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Nunca gostei do entusiasmo das multidões — a ideia de dissolver minha individualidade em um coro anônimo sempre me pareceu estranha e inquietante | Ilustração: Shutterstock
Edição 279

As multidões minam o julgamento

A tentação de dissolvermos nossa individualidade e, portanto, nossa responsabilidade individual, que é um fardo pesado sobre nós, é sempre forte

Quando eu era jovem (o que já faz muito tempo), pensava que futebol era importante. Eu acompanhava com interesse um time, escolhido mais ou menos ao acaso. Ia aos seus jogos em casa e ouvia ansiosamente o rádio para saber os resultados dos jogos fora. Eu me alegrava com seus sucessos, que eram poucos, e ficava triste com seus fracassos, que eram muitos. 

Ainda assim, meu entusiasmo era circunscrito. Minhas emoções ligadas ao time e a seu desempenho eram superficiais e passageiras, e nem sequer muito intensas. Suponho que, mesmo naquela época, eu sentia que havia coisas mais importantes na vida do que futebol.

Naqueles dias, o futebol profissional na Inglaterra era muito diferente do que é hoje. Os jogadores de futebol eram heróis, não estrelas. Ganhavam pouco dinheiro, não mais do que um operário qualificado em uma fábrica. Eles tinham um salário máximo, não um mínimo. Lembro-me de quando essa regra foi abandonada e um jogador chamado Johnny Haines recebeu o então colossal salário de US$ 14 mil por ano — mal o equivalente ao pagamento de uma hora para um jogador de futebol hoje.

Não sabíamos nada sobre a vida fora de campo dos jogadores de futebol, e nunca cogitamos perguntar sobre isso. Tampouco lhes pedíamos opinião sobre o que fosse, como política — deviam ser inarticulados de qualquer maneira. Depois de uma partida, voltavam para casa de ônibus, não em uma Lamborghini vermelha ou amarela berrante. (Um famoso jogador português do Liverpool e seu irmão acabaram de morrer em um carro desses na Espanha.) Se fossem solteiros, o lar deles era um quarto alugado, onde a senhoria lhes dava café da manhã e jantar. Maços de cigarro vinham com pequenos cartões impressos colecionáveis de jogadores: era o mais próximo de celebridade a que eles chegavam. Ao se aposentarem do jogo, arranjavam empregos bastante comuns.

No passado, jogadores de futebol levavam uma vida discreta: pegavam ônibus, moravam em quartos alugados e raramente davam opiniões — fama e luxo vinham só nos cartões dos maços de cigarro | Foto: Reprodução

As condições em que jogavam na Inglaterra eram deploráveis. Os campos eram de grama de verdade e, quando chovia, o que acontecia com frequência, viravam lama. A bola era de couro e absorvia água. Portanto, chutá-la se tornava uma prova de força tanto quanto de habilidade. Aqueles que frequentemente cabeceavam a bola sofriam, mais tarde na vida, de demência traumática.

Os jogadores eram bem menos aptos fisicamente do que são hoje, e muitas vezes pareciam completamente exaustos no final da partida, principalmente em condições lamacentas. Substituições não eram permitidas. Quanto aos estádios, eram precários ou caindo aos pedaços, muitas vezes expostos ao tempo ou cobertos com telhados de zinco ondulado. A entrada era muito barata, e tumultos ou arruaças eram pouco frequentes. Aos 10 anos, eu podia ir a jogos de futebol com um amigo, sem a supervisão de nenhum adulto. Hoje isso seria considerado negligência infantil e os assistentes sociais seriam acionados.

Curiosamente, quanto mais glamoroso o futebol se tornava, menos interesse eu tinha por ele. Talvez porque tivesse mais coisas na vida para pensar, mas suspeito também que justamente o glamour tenha me afastado. Cheirava a pão e circo, quase uma distração deliberada e programada para fazer as pessoas se esquecerem dos problemas urgentes da vida. Essa tem sido uma tática de governo no mínimo desde os tempos romanos — mas, pensando bem, quem de nós não precisa de distração?

Cada vez eu gostava menos do entusiasmo das multidões, que me parecia excessivo. Mesmo quando bastante jovem, eu não apreciava tanto as vociferações em uníssono de milhares de pessoas, e descobri em mim uma estranha incapacidade de participar, de dissolver minha individualidade em uma identidade composta de um vasto número de pessoas que eu não conhecia. Se todos que comparecessem a jogos de futebol fossem como eu, eles seriam jogados em silêncio monástico.

Temo as multidões porque elas tão facilmente minam o julgamento. Recentemente, no festival de Glastonbury, na Inglaterra, 200 mil jovens, todos abastados — já que haviam pagado US$ 500 pelo ingresso — e provavelmente de nível educacional acima da média, foram induzidos a gritar “morte à FDI [Força de Defesa Israelense]” por um cantor com a aparência típica de um degenerado. Acho improvável que todos os 200 mil tivessem ponderado a situação mais profundamente, e nenhum deles pareceu considerar que 200 mil pessoas gritando “morte a…” fosse horrível por si só, independentemente de qual morte estava sendo exigida. Muito provavelmente, 99% dos 200 mil seriam contra a pena de morte, mesmo após o mais escrupuloso julgamento conforme a lei.

Em Glastonbury, 200 mil jovens gritaram “morte à FDI” sem refletir sobre a gravidade do ato — o que mostra como multidões abastadas e instruídas também podem abdicar do juízo moral | Foto: Reuters/Jaimi Joy/File Photo

Certa vez escrevi um artigo para uma revista literária francesa no qual chamei os shows de pop (na Europa e nos EUA) de “comícios fascistas de libertinagem”. Foi a única vez na minha carreira de escritor que fui verdadeiramente censurado. A jovem equipe da revista foi ao editor e disse que, se ele imprimisse aquela frase, todos se demitiriam. Ele cedeu a eles, e eu não o culpei por isso: a continuidade da revista era mais importante do que qualquer frase minha. Mas acho que a reação mostrou quão profundamente os jovens se importavam com… bem, com seus “comícios fascistas de libertinagem”.

Mais de uma vez, um jornal de reputação não muito elevada me enviou, nos dias em que eu ainda escrevia para ele, a shows de pop para relatar o que via lá, e para refletir sobre eles. Senti, então, que era necessário pesar minhas palavras um pouco.

Meu principal pensamento era o seguinte: se algum dia um gênio maligno fosse capaz de organizar politicamente essa multidão, talvez em tempos de dificuldade econômica ou descontentamento exacerbado, então poderíamos facilmente descambar à barbárie absoluta. Embora gostemos de pensar que o Reino Unido está imune às tentações (e deleites perversos) de tal barbárie, estamos nos enganando. A tentação de dissolvermos nossa individualidade e, portanto, nossa responsabilidade individual, que é um fardo pesado sobre nós, é sempre forte. Havia uma canção antiga com o título Cinquenta Milhões de Franceses Não Podem Estar Errados. Mas 50 milhões (ou 50 mil) de qualquer nação podem estar errados e, quando o estão, em uníssono, são perigosos.


Theodore Dalrymple é pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. É autor de mais de 30 livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações) estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

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