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Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 279

O Brasil sem GPS — e sem rumo

Cortar o sinal dos satélites de geolocalização faz parte das medidas que o governo americano pode usar contra o regime PT-STF

O regime no poder no Brasil resolveu pisar na própria Constituição, acabar com as liberdades garantidas por ela, se aliar a regimes ditatoriais e apoiar grupos terroristas. O governo dos Estados Unidos não gostou disso. E resolveu reagir para que o Brasil não siga o caminho de Cuba e Venezuela. O presidente Donald Trump espalhou pela mesa algumas possibilidades para pressionar o Brasil a mudar de rumo. A primeira foi a carta com o anúncio da tarifa de 50% sobre importações do Brasil, a valer a partir de 1º de agosto.

Mas existem muitas outras cartas sobre a mesa. Uma delas é a suspensão dos serviços de satélites GPS sobre o território brasileiro. Alguns especialistas dizem que isso é tecnicamente impossível. Mas até hoje ninguém pagou para ver.

O que é um GPS?

GPS quer dizer Global Positioning System, ou Sistema de Posicionamento Global. Foi criado em 1973 pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, usando satélites Navstar. No início foi usado apenas para fins militares, mas em 1983 o então presidente Ronald Reagan liberou seu uso para civis do mundo inteiro.

O sistema faz uma triangulação de sinais entre os satélites e os receptores na Terra — como nosso celular. E consegue localizar pessoas e objetos na superfície com uma precisão de até 10 metros. 

A utilização dos 31 satélites Navstar a 20,2 mil quilômetros de altitude é vasta. Navios, caminhões e trens dependem do GPS para localização e rastreamento de cargas. A aviação civil usa o GPS para acompanhamento dos voos e em operações de pouso automático. Transportadoras e aplicativos de delivery perderiam eficiência sem ele. Aplicativos como Uber, iFood e Waze usam o GPS como base de suas operações diárias. 

O agro brasileiro mais avançado utiliza drones, tratores automatizados e sistemas de plantio e colheita guiados por satélites. As Forças Armadas nacionais, já em estado de penúria, dariam um grande salto para trás em sistemas como mísseis, drones e radares.

Outras instituições usam o GPS como instrumento vital de sincronização do tempo e estabilidade dos sistemas. É o caso de usinas elétricas, redes de telecomunicação, bolsas de valores e servidores de internet. Até a sincronização de semáforos seria prejudicada.

GPS quer dizer Global Positioning System, ou Sistema de Posicionamento Global | Foto: Shutterstock

O Brasil poderia usar outra rede de geolocalização?

A Rússia tem uma rede chamada Glonass que opera desde 2011. Alguns smartphones usados no Brasil já são compatíveis com os satélites russos, mas não garantem a extensão de serviços do sistema americano. O mesmo acontece com o sistema Galileo, lançado pela União Europeia em 2016. O NavIC, da Índia, ainda tem sua cobertura limitada ao sul da Ásia.

E a China, tão admirada pelo atual regime brasileiro? O país lançou a operação global do seu sistema BeiDou em 2020. O BeiDou já é acessível em produtos made in China, como celulares Xiaomi, equipamentos de drones, agricultura de precisão e logística. Mas sua atuação seria limitada. 

Segundo matéria de Artur Piva para o site de Oeste, o governo chinês garante que a rede BeiDou (cujo nome significa “sete estrelas”) é usada em “transportes, agricultura, silvicultura, pesca, monitoramento hidrológico, previsão meteorológica, comunicação, despacho de energia, assistência em desastres, segurança pública e outras áreas”.

O governo comunista da China declara também que o BeiDou serve “às necessidades de segurança nacional”. Sabemos que o presidente Lula da Silva e os membros do STF têm plena confiança no regime chinês. A pergunta é: você confia?

É sempre bom lembrar que na China não existe uma distinção clara entre o que é privado e o que é estatal. Essa é a principal restrição que se faz a um aplicativo como o TikTok ou a um modelo de inteligência artificial como o DeepSeek. Os dados que você fornece a essas empresas poderão um dia chegar aos computadores do governo chinês. No caso do BeiDou, a perspectiva parece com a dos versos daquela música Every Breath You Take, do Police: “Cada passo que você der / Eu estarei vigiando”.

BeiDou já é acessível em produtos made in China, como celulares Xiaomi | Foto: Shutterstock

O perigo do spoofing

O sistema global de geolocalização enfrenta ainda um problema do qual poucos ouviram falar: o GPS spoofing. Spoofing quer dizer “falsificação”. O grande avião de passageiros está voando normalmente, e de repente os sistemas a bordo parecem ter enlouquecido. Mandam o piloto subir ou descer repentinamente, indicam mudanças urgentes para outras rotas. 

Esse tipo de spoofing acontece principalmente em locais de conflitos, como na fronteira da Ucrânia com a Rússia ou no Oriente Médio. Geralmente ocorre porque defesas terrestres estão distorcendo dados de localização para enganar a pontaria de mísseis e drones

Uma matéria do Wall Street Journal noticiou que um voo da United Airlines vindo de Nova Delhi, na Índia, sofreu um ataque de spoofing quando passava numa área entre a Ucrânia e a Turquia. Seu sistema ficou “bêbado” e fez o avião desviar do rumo várias vezes. A tripulação teve que usar sistemas de navegação de emergência para pousar em segurança no Aeroporto de Newark. O sistema estava tão desregulado que o mapa de bordo indicava que o avião ia cair no mar. 

Essa mesma reportagem informou que, no ano passado, ocorreram 1,1 mil incidentes semelhantes pelo mundo. Em setembro de 2023, um avião executivo da Embraer entrou sem querer no espaço aéreo do Irã sem pedir licença e por pouco não foi derrubado. 

Por enquanto o GPS spoofing não provocou nenhum acidente aéreo grave, mas já existe a busca por soluções de emergência. As empresas United e American Airlines trabalham com a possibilidade de dar um reboot em seus sistemas durante o voo caso haja um ataque.

Empresas aéreas estão trabalhando com antenas digitais que anulam a interferência. Um novo tipo de sinal de GPS chamado L5 também promete segurança total contra o spoofing e também contra o jamming — que simplesmente desliga o sistema a bordo. As duas alternativas ainda aguardam aprovação das autoridades aeronáuticas. Mas uma solução revolucionária pode estar a caminho.

O sistema global de geolocalização enfrenta ainda um problema do qual poucos ouviram falar: o GPS spoofing (que significa ‘falsificação’) | Foto: Shutterstock

Olhando para baixo

O GPS tem como base satélites. O novo sistema, chamado quantum sensing (“detecção quântica”), inverte completamente o jogo. Ele aponta os sensores para o chão e nos localiza por meio do campo magnético da Terra. Essa tecnologia está sendo desenvolvida pelas empresas Acubed (da Airbus) e SandboxAQ (do Google). 

Seu equipamento é mínimo, segundo o Wall Street Journal: uma caixa “do tamanho de uma torradeira” e um chip. O sistema usa a física quântica para medir a “assinatura” magnética em cada ponto da crosta terrestre. Cada metro quadrado do mundo tem essa assinatura própria. O equipamento para transformar essa assinatura numa localização no mapa está em processo rápido de desenvolvimento. 

A solução petista

O governo Lula já tinha declarado que pretende criar uma “inteligência artificial” nacional. Agora, segundo o jornal Gazeta do Povo, também quer desenvolver um “GPS brasileiro”. 

O anúncio foi feito no dia 1º de julho. Catorze órgãos federais coordenados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação serão mobilizados para “elaborar estudos sobre possíveis opções de fomento para a obtenção de um sistema brasileiro de posição, navegação e tempo”.

Algo parecido aconteceu durante o governo Dilma Rousseff, quando ela resolveu criar um trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro. Se a atual administração resolver seguir o mesmo caminho, logo teremos uma empresa estatal do tipo GPSbras. Ela empregará amigos do regime com salários estratosféricos e produzirá satélites na mesma proporção que Dilma Rousseff garantiu serviço ferroviário de alta velocidade.

E um dia os brasileiros poderão olhar com orgulho para o céu. Não encontrarão satélites brasileiros de geolocalização. Mas poderão, com algum esforço, medir o tamanho dos impostos cobrados para cobrir mais esse ato de “nacionalismo”.


dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi

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2 comentários
  1. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Excelentes informações, Dagomir. Obrigado.

  2. Walmir Paulo Forgiarini
    Walmir Paulo Forgiarini

    Bom dia, Dagomir essa do GPSbras, foi sensacional, assim como o parágrafo final.

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