações sejam possíveis.
Por exemplo, é muitíssimo provável que os pichadores, em sua maioria, pertençam à classe obrigada pelas circunstâncias a viver nos ambientes mais feios, e que a pichação esteja em boa parte restrita aos locais onde residem. Ladrões roubam principalmente de quem os cerca. Com exceção dos verdadeiros profissionais, eles raramente viajam muito para “trabalhar”, como se referiam à sua atividade alguns dos ladrões na prisão em que trabalhei. Da mesma forma, os pichadores desfiguram as superfícies mais próximas a eles.
Mas isso não pode ser de fato a única justificativa para sua discriminação entre superfícies bonitas e feias a serem desfiguradas, pois eles, com frequência, desfiguram superfícies de acesso extremamente difícil ou até perigoso. De certa forma, eles são admiráveis em sua ousadia, a qual desejaríamos que pudesse ser demonstrada de um jeito mais digno. Eles escalam alturas perigosas; marcam o topo de edifícios altos, os vãos de pontes de concreto. Eles rabiscam as paredes de túneis de rodovias onde há tráfego 24 horas por dia. Não se pode deixar de perguntar não apenas por que, mas como eles fazem isso.
Mesmo no centro de Paris há muitos pichadores. Vez ou outra, eles deixam sua marca em um belo edifício, mas focam principalmente os modernos, horrendos (pensei em instituir um prêmio para quem encontrar um edifício construído depois de 1945 que seja um adorno inequívoco para a cidade). Seu outro alvo são as igualmente tenebrosas persianas de alumínio com as quais pequenos lojistas protegem suas janelas à noite. Praticamente todas — e quero dizer todas mesmo — são marcadas por um pichador. As persianas de alumínio já são bastante feias sem essa feiura extra, mas é notável que superfícies adjacentes não são tão pichadas, mesmo podendo ser.
Assim, sou levado de volta à minha ideia de que a pichação é algum tipo de comentário sobre a feiura, ou até mesmo um protesto contra ela, se não do mundo propriamente dito, pelo menos do mundo dos pichadores. E, se isso é verdade, remete a um ponto importante do que poderia se chamar de antropologia filosófica.
Embora seja bastante provável que os pichadores neguem qualquer esforço de comentário estético, pois é também bastante provável que eles emerjam de uma cultura machista que consideraria qualquer comentário estético consciente como efeminado, afetado e feminino (assumo que a vasta maioria dos pichadores são homens, embora não o saiba como um fato sobre o qual eu poderia testemunhar em tribunal), sua distinção entre as superfícies, que adornam ou desfiguram, no exercício de sua atividade sugere que, de fato, eles sabem que o que fazem não é bonito ou embelezador, exceto, talvez, de uma feiura maior ainda. De certo modo, eles compreendem a necessidade de beleza na vida humana.
Pelo menos, então, eles são superiores aos arquitetos que lançaram tanta feiura sobre o mundo — o que não é, a propósito, uma mera questão de falta de financiamento, pois na França alguns dos edifícios mais caros estão entre os piores.
Até mesmo os arquitetos têm alguma consciência do que fizeram e do que fazem. Quando você lê o que eles, ou os críticos de arquitetura, escrevem sobre seu próprio trabalho, percebe que sua verborragia incompreensível é o equivalente verbal da pichação, usada para disfarçar a feiura do mundo pela qual eles e sua laia são responsáveis. Eles são muito, muito piores que os pichadores.
Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.
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Parabéns pelo texto. Gostei do toque de sagacidade quanto à versão aos pichadores do Tratado de Tordesilhas.
Também acho a maior presepada essas pichações.