O presidente da Câmara proibiu os deputados de trabalhar em julho. Está certíssimo. Essa gente anda trabalhando demais. Todo ser humano precisa de descanso. Não pense que é fácil encarar o batente três dias por semana — sendo que, em um deles, às vezes é necessário acordar cedo!
Os críticos da medida humanitária do presidente da Câmara não têm a menor empatia. Vai que nesse ritmo frenético de trabalho algum parlamentar tem um piripaque? Como ficaria a reputação da presidência da Casa se um deputado passasse mal de tanto trabalhar em julho? Será que não entendem que essa é a época de dançar quadrilha? Especialmente nesses tempos em que quadrilha nenhuma dança mais?
O trabalho massacrante e a exploração do homem pelo homem no Congresso Nacional chegaram ao intolerável. Por isso, inclusive, foi tomada a decisão de aumentar o número de cadeiras na Câmara. A criação de 18 novos assentos para deputados visa a desestressar a categoria. Ninguém consegue descansar sem lugar para sentar. Com a vantagem de que os congressistas poderão mandar suas decisões para o Executivo e o Judiciário e esperar sentados pela sua aprovação.
Mas foi uma medida tímida — e talvez por isso esteja enfrentando um veto presidencial. Vamos pensar grande. Por que só 18 novas cadeiras? Por que não 28? Ou 38? E, já que vamos ampliar o número de cadeiras, seria de bom-tom ampliar também o número de mesas. E de sofás, poltronas, camas, lustres e abajures. Vamos iluminar esse Parlamento iluminista!
Para vocês terem uma ideia da consciência de classe dos nobres parlamentares, o aumento do número de deputados teve apoio na bancada do PL. PL quer dizer Partido Liberal — que no tempo da sua avó significava uma doutrina de Estado enxuto. Hoje, liberalismo provavelmente significa liberdade para torrar um pouco mais o dinheiro do contribuinte — sem perder a pose de defensor do capitalismo. Capitalizar gabinetes não deixa de ser uma ação capitalista (com o dinheiro dos outros).
Trabalhar em julho seria, portanto, um sacrifício temerário para os nobres parlamentares. A decisão histórica do presidente da Câmara, proibindo os deputados de trabalhar, é um marco na preservação da saúde dos representantes do povo. A recomendação médica para o mês de julho é se exercitar pulando fogueira e se vitaminar com quentão. E, como os deputados não trabalham em época de eleição (nem depois da eleição, quando estão muito cansados), o ideal seria uma proposição otimizando todo esse calendário complexo: os deputados passariam a trabalhar uma quarta-feira por ano.
Abril seria o mês mais indicado para o dia da labuta. Sendo um mês com muitos feriados, haveria a chance de a quarta-feira escolhida cair num deles. Aí, se algum engraçadinho resolvesse colocar assuntos em pauta, o presidente da Câmara teria a oportunidade para mais uma medida histórica — proibir o trabalho no feriado.
Este é o momento de maior coerência na história do Parlamento brasileiro. Se já se acostumaram a entregar a cabeça de colegas e a assistir calados suas decisões serem pisoteadas pelos outros Poderes, por que não transformar o Congresso Nacional num grande feriadão?

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Num país desse, com um governo desse, com uma justiça dessa e um parlamento desse, ou ironiza ou tem um colapso nervoso
Fiuza com suas análises irônicas é esplêndido.
Os USA com 50 Estados e 330 milhões de habitantes e um PIB 12 vezes maior que o brasileiro tem na Câmara dos Representantes 435 deputados.
O Brasil com 26 Estados. um DF e 230 milhões de habitantes querem colocar 531 deputados.
Quem está errado? O Brasil ou o USA?
A melhor alternativa é fechar, já que as questões que são da atribuição do congresso eles não se posicionam, e se sujeitam a vontade de outro poder.
Fiuza, realmente tens razão. Eu iria ainda mais longe: Deixar todos os congressistas em casa o ano todo, assim a despesa para o povo brasileiro seria bem menor…
grande Fiuza, concordo se o legislativo tem que atender a todas as decisões do judiciário para que ficar passando vergonha de votar uma lei que o judiciário vai ser contra.
Fiuza sempre cirúrgico com sua peculiar e lancinante ironia. O texto até seria engraçado, se não fosse tão desanimador. Pura realidade da trágica realidade de nossa política.