publicidade
Foto: Shutterstock
Edição 280

Uma notícia boa e uma ruim

Ainda era difícil acreditar no que tinha acontecido. Até poucos meses ele era um homem comum, que andava pelas ruas sem qualquer preocupação

No primeiro dia de trabalho ele apontou a cadeira — um móvel pesado, construído com madeira escura exaustivamente trabalhada. Um espaldar de couro escuro lhe dava aspecto de trono. A cadeira ficava atrás de uma mesa enorme no mesmo estilo. Ele disse ao pequeno grupo de seus subordinados ali reunido:

“Jamais me sentarei ali. Se sentar, nunca mais vou querer levantar.”

E ao final de tudo ele nunca se sentaria naquela cadeira.

Ainda era difícil acreditar no que tinha acontecido. Até poucos meses ele era um homem comum, que andava pelas ruas sem qualquer preocupação. Ou, seria melhor dizer, com as preocupações que todas as pessoas têm. Principalmente dinheiro: a renda não era suficiente para cobrir as despesas, e todo final de mês ele precisava tirar dinheiro da poupança, dinheiro que havia sido guardado em tempos melhores. Um dia aquele dinheiro acabaria, era evidente. Suas outras preocupações eram aquelas de todo brasileiro: medo do crime, do governo e do futuro.

Até que recebeu o telefonema no meio de uma tarde de sábado em que fazia calor e ameaçava chover.

“Tenho duas notícias para você, uma boa e uma ruim”, disse a voz de uma das figuras mais importantes do recém-eleito governo estadual. Ele caminhou até a janela segurando o celular no ouvido e ficou olhando a rua. Nuvens passavam devagar no céu refletido nas janelas do prédio em frente.

“A notícia boa é que você vai ser secretário”, continuou a voz. “A notícia ruim é que você vai ser secretário de Segurança.”

Foto: Shutterstock

Como assim? ele pensou. A Secretaria de Segurança seria extinta. Isso tinha sido decidido havia muito tempo pelo governador. Era uma das promessas mais importantes da campanha e foi com base nela que a equipe conduzira o processo de transição de governo. Não fora uma tarefa simples; a segurança do Estado havia sido assumida pelo governo federal por meio de uma intervenção. O interventor era um general, que nomeara outro general para o cargo de secretário de Segurança. A Secretaria de Segurança agora seria extinta. Esse era o plano.

Sua participação na equipe de transição resultara de uma sequência de eventos aleatórios. No final de 2017, depois de anos de hesitação, finalmente decidira se candidatar a um cargo eletivo. Não sabia que partido escolher. Um amigo próximo, grande conhecedor de política, lhe recomendara um partido que o receberia bem e no qual teria chances de se eleger. No dia em que foi à sede do partido encontrou, por acaso, o candidato que iria disputar o cargo de governador. Depois de preencher sua ficha de filiação, ele precisava da assinatura de um membro do partido. O candidato a governador assinou sua ficha.

Vieram as eleições, e ele não conseguiu votos suficientes para se eleger deputado federal. Mas, como parte de um fenômeno que tomou conta do Brasil naquele ano — e que, provavelmente, jamais se repetirá —, o candidato a governador do seu partido, desafiando todas as probabilidades, foi eleito. Agora era preciso montar uma equipe de transição. Ele estava disponível e, como tinha interesse no assunto, recebeu a missão: iria coordenar a transição da segurança pública do Estado. Trabalhou duro fazendo o meio de campo entre militares e policiais, chegando ao final com a sensação de um trabalho bem-feito. O planejamento que ajudara a fazer determinava que a Secretaria de Segurança seria extinta no primeiro dia de governo. Esse era o combinado. Mas não era isso que aconteceria agora.

A razão da mudança de planos ele jamais viria a saber. O fato é que recebeu o telefonema no sábado à tarde comunicando a decisão. Na segunda-feira o jornal de maior circulação do Rio colocou sua foto no topo da primeira página. De manhã, quando saiu para comprar pão, ao passar pelo posto da esquina, viu pelo canto do olho dois frentistas apontando em sua direção e conseguiu ouvir um pedaço do que eles diziam: “Aquele é o novo secretário de Segurança”.

Foto: Shutterstock

O poder é uma merda. Isso ele já sabia. Já tivera experiência suficiente para conhecer os efeitos que mesmo migalhas de poder têm sobre as pessoas. Anos atrás, com amigos, resolvera criar um partido. Era coisa de amador, de gente que acha que pode “fazer a diferença”; uma mistura de profissionais liberais, estudantes e pessoas com muitas ideias e disposição para fazer algo útil pelo país. Um bando de ingênuos, inocentes do Leblon. Por algum tempo o projeto foi só alegria. Mas, assim que a história ganhou visibilidade e surgiu a mínima perspectiva de que o projeto fosse viável, ele percebeu que sua presença atrapalhava o protagonismo de outros. Passou a ser sabotado e atacado. Acabou abandonando o projeto e a política. Mas agora estava ali, sendo chamado por todo mundo de senhor secretário. Foi nomeado, sem que quisesse ou tivesse pedido, para chefiar os mais de 500 servidores da secretaria. O secretário — ele — tinha duas salas enormes em dois prédios diferentes, uma frota de 80 carros e certo número de cargos de responsabilidade para serem preenchidos. Convocou um pequeno grupo de sua confiança: amigos antigos, militares da reserva e pessoas que conhecia há anos, com as quais já havia trabalhado, e formou sua equipe.

Ele observava com curiosidade e um pouco de espanto a pompa e a circunstância que cercavam sua nova situação. A equipe da secretaria tinha até uma chefe de cerimonial — uma moça gentil, solícita e educada, cuja função era chegar antecipadamente às cerimônias para as quais ele era convidado e determinar em que posição ele se sentaria, em que momento ele falaria, quem ele deveria saudar e coisas assim. Ora vejam só.

“Secretário, posso fazer uma visita à sua casa?”, perguntou o coronel Dantas, chefe da segurança.

Era preciso fazer um levantamento. Mas como assim levantamento?

 “O senhor deve saber que a partir de agora sua vida vai ser diferente”, disse o coronel. Não, ele não tinha pensado nisso.

Foram vistoriar o prédio onde ele morava. Entraram pelo portão da garagem e caminharam até a portaria.

“O senhor não poderá mais frequentar a praia”, o coronel disse. “Ali é impossível garantir sua segurança”.

“Está brincando, né coronel?”, ele respondeu. “É mais fácil eu renunciar ao cargo do que deixar de ir à praia”. O coronel sorriu. O coronel Dantas era um homem bom com quem a vida, ao final, não seria justa. Quantas vezes deixamos de reconhecer, e recompensar, homens bons.

Ele, o secretário, passou a circular em um carro da secretaria com um motorista e dois seguranças, todos armados. Curiosamente, o carro — um modelo comum, nada parecido com esses carros de autoridades — não era blindado. O contrato de locação de carros blindados tinha expirado e ainda não tinha sido renovado.

Se lhe perguntassem que aspecto do poder mais o incomodava a resposta estava pronta: a adulação incessante. Ele descobriu um ecossistema composto de pessoas que só conhecem uma forma de sobreviver: orbitando ao redor dos poderosos. Esses satélites puxa-saco são uma tragédia e um perigo; sua adulação é o canto da sereia que impede homens públicos de enxergar seus erros. Ninguém sobrevive a um dilúvio de elogios. Ele estava determinado a escapar daquilo. Conhecia a si próprio, conhecia sua essência e olhava com condescendência e desprezo para os companheiros de política — pessoas que conhecera quando ainda não eram ninguém e que agora derretiam debaixo do sol da vaidade.

Mas se lhe perguntassem qual era o lado bom do poder ele talvez não soubesse responder. Até que um dia ele soube. Estava em casa, depois do jantar, se distraindo com uma leitura, quando o telefone tocou.

“Meu amigo, preciso de ajuda”. Era Fernando, companheiro de política, mais velho e mais experiente, que tinha sido seu conselheiro em tempos difíceis.

“O que aconteceu?”

“Meu filho desapareceu. Desde ontem de manhã não temos notícias dele. Estou com um sentimento ruim. Ele tem problemas psiquiátricos, toma medicação controlada. Estava morando sozinho em um apartamento em Botafogo. Agora sumiu, ninguém tem notícia dele, não disse nada à namorada”.

“Onde você está?”

“Percorrendo hospitais. Será que você podia checar se a polícia sabe de alguma coisa?”

“Agora. Já te retorno.”

Ele deu telefonemas, ninguém sabia de nada. Falou com Fernando mais uma vez e foi dormir.

O dia seguinte amanheceu esplendoroso. O Rio de Janeiro colocou sunga e biquíni e foi à praia. Ele vestiu terno cinza e gravata preta e seguiu para o trabalho com os seguranças. Na frente do prédio da Secretaria camelôs haviam colocado barracas obstruindo a entrada da garagem. Um dos seguranças precisou descer e negociar a passagem do carro. Esse é o resumo do Rio, ele pensou, observando a cena e sacudindo a cabeça.

Rio de Janeiro | Foto: Shutterstock

A primeira atividade do dia era uma reunião para rever a lista de equipamentos recém-comprados que deveriam ser recebidos no futuro próximo. A burocracia exigia um longo e detalhado processo de conferência do material. Ele já havia sido alertado de que fraudes costumavam acontecer nesse momento. Qualquer problema seria colocado na sua conta. No meio da reunião foram interrompidos pelo celular que tocava. Era Fernando.

Ele atendeu.

 “Amigo, estou na frente do Instituto Médico Legal”, disse Fernando. “Encontrei meu filho. Ele se matou. Preciso liberar o corpo dele. Mas não consigo. É complicado, me pediram uma lista de documentos, não sei o que fazer”. Houve uma pausa e a voz de Fernando voltou: “Preciso liberar o corpo dele”.

“Fique onde você está”, ele respondeu. “Me dá um instante que eu já ligo de volta.”

O assessor especial, seu braço direito, estava ao lado e ouvira tudo. O assessor saiu da sala e em poucos minutos voltava com o coronel Dantas.

“O coronel vai lá”, disse o assessor. “Ele vai cuidar de tudo. Já avisei ao Fernando.”

O enterro foi no dia seguinte, no cemitério do Caju, sob um sol cruel. O verão seguia firme, indiferente ao fato de que um pai tinha perdido um filho. Ele deu em Fernando um abraço doloroso e ficou sabendo que o rapaz se jogara da varanda de um hotel.

A cerimônia acabou e ele entrou no carro. “Vamos para a Secretaria?”, perguntou o motorista,

“Sim”, ele respondeu. “Hoje a agenda está cheia.”

Mas quando chegaram na garagem ele desceu do carro e saiu andando pelas ruas do centro. Sozinho, sem seguranças, sem cerimonial e sem o título de Secretário. Parou em uma esquina e ficou olhando a multidão. Era um tempo em que o centro da cidade ainda vivia cheio de gente, um tempo antes da devastação trazida pela pandemia.

Ele pensou no que teria acontecido a Fernando se ele não fosse Secretário de Segurança. Depois da perda do filho Fernando ainda passaria muitos dias desesperado, tentando liberar o corpo. O coronel resolvera o problema em minutos.

Então é para isso que serve o poder, ele pensou, parado na esquina.

Dez dias depois o governador voltou atrás em sua decisão e a Secretaria de Segurança foi extinta.

O coronel Dantas morreu um ano depois, no início da pandemia, vitimado por um AVC e um ataque cardíaco simultâneos, enquanto caminhava em uma praia da região oceânica de Niterói.

Coronel Dantas morreu um ano depois | Foto: Shutterstock

Leia também “A desativação da democracia”

2 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Muito bom seus artigos, Motta.

  2. Manfredo Rosa
    Manfredo Rosa

    Ah! O poder e sua capacidade ciclópica, de inflar o ego pelo servilismo, de entumescer a vaidade pelos elogios, de enaltecer o orgulho pela subserviência, de corromper o espírito pelo puxa-saquismo.

Anterior:
Uma nau desgovernada
Próximo:
A expressão da feiura
publicidade