Lula costuma invocar o “Sul Global” como se o Brasil fosse um colosso e o diálogo ocorresse entre iguais. Mas basta colocá-lo ao lado de potências reais para o verniz de poder compartilhado se desfazer antes mesmo do discurso.
Embora não seja o pai da criança, Lula deu um baita empurrão para ela começar a andar e a alimenta sempre que possível. O Brics nasceu durante o primeiro mandato do petista na Presidência da República e serviu para aproximar o país das ideologias que o partido adora. A palavra dá nome a um grupo de nações. A sigla, no entanto, representa apenas os países que, teoricamente, encabeçam o grupo: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que na sigla aparece em inglês por meio do “S”, de South Africa. “Hoje, o Brics se tornou um bloco com orientação política e ideológica que busca se posicionar no sistema internacional”, afirma Marcelo Suano, cientista político.

Quem deu origem ao termo foi justamente aqueles a quem o petismo chamaria de chefões do Norte Global: os banqueiros de Wall Street. Em 2001, Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, criou o acrônimo Bric para falar dos países emergentes com alto potencial de crescimento. A primeira reunião do grupo ocorreu somente em 2009. Não eram 11 nações, como hoje, nem cinco, como na sigla. No começo, não havia a letra “S” da África do Sul. O país era, e ainda é, menos importante entre os “líderes”. E o Brasil era menos “desimportante” quando comparado à Rússia, à China e até mesmo à Índia. Atualmente, “no primeiro escalão estão Rússia e China”, explica Suano. “No segundo, a Índia. O Brasil não está mais em nenhum.”
A elite do Brics
Do trio poderoso do bloco, a Rússia tem a história recente mais conturbada. Pouco antes de O’Neill criar o conceito do Bric, o país mantinha relevância diante do mundo pelo poderio militar. Já a desordem interna se manifestava tanto na política quanto na economia. No último dia de 1999, Boris Yeltsin, presidente da Rússia, renunciou. Vladimir Putin, treinado pela KGB, assumiu o comando da nação e nunca mais largou. Na época, restavam ao país o arsenal da antiga União Soviética e uma elite corrupta. Embora isso se mantenha, a economia estava pior.
Pouco antes de a URSS ruir, em 1991, O PIB russo era de US$ 554 bilhões, segundo dados do Banco Mundial. Em 1999, estava em menos de US$ 200 bilhões. A economia do Brasil, mesmo com os tropeços de sempre, era três vezes maior: US$ 600 bilhões. Quando o Bric se reuniu pela primeira vez, em 2009, os brasileiros continuavam significativamente mais ricos: US$ 1,7 trilhão ante US$ 1,2 trilhão. Em 2024, os dois ficaram praticamente empatados em pouco mais de US$ 2 trilhões.
Mas não se mede o Kremlin apenas pela economia — a máquina de guerra também entra na conta. Entre outras armas, Moscou dispõe de caças de última geração, porta-aviões e um grande estoque de bombas atômicas. Também tem um programa espacial robusto, capaz de colocar satélites em órbita e manter seu próprio sistema de localização (o equivalente ao GPS dos EUA). Marcos Pontes, o único astronauta brasileiro da história, pegou carona no Soyuz — foguete russo — para alcançar o espaço.

A primeira divisão
Dois países do Brics somam quase metade dos habitantes do planeta: Índia e China. Segundo a Organização das Nações Unidas, juntas abrigam algo próximo de 3 bilhões de pessoas, com cerca de metade para cada lado. Tão grande quanto o número de moradores é o ritmo de crescimento econômico da dupla.
Enquanto o Goldman Sachs lançava o Bric para o mundo, em 2001, a economia indiana perdia para a brasileira: US$ 560 bilhões desta ante US$ 485 bilhões daquela. Em 2003, quando Lula terminou seu primeiro ano de mandato em Brasília, as posições já eram outras. A Índia fechou o ano com US$ 607 bilhões — US$ 50 bilhões a mais que o Brasil. Em 2024, os indianos geraram cerca de US$ 4 trilhões em riqueza, quase dois Brasis. E os chineses têm resultados ainda melhores.
Do centro à periferia
Nenhuma economia das nações que viriam a integrar o bloco era maior que as do Brasil e da China em 1996. O empate deixava cada um com cerca de US$ 860 bilhões. Depois disso, os chineses decolaram — e o PIB da dupla nunca mais se encontrou. Em termos econômicos, a diferença era de 1 para 2 na virada do milênio.
Ao longo do tempo, o abismo cresceu tanto, que hoje a economia chinesa é mais de oito vezes maior do que a brasileira. No passado famoso pela miséria do comunismo, aquele país tem agora um peso esmagador. Os chineses se tornaram maiores, mesmo quando a régua é o PIB per capita (riqueza por habitante): o do gigante asiático é de US$ 13 mil, enquanto o brasileiro fica em cerca de US$ 10 mil. Somente a população russa é mais rica: US$ 14 mil por ano.
Mesmo sem marcas famosas de carros, celulares, eletrônicos ou utensílios domésticos, a economia russa gera mais riqueza por habitante do que a chinesa. E quase sempre foi assim. Os chineses passaram os russos nesse quesito apenas em 2020 e 2021, no auge da pandemia de covid-19. Mas por uma diferença pequena: cerca de cinco centavos por dólar.
Por anos, o Brasil brigou pelo primeiro lugar. A queda começou com Dilma Rousseff: de US$ 13,4 mil em 2011 para menos de US$ 9 mil em seu último ano em Brasília. O fundo do poço veio na pandemia: US$ 7 mil, ante cerca de US$ 10 mil de Rússia e China. Dali em diante, os brasileiros nunca mais saíram do terceiro lugar na renda média, e já perdiam em todo o resto, inclusive para a Índia. Apesar de aquele país ficar atrás no quesito PIB per capita, Marcelo Suano enfatiza que existem 150 milhões de indianos vivendo com uma renda semelhante à dos europeus. Além disso, a Índia tem um programa espacial consolidado, dezenas de ogivas nucleares e vários vencedores de Prêmios Nobel.
Entre os cinco integrantes do bloco, o Brasil só ganha mesmo da África do Sul. Mas o país de Nelson Mandela é mais lembrado pelo Apartheid do que por sua influência no mundo.

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