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Foto: Montagem Revista Oeste/Érico Alves/MD/IA
Edição 279

Apagão nas Forças Armadas

Governo fala em soberania, mas leva a estrutura militar brasileira a um quadro de penúria e expõe o país a todo tipo de ameaça

Durante a saraivada de ataques aos Estados Unidos em razão da ameaça de taxação dos produtos brasileiros em 50%, o governo Lula adotou como estratégia o discurso da soberania. Somente no pronunciamento em rede nacional, na quinta-feira 17, citou a palavra três vezes. A retórica dos aliados do Planalto seguiu a mesma linha. Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, declarou: “O papel do Congresso é defender a soberania nacional”. A palavra de ordem foi ecoada pelos ministros Rui Costa (Casa Civil), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e Fernando Haddad (Fazenda), por Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, e pelos amigos de Lula no Supremo Tribunal Federal.

A prática, no entanto, desmente o discurso. Afinal, soberania é sinônimo, entre outros aspectos, de governo independente, com capacidade de legislar e, sobretudo, de manter a autonomia territorial. O Estado deve exercer poder pleno sobre seu domínio geográfico. Significa, no mínimo, ter o controle das fronteiras, dos recursos naturais e do espaço aéreo e marítimo. Conforme o artigo 142 da Constituição Federal, o instrumento para isso são as Forças Armadas (FA).

Com mais de dois séculos de existência, as FA brasileiras têm colecionado nos últimos tempos episódios que evidenciam um processo de vilanização e constrangimentos bancados pelo oportunismo e pela indiferença do Estado. O orgulho deu lugar à vergonha. Um exemplo foi o recente vazamento da imagem de um slide do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos (SP). O caso ilustrou o que já pairava no ar: as Forças Armadas brasileiras estão com o pires na mão.

O documento, que logo se espalhou pelas redes sociais, revelava uma série de informações oficiais, entre as quais o afastamento de 137 pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB), a paralisação de 40 aeronaves — algumas apelidadas de “Uber de ministros do STF” —, o cancelamento de missões e a redução pela metade do expediente de trabalho. Do cafezinho ao querosene de aviação, as medidas restritivas na Aeronáutica atendiam a um único objetivo: cortar gastos, conforme admitiu o Ministério da Defesa. A pasta sacudiu a caserna ao anunciar em maio o bloqueio de R$ 2,6 bilhões do orçamento total de R$ 136,4 bilhões — o segundo maior corte do governo, atrás apenas do Ministério das Cidades. O valor total pode impressionar, mas cabe destacar que cerca de 90% desse dinheiro é consumido pela folha de pagamento, incluindo pessoal da ativa, inativos e pensionistas.

Forças Armadas brasileiras colecionam episódios que evidenciam um processo de vilanização e constrangimentos | Foto: Sgt Müller Marin/Força Aérea Brasileira

O vazamento na área de segurança nacional

A divulgação de um documento restrito de dentro de uma área de segurança nacional repercutiu muito além do sentido emergencial de quem está no vermelho; reforçou a suspeita de que a estrutura militar brasileira, em todas as suas Forças e patentes, rendeu-se ao desprestígio. “Há alguns anos, era impensável um militar deixar vazar um documento que escancara dados sigilosos”, lamenta, em condição de anonimato, um veterano militar que trabalha no DCTA. “O pessoal de farda azul está de cabeça baixa.”

No Exército, o clima não difere. A pindaíba afeta o básico. “No almoço é só um pedaço de frango”, conta um cabo que pediu para não ser identificado. “O suco foi banido e sobremesa, nem pensar. Banho quente é exceção. Se descobrem que falei, vou preso.” Na Marinha, a privação invade um território ainda mais sensível. Sem munição financeira, unidades estariam proibindo militares e dependentes de se socorrerem em hospitais da corporação. A ordem é se dirigir ao Sistema Único de Saúde (SUS). Há relatos de que faltam recursos até para pagar a conta de luz.

A penúria extrapola os muros dos quartéis e alveja entidades como o Clube Militar, no Rio de Janeiro. Nos últimos seis anos, a instituição viu o número de associados encolher 30%. Como a maioria da população, o militar está perdendo poder aquisitivo e o direito ao lazer. Por trás desses recortes, um fato explosivo: as Forças Armadas vivem uma debandada de pessoal. Entre 2020 e 2024, quase 7% do contingente ativo foi embora. Hoje são aproximadamente 355 mil servidores. Só no primeiro trimestre de 2025, a FAB perdeu 50 pilotos, um número acima do ano de 2024 inteiro. A maioria foi trabalhar na aviação privada, que paga o dobro. Detalhe: a formação de um piloto de caça, por exemplo, custa aos pagadores de impostos cerca de R$ 1 milhão.

A penúria extrapola os muros dos quartéis e alveja entidades como o Clube Militar, no Rio de Janeiro | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Há dois meses, uma portaria do Comando de Pessoal de Fuzileiros Navais divulgou outro desfecho atípico: os desligamentos de mais dois capitães-tenentes, dois segundos-tenentes e até de um capitão de Corveta (como é chamado na Marinha o primeiro posto de oficial superior). No Exército, entre 16 de junho e 7 de julho deste ano, ao menos 12 oficiais pediram as contas. “Em um contexto internacional tão conturbado, uma potência regional como o Brasil não poderia prescindir das capacidades máximas de suas Forças Armadas”, adverte Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, coronel da reserva do Exército e mestre em ciências militares.

Para alguns especialistas, o desembarque se deve a dois fatores centrais: a baixa remuneração e a falta de perspectiva. “Essa história de patriotismo é coisa de filme”, afirma Robson Augusto, militar da reserva e editor do site Sociedade Militar. Segundo Augusto, para as atuais gerações, o que interessa é dinheiro no bolso e horizonte na carreira. “O jovem se pergunta: ‘Vou levar 30 anos para ganhar R$ 18 mil por mês como coronel. Por que seguir, se como civil consigo esse valor em três anos?’.”

‘Essa perda é uma tragédia’, diz especialista

Se o baixo soldo, que é o ganho fixo e básico do militar, de fato é um empecilho à fidelidade, o cenário é desanimador. O aumento de 9% autorizado pelo Senado na quarta-feira 16 é só metade do que os militares pleiteavam. “O orçamento não comporta”, desculpa-se o deputado Eduardo Pazuello (PL-RJ), relator da medida provisória. A remuneração dos militares vai de R$ 1,2 mil, para um recruta do Exército, ao teto de R$ 30 mil, para um almirante de esquadra, posto máximo na Marinha e que demanda 35 anos de farda.

“Essa perda é uma tragédia, porque são pessoas capacitadas com o dinheiro público, que se sacrificaram para chegar aonde chegaram e se sentem desvalorizadas ao verem outros cargos no Estado mais bem remunerados”, afirma Sandro Teixeira Moita, professor de ciências militares na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. “Um diplomata em início de carreira, por exemplo, ganha mais que um general de brigada com 35 anos de serviço.”

Além da renda insatisfatória e do desgaste por não ter uma residência fixa que dê à família o conforto de saber onde será a próxima ceia de Natal, outros problemas, na avaliação dos militares, são as ingerências políticas que prejudicam o desenvolvimento de projetos. Em outubro de 2024, por exemplo, um capricho ideológico de Lula resultou na suspensão do contrato de aquisição do sistema de artilharia Atmos, que está em pleno uso no atual conflito entre Rússia e Ucrânia. Numa canetada arbitrária, o governo boicotou o fornecedor. Motivo: ser israelense. Azar do Brasil, sorte da nação que estava na fila à espera de armamentos tão escassos em meio à efervescência bélica global. A decisão do petista, dizem os analistas, corrobora a ausência de uma estratégia sólida de defesa que dê aos militares o sentido de propósito.

Blindados do sistema Atmos, produzido pela Elbit, que tem fábricas no Brasil: tanques equipam várias forças de defesa ligadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) | Foto: Elbit/Divulgação
Blindados do sistema Atmos, produzidos pela Elbit, que tem fábricas no Brasil: tanques equipam várias forças de defesa ligadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) | Foto: Elbit/Divulgação

É preciso alimentar as três bocas (do soldado, da viatura e do canhão)

“Se não estão com os seus equipamentos disponíveis, um piloto de caça, um comandante de blindado ou um submarinista podem ver frustradas as suas expectativas profissionais e, a partir daí, buscar outras colocações”, afirma o coronel Paulo Filho. Segundo o major do Exército e mestre em operações militares Tiago Pedreiro, a estabilidade no círculo militar exige que o Estado alimente três bocas: “A prioridade para quem leva a sério a segurança é abastecer as bocas do soldado, da viatura e do canhão”.

Se depender do esforço do atual governo, a entidade responsável pela soberania falsamente defendida por Lula marcha para a inanição. Enquanto o Brasil estacionou, os investimentos militares no mundo cresceram em média 10% entre 2023 e 2024. O país que mais colocou dinheiro porcentualmente é um vizinho brasileiro, a Guiana, de quem a Venezuela, do ditador Nicolás Maduro, tenta roubar dois terços do território. Aliás, a devastação da democracia na Venezuela apoiou-se exatamente no desmonte de suas forças armadas. Com a prudência de quem vê a sanha inimiga, a Guiana investiu 78% a mais em defesa.

O Brasil, por sua vez, direciona 1,1% do PIB para gastos das Forças Armadas em fins não obrigatórios, a chamada “linha discricionária”, que inclui, por exemplo, compra de munição, armamentos e projetos. O ideal, sugerem os especialistas, seria ao menos 2%. “Na América do Sul, superamos apenas o Uruguai e a Argentina”, informa o major Pedreiro. Ele acrescenta que, se o índice subisse para 2%, conforme uma PEC que tramita no Congresso Nacional, os recursos aumentariam de R$ 12,4 bilhões para quase R$ 25 bilhões.

“Vivemos uma das crises mais agudas e que piora a cada dia pelo baixo investimento interno e pela onda armamentista no mundo. É grave, mas isso parece não estar no radar dos políticos, apesar da insegurança global crescente”, alerta o professor Teixeira Moita. O Brasil fechou 2024 em 21º lugar no ranking de países que mais investiram em defesa, excluindo pessoal e custeio, aponta o relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), organização independente, sediada na Suécia, que se dedica ao estudo de conflitos, armamentos, controle de armas e desarmamento (veja o gráfico abaixo). Nesse mesmo período, os Estados Unidos gastaram em um único dia quase o dobro do que o Brasil investiu em defesa em todo o ano passado, também excluindo pessoal e custeio.

O Brasil fechou 2024 em 21º lugar no ranking de países que mais investiram em defesa | Foto: Érico Alves/MD

Munição e equipamentos não estão nas prateleiras

Os especialistas culpam a ignorância sobre o tema — a visão irresponsável de que investir em defesa não dá voto — e a má gestão de recursos. “É preciso olhar para a defesa como uma apólice de seguro”, alerta o major Pedreiro. “Surpresas acontecem. Munição e equipamentos não estão disponíveis na prateleira como um produto de supermercado.” Teixeira Moita afirma que “as lideranças políticas no Brasil enxergam a defesa como um gasto desnecessário”. “Mas a coisa é tão séria que alguns chefes de Estado nem vêm ao Brasil com medo de ataques”, observa. Para se ter uma ideia da negligência, das atuais 80 embarcações principais da Marinha, metade está em estado crítico. Estima-se que até 2027 cerca de 20 navios parem de operar por falta de manutenção.

Outro dado estarrecedor: Lula já foi avisado pelos militares de que a infraestrutura dos 16 cabos submarinos que ligam o Brasil aos outros continentes — e por onde trafegam 97% dos dados de comunicação — está em situação crítica. Ou seja, a qualquer momento o país pode desaparecer virtualmente do mapa, já não bastasse a nossa completa dependência dos Estados Unidos para navegação por satélite civil e militar, o famoso GPS (leia reportagem de Dagomir Marquezi).

Paulo Filho diz que o Brasil tem “graves lacunas”. Ele afirma que, apesar de o país estar em uma das áreas mais pacíficas do mundo do ponto de vista bélico, abriga-se, ao mesmo tempo, em uma das regiões mais violentas do planeta. “É um paradoxo. Há paz entre os países, mas há uma grande violência do crime organizado.” Para o vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, que participa da desmobilização da cracolândia na capital paulista, a fraqueza das Forças Armadas é um pesadelo: “A maioria das drogas que chega ao nosso Estado vem das fronteiras. O combate a isso demanda uma ação mais efetiva, esforço que a gente não vê do governo federal”. Enquanto o blefe do discurso da soberania continua, o clima entre os militares segue aquele: o último que sair, apague a luz.

Das atuais 80 embarcações principais da Marinha, metade está em estado crítico | Foto: Hamilton Garcia/MD

Leia também “A decadência da indústria bélica brasileira”

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13 comentários
  1. José Luiz Moraes Passos
    José Luiz Moraes Passos

    Exército covarde e imundo cometeu o pior crime possível para um militar. A Perfídia. Caxias jamais imaginaria tamanha imundice e covardia de seu Exército, antes glorioso, hoje imundo e criminoso. Frouxas armadas brasileiras são símbolos de desonra, covardia e repugnância. Que o inferno as acolha.

  2. Marbov
    Marbov

    O exército de Brancaleone atua enquanto Trump envia navios e submarinos ao Caribe.

  3. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Infelizmente as FA vem perdendo credibilidade perante a sociedade brasileira, ano após ano.

  4. gilson roberto cardoso de oliveira
    gilson roberto cardoso de oliveira

    O Exercito deveria defender as fronteiras, ao menos dos traficantes de drogas, mas isso levaria ao desabastecimento das cracolândias.

  5. MC75
    MC75

    Isso mesmo! Apoiem o sucateamento das FFAA, e quando os traficantes do poder promoverem os PCC, CV e MST da vida, a milícias governamentais, como fez Maduro na Venezuela, vão enfiar o dedo no fiofó e rasgar.

  6. José da Silveira Guimarães Junior
    José da Silveira Guimarães Junior

    Quanta baixeza. Quanta covardia. Um poviléu que não sabe votar, se ligam mais em Big Brother e Anitta do que em exigir desempenho dos políticos que ajudaram a eleger e querem ver a guerra grassar, na segurança, por detrás de um teclado e no conforto das suas poltronas. Quer dizer, então, que os militares são traidores porque não deram um golpe de estado em 2022? Esqueceram que eles fizeram isso em 64 e foram ingratamente execrados por 6 décadas? E agora, que a água ultrapassou o pescoço, vocês transferem a responsabilidade e se acham no direito de espargir esse vômito hipócrita de liçãozinha de moral barata, rasteira, falsa e simplória? As Forças Armadas são compostas por pessoas egressas do povo e são seu reflexo fiel, com a diferença de que as corporações militares retém aprendizado, enquanto a maioria da sociedade não consegue lembrar em quem votou na última eleição. Entenderam, ou querem que desenhe? Vocês são os verdadeiros responsáveis por essa desgraça em que se encontra o país e o baixíssimo nível dos comentários comprova isso muito bem. Vão à luta, mimizentos, e resolvam o problema que vocês mesmos criaram. Deixem de choradeira.

    1. Renato Perim
      Renato Perim

      Acredito que o comentário do sr. está em local errado. As pessoas que assinam a Oeste não merecem esse desrespeito e não são os culpados pela nossa situação. Culpados são os que se venderam ao sistema, à esquerda, sejam militares, sejam civis.

    2. José Luiz Moraes Passos
      José Luiz Moraes Passos

      Bolsonaro venceu em 2022, de lavada. Porém, o imundo e criminoso sistema que domina esta podre nação FRAUDOU e colocou o maior ladrão da história na “presidência”. Nosso Exercito de melancias ficou de fiscalizar as urnas, e mesmo concluindo que as mesmas não eram confiáveis, não fizeram nada, unindo-se aos criminosos da fraude. Frouxas armadas de merda, essa a verdade.

    3. José Luiz Moraes Passos
      José Luiz Moraes Passos

      Você é um oceano de ignorância e estupidez. Em 64 houve um CONTRA GOLPE anulando os mesmos vagabundos comunistas que hoje assumiram o poder desta pobre e estúpida nação. O povo, em peso nas ruas, clamou pelos militares para nos defender contra o GOLPE que estava sendo orquestrado e já em prática pelo presidente comunista. O povo, o congresso, a imprensa (de verdade, na época) e todas instituições estavam apoiando os militares e pedindo sua intervenção. Leia mais, aprenda. Ignorância não é virtude.

  7. INDIOMAR SELAU
    INDIOMAR SELAU

    As Forças Desarmadas só sabem enganar idosos que estavam na frente dos quartéis pedindo ajuda, levando-os para a cadeia; lamber as botas do PT e STF e fazer cri cri enquanto o crime toma cada fez mais território. Resumindo: bando de frouxos que agora ficam de mimimi que não tem dinheiro para nada. Já fui militar de carreira e sai a vinte anos atrás porque vi que meu futuro seria só ficar de lenga-lenga esperando a aposentadoria chegar. Uma das melhores decisões da minha vida.

  8. Maurício de Souza Arruda
    Maurício de Souza Arruda

    Os militares merecem o tratamento que estão recebendo. Uma pena.

  9. Andre mendonça
    Andre mendonça

    Quem não se dá respeito, não merece o respeito dos outros. A melancia está murchando.

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