publicidade
Neymar Jr., jogador de futebol e multiempreendedor | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Divulgação
Edição 279

O império de Neymar

Ídolo do Santos representa geração de craques que lucram mais com seus empreendimentos do que dentro de campo

Os penteados do craque Neymar mudam sempre: moicano, dreads, loiro platinado. Muitos o criticam por considerarem vaidade. Mas é estratégia. Neymar usa seus cacheados e se veste com estilo arrojado para representar uma tendência. Ele transforma o visual como parte de uma construção de marca.

Cada look reforça sua imagem fora das quatro linhas, o conecta com o público jovem e garante sua presença nas redes sociais, no entretenimento e na moda. Neymar, assim, dita algumas tendências.

Ele representa um novo perfil de jogador de futebol: o do craque que ganha mais dinheiro como empreendedor do que apenas como atleta. No Santos, o jogador recebe cerca de R$ 6 milhões por mês, mas o salário, de R$ 1 milhão, não passa de 20% do total. Cerca de 80% vêm das receitas com direito de imagem.

Isso só foi possível graças à sua performance em campo. Mas, no cenário atual, redes sociais, tendências e engajamento valem tanto quanto gols.

“Neymar e outros grandes jogadores se tornaram marcas porque trabalharam muito”, afirma Jonas Eduardo Américo, o Edu, 75 anos, ex‑jogador do Santos nos anos 1960 e 1970. “Mas o futebol mudou demais, na nossa época isso não existia. Nunca tive patrocinador nem empresário. Eu mesmo, junto com meu pai, negociava meus contratos.”

Edu fez parte da seleção brasileira tricampeã do mundo em 1970. Antes, foi convocado para a Copa de 1966, aos 16 anos — o jogador mais jovem da história a participar de um mundial. Se Edu jogasse hoje, teria um contrato milionário. Ele surgiu cedo no futebol, estimulado pelo pai, Brasílio, e pelos irmãos Vicente e Américo, todos jogadores. Quem o apresentou ao Santos foi Pelé, por causa da amizade entre as famílias. “Quando comecei, queria só jogar bola. Nem pensava em ganhar dinheiro, em ser celebridade.”

Quase 30 anos depois, o pai de Neymar, também chamado Neymar, percebeu o novo contexto. O fim da Lei do Passe no Brasil, em 1998, foi um ponto de partida. O passe era um item contratual que dava ao clube o direito exclusivo de transferência do jogador. Em 1995, o mesmo ocorreu na Europa, o que abriu o mercado. Os jogadores ganharam o direito de se transferir ao fim do contrato. Eles mesmos se tornaram instituições. E os empresários se multiplicaram.

Logo que Neymar surgiu, o pai tornou-se gestor de sua carreira. Percebeu que o filho poderia ter uma trajetória de maior sucesso do que a dele, que havia sido um bom jogador no União Mogi. Aos 14 anos, o talento de Neymar se destacava na base do Santos. Em 2006, o pai e a mãe de Neymar, Nadine Gonçalves, fundaram a NR Sports, em Santos, para gerenciar a carreira do jovem.

O garoto só não fechou com o Real Madrid porque, no último instante, prevaleceu a opção de permanecer mais um tempo no Brasil para uma transferência futura, quando estivesse mais bem preparado.

Pai rico

O menino encantava dentro de campo. Já profissionalizado, conduziu o Santos aos títulos paulistas, da Copa do Brasil e da Libertadores entre 2010 e 2011. Desde seus primeiros passos no futebol, o foco da carreira ia além dos gramados.

“Eu acho que fiquei rico antes dele”, afirmou o pai ao podcast Round Cast. “Até 2013, o maior salário do Neymar foi de R$ 200 mil. O Neymar não tinha R$ 5 milhões na conta quando saiu do Santos. Eu já faturava, por ano, R$ 40 milhões como empresa.”

A fama internacional veio como consequência. Depois de se consagrar no Barcelona entre 2013 e 2017, a transferência de Neymar para o PSG, que atraía investimentos do Catar, foi a maior da história: 222 milhões de euros em 2017 (hoje, R$ 1,4 bilhão). O projeto contribuiu para o clube francês mudar de patamar.

As polêmicas das redes sociais só contribuem para o “negócio” Neymar ganhar cifras ainda mais altas. Por meio da NR Sports, ele ampliou o alcance dos seus investimentos. Além da gestão da imagem do atleta, a empresa atua em diversos setores. Participa de um empreendimento imobiliário que deve movimentar R$ 600 milhões nos próximos anos. Possui, ainda, um edifício em Balneário Camboriú avaliado em R$ 60 milhões.

O projeto da NR nesse ramo é ambicioso. Em parceria com a incorporadora Due, a empresa desenvolve no Nordeste a Rota do Caribe Neymar. O projeto está criando uma rota turística direcionada a imóveis de luxo, resorts e serviços em praias de Pernambuco e Alagoas. Serão 28 empreendimentos a serem entregues até 2037, com investimentos de cerca de R$ 7,5 bilhões.

A NR Sports também firmou parceria para a criação da marca de bebidas Pley By Ney, que se tornou patrocinadora do Santos. Já o Instituto Neymar Jr., com suporte da empresa, oferece atividades esportivas e educacionais para crianças e adolescentes em Praia Grande.

O patrimônio do jogador inclui mais de 150 imóveis no litoral brasileiro. Recentemente, ele acrescentou aos seus itens uma réplica do Batmóvel, chamado Tumbler, por US$ 1,5 milhão (R$ 8,3 milhões).

Mais de 20 marcas se tornaram suas patrocinadoras, entre elas Red Bull e Puma. Com elas, Neymar fatura pelo menos R$ 21 milhões mensais. Neste mês de julho ele se tornou embaixador no Brasil da empresa de eletrônicos Aiwa.

Mais de 20 marcas se tornaram suas patrocinadoras, entre elas Red Bull e Puma | Foto: Reprodução/Redes Sociais

17 marcas, 12 jogos

Tal modelo tornou-se comum entre craques. Cristiano Ronaldo mantém um portfólio diversificado com marcas próprias e investimentos. Seus principais empreendimentos são CR7 (roupas, perfumes, calçados e acessórios), Pestana CR7 (hotéis), Insparya (clínicas de transplante capilar), CR7 Fitness by Crunch (academias) e Medialivre (empresa de mídia).

Messi também investe: é sócio de uma rede de hotéis com o Majestic Hotel Group. Possui, ainda, a 525 Rosario, produtora de conteúdo para TV, cinema e eventos esportivos lançada com a Smuggler Entertainment. Além disso, o ídolo argentino fundou a startup Play Time Sports‑Tech, voltada para tecnologia esportiva e mídia, sediada em San Francisco (EUA).

No Instagram, Neymar é o terceiro jogador com mais seguidores. Com 231 milhões, está atrás de Messi (508 milhões) e Cristiano Ronaldo (661 milhões). Esses números são ativos comerciais valiosos.

Em cada post, Cristiano Ronaldo ganha entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões; Messi, algo entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões; Neymar, entre US$ 600 mil e US$ 1 milhão.

O retorno de Neymar ao Santos, com vistas à próxima Copa do Mundo, a sua quarta, também está sendo lucrativo. Nem a contusão grave no joelho, no jogo entre Uruguai e Brasil em outubro de 2023, causou forte impacto nos seus rendimentos.

Depois de rescindir contrato com o saudita Al‑Hilal, a volta de Neymar ao clube que o revelou foi mais um investimento na carreira. No início, ele teve dificuldade em retomar uma sequência de jogos. Seus negócios, porém, mantiveram o ritmo.

No primeiro semestre de 2025, Neymar solicitou 17 registros de marcas ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, segundo a Avance Propriedade Intelectual. Foram mais registros do que partidas. Neymar entrou em campo 12 vezes no período. Somente neste segundo semestre, depois de renovar até o fim do ano, conseguiu realizar uma sequência de jogos.

Parça do Santos

A presença do jogador praticamente salvou o orçamento do Santos, que vive dificuldades depois de voltar da Série B. Desde que ele retornou, em janeiro de 2025, o Santos dobrou as receitas de patrocínio. A NR Sports também investe na modernização do clube, bancando o novo centro de treinamento.

Mesmo com dificuldade para pagar os direitos de imagem ao jogador, o Santos tem se beneficiado com Neymar. Ele atraiu muito mais investidores. Tanto que o presidente santista, Marcelo Teixeira, nem se queixou quando Neymar acompanhou um jogo da Kings League, que mistura futebol society e entretenimento, criada por Gerard Piqué, seu ex‑companheiro no Barcelona.

Neymar investe na liga como presidente da equipe Furia e estava lá naquele dia porque não poderia entrar em campo contra o Corinthians. Havia sido expulso na partida anterior. Como empreendedor, Neymar precisa ser disciplinado. Quando não joga, não falta a compromissos. Na ocasião, desabafou sobre as críticas e falou sobre esse novo momento do futebol.

“Por isso que eu falo que o Brasil está atrasado nesse sentido”, declarou. “O entretenimento, o networking, um business man que ao mesmo tempo é jogador… faz parte. Dá para investir na Kings League e ainda te criticam por isso. Sendo que não tem nada a ver com teu trabalho ou esporte.”

O presidente Teixeira, ciente dessa nova era, faz de Neymar um “parça”. Ele sabe que o jogador se veste como um personagem pensado para cada ocasião: camisas largas, joias, tênis raros, marcas de luxo e compromissos que fazem parte do novo jogo. “Eu jogava por prazer”, ressalta o ex‑craque Edu. Isso, pelo menos, ele tem em comum com Neymar. Além de nunca terem faltado a um treino.

A presença do jogador praticamente salvou o orçamento do Santos, que vive dificuldades depois de voltar da Série B | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Leia também “A Copa de Trump”

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Impressionante. Até no ramo imobiliário no litoral do nordeste o homem tá entrando.

  2. Augusto de Resende Filho
    Augusto de Resende Filho

    Assim, um modelo necessita de passarelas, flash, nunca de um campo de futebol. Nunca podemos forçar a natureza, talvez agora ele tenha encontrado sua profissão.

Anterior:
Empresas brasileiras se preparam para o pior
Próximo:
As multidões minam o julgamento
publicidade