publicidade
Foto: Shutterstock
Edição 276

O êxodo venezuelano

Refugiados continuam vindo ao Brasil aos montes para fugir da ditadura de Maduro, que tem o apoio de Lula

Fluxo diário de aproximadamente 400 pessoas, vaivém constante de carros, extensas filas de famílias com bagagens e crianças no colo, além de muitos militares brasileiros. Essa é a primeira impressão de quem chega à fronteira do Brasil com a Venezuela, em Pacaraima (RR). A multidão vem de Santa Elena de Uairén, que virou porta de saída para os exilados da ditadura de Nicolás Maduro. Do alto de um monumento colorido com bandeiras, que estabelece a divisa entre os dois países, é possível ver a rodovia de 16 quilômetros de extensão que separa uma cidade da outra e é percorrida todos os dias pelos fugitivos do regime chavista. Aqueles que conseguem pagar cerca de R$ 25 (sem direito a sacolas ou qualquer tipo de bagagem) por um transporte chegam ao seu destino em cerca de 20 minutos. Já os que não têm condições financeiras mínimas enfrentam 3 horas e meia de caminhada debaixo do sol. Uma jovem mulher com um filho pequeno relatou que quem opta pela saída a pé habitualmente o faz pela manhã, quando o clima é mais frio. “Prefiro economizar o dinheiro que gastaria com locomoção para comprar algo para comer ali em Pacaraima”, disse ela. “Mas nada é pior se comparado ao que ocorre no meu país.”

O drama da mulher é o mesmo de milhões de venezuelanos que fugiram desde que a crise humanitária se agravou, há sete anos. Naquele momento, o regime chavista, sempre apoiado por Lula e pela esquerda latino-americana em peso, havia alcançado a maior recessão de sua história. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano registrou queda de 40%, de acordo com um levantamento publicado pelo Fundo Monetário Internacional à época. Nem mesmo as famílias que dependiam de programas sociais criados por Maduro como cabresto conseguiam sobreviver com a esmola dada pelo Estado. O êxodo de venezuelanos para o restante do mundo, e sobretudo para o Brasil, alcançara o ápice.

Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou um panorama da situação. Conforme o mais recente Censo do IBGE, o número de venezuelanos que residem no Brasil deu um salto de mais de 9.000% entre 2010 e 2022, de cerca de 3 mil para mais de 270 mil pessoas. A maior parte está concentrada nas Regiões Norte e Nordeste, especialmente em Roraima (RR), em razão da proximidade com a Venezuela, no Sul e no Sudeste, com destaque para Curitiba (PR) e São Paulo. A cifra total revelada pelo IBGE confirmou a estimativa que o Ministério da Justiça (MJ) tinha à época. Os dados atuais do MJ, até maio, são ainda mais alarmantes, pois mostram que, de lá para cá, o número aumentou para quase 650 mil. Quanto ao fluxo migratório, ao considerar 2018, mais de 1 milhão de venezuelanos passaram pelo Brasil. O levantamento do MJ é publicado no painel Observatório das Migrações Internacionais.

venezuela
Monumento na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em Pacaraima (RR) | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

A chegada

Os venezuelanos que conseguem chegar a Pacaraima se deparam com um conjunto de tendas brancas. Ali, são submetidos a uma triagem, na qual informam dados básicos, como o nome, a origem e se tinham algum emprego. Nesse controle de fronteira, regularizam a situação migratória e passam para a próxima etapa, que consiste em abrigos provisórios montados a alguns metros dali. Tudo ocorre no âmbito da assistência imediata oferecida pela Operação Acolhida, criada em março de 2018, ainda durante o governo Michel Temer, a fim de prestar ajuda humanitária. Coordenada pela Casa Civil, a operação conta com o suporte dos Ministérios da Justiça, do Desenvolvimento Social e da Saúde. O apoio logístico vem das Forças Armadas, sobretudo do Exército. O orçamento anual, que varia entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões, é oriundo do governo federal, que recebia também aportes de organismos internacionais, como da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, a Usaid — a ajuda financeira da Usaid, de quase US$ 20 milhões em sete anos, durou até o fim de fevereiro, quando uma ordem do presidente Donald Trump encerrou os repasses para o mundo inteiro.

Pessoas tentam cruzar a pé a fronteira entre Venezuela e Brasil, em Pacaraima | Foto: Ricardo Moraes/MMB América Latina

O caminho até as barracas de habitação é curto e repleto de ambulantes que assediam os refugiados no trajeto. Os vendedores, advindos não só da Venezuela mas também da Guiana e da Colômbia, trabalham sem ser perturbados por policiais federais (PF), que ficam em um posto próximo ao local onde o Exército recebe os venezuelanos. Os produtos são diversos, de guloseimas a roupas e cigarros. O pagamento tem de ser, preferencialmente, em real — dificilmente o bolívar é aceito. A pouca fiscalização dos agentes na guarita montada nas cercanias se repete na entrada e na saída das pessoas, que raramente são paradas na BR-174, a via principal da região, o que facilita muito até mesmo a entrada de criminosos. Um membro da PF local, para justificar essa brecha, afirmou: “É impossível revistar todo mundo, visto que o volume de gente que passa todos os dias por aqui é grande demais”.

Passado esse trajeto, os refugiados são levados para os abrigos. Ali, recebem materiais de higiene pessoal, têm direito à alimentação e, em alguns casos, ganham roupas. Posteriormente, passam por outro processo, o de interiorização. Essa etapa consiste em levar o refugiado para algum local do Brasil que tenha condições de oferecer a ele um trabalho. Geralmente, a atividade é correlata àquela praticada na Venezuela. Portanto, alguém que ganhava a vida como marceneiro, por exemplo, pode ser enviado a uma empresa que faz móveis planejados, e assim por diante. “O nosso objetivo é dar o peixe, mas também ensinar a essas pessoas como pescar”, contou um coordenador da Acolhida.

venezuela
Tenda com venezuelanos, na entrada de Pacaraima. O local é a primeira etapa da Operação Acolhida | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
Venezuela
Tenda com venezuelanos, na entrada de Pacaraima. O local é a primeira etapa da Operação Acolhida | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
venezuela
Posto da Polícia Federal em Pacaraima | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
venezuela
Família aguarda para entrar nos abrigos da Acolhida | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
venezuela
Tendas da Operação Acolhida, em Pacaraima | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Poucos são os venezuelanos que optam por ficar em Pacaraima, visto que a cidade não tem muitas oportunidades — os estrangeiros totalizam 7 mil, ou 36%, dos 19 mil moradores da cidade, segundo o IBGE, que não aponta exatamente quantos são venezuelanos. Quem decide permanecer tem de trabalhar em alguma pousada local ou comércio. “Amanhã, já devo ir para a capital com meu marido, que conseguiu um emprego de garçom”, contou uma mulher de 44 anos. “Vai ser bem melhor para cuidar do nosso filho, de 14 anos, que tem autismo. Na Venezuela, além da escassez de alimento, falta remédio também e o tratamento para a doença dele é caro demais.” Essa e tantas outras famílias atendidas pela Acolhida deslocam-se da fronteira à capital em ônibus fretados pelo governo estadual, que transportam centenas de pessoas todos os dias em um trajeto de quase quatro horas de estrada. A via é perigosa, porque há trechos sem asfalto. Além disso, em determinados pontos da BR-174 a estrada é íngreme, e já houve acidentes de carro nos barrancos.

venezuela
Trecho da estrada entre Pacaraima e Boa Vista | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
venezuela
Ônibus fretados vindos de Pacaraima, com refugiados venezuelanos, em direção a Boa Vista | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste
venezuela
Família venezuelana se arrisca para ir de Pacaraima a Boa Vista, sem a ajuda da Operação Acolhida | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Vida nova em Boa Vista

Depois da longa estrada, os venezuelanos que chegam a Boa Vista são direcionados a alojamentos bem semelhantes aos de Pacaraima. Eles ficam nesses locais até conseguirem ter condições de arrumar um emprego e, assim, custear o próprio aluguel e seguir em frente. Nos primeiros anos da Acolhida, houve certo desentendimento entre os boa-vistenses e os venezuelanos, por causa de vagas de trabalho. Com o passar do tempo, porém, o relacionamento foi melhorando. Hoje, a maioria dos refugiados que decidiu residir na capital se estabilizou em empregos não tão disputados na região, como de garçons, copeiros e faxineiros das residências. Atualmente, os moradores de outros países na capital alcançam o patamar de 62 mil pessoas, cerca de 15% dos mais de 400 mil habitantes da cidade. Ali também não se sabe quantos são venezuelanos.

venezuela
Venezuelanos nas ruas de Boa Vista | Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Mesmo os venezuelanos que tiveram algum amparo da operação do governo acabam se desviando do caminho que conduz a uma nova vida, seja por problemas emocionais, em virtude de não conseguirem trazer a família, seja por estarem longe do país em que nasceram. Por isso, Boa Vista passou a registrar aumento no número de moradores de rua e também na quantidade de garotas de programa. Um ex-secretário estadual contou que a capital não tinha “vida noturna” agitada, mas passou a ter em razão da prostituição de mulheres venezuelanas. “A ditadura aflige até mesmo aqueles que nem estão mais no próprio país”, disse.

Quando a prostituição ou a mendicância não resolvem os problemas financeiros, o crime passa a ser uma opção. Por isso, a facção criminosa da Venezuela Tren de Aragua (equivalente ao PCC no Brasil) passou a recrutar jovens venezuelanos em vulnerabilidade social. Os criminosos estrangeiros entraram no Brasil graças à fiscalização falha das fronteiras pelo governo federal e viram a oportunidade de expandir sua atuação. Após um pacto com o PCC, hoje o Tren de Aragua controla cinco bocas de fumo em Boa Vista. A facção também tem atuado em Manaus (AM), além de cidades fronteiriças no Amazonas. “Como são mais violentos, eles expulsam os traficantes locais”, contou o delegado Wesley Costa, titular da Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas de Roraima. “Houve embates com as facções brasileiras. Mas, devido a um arranjo com o PCC, os venezuelanos também passaram a cooptar os brasileiros.” O grupo atua no garimpo ilegal, além do tráfico de drogas.

Criada a partir de um sindicato de trabalhadores ferroviários e expandida por detentos do presídio de Tocorón, a 140 quilômetros de Caracas, a facção venezuelana foi a única da América Latina a ser classificada como “organização terrorista estrangeira” em um decreto assinado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assim que tomou posse, em 20 de janeiro. Segundo investigações, além do Brasil, EUA e Venezuela, o Tren da Aragua está presente na Colômbia, Chile, Equador, Peru e Bolívia, com forte atuação nas regiões de fronteira, onde a fiscalização não é tão eficiente. Em janeiro deste ano, a polícia identificou um cemitério clandestino na capital de Roraima, com nove corpos de venezuelanos, sendo cinco mulheres — a maioria dos cadáveres apresentava marcas de perfuração por faca. A suspeita é de que eram desafetos do Tren de Aragua.

Democracia relativa

A raiz de todos os males dos refugiados venezuelanos, ávidos pela volta para casa, é a ditadura chavista, que se mantém de pé há 25 anos. Se nada mudar, ela continuará atormentando a população por mais algumas décadas. Além do apoio interno dos militares e de todas as instituições capturadas por Maduro, o regime se ampara no suporte internacional que recebe da China, do Irã e da Rússia, e também na ajuda do presidente Lula, que ficou ainda mais clara com os seus recentes atos.

Isso porque, embora não reconheça oficialmente a ditadura, por ter requerido as atas que confirmavam a vitória do ex-diplomata Edmundo González na eleição do ano passado, Lula continua firmando acordos bilaterais com o país, como ocorreu há uma semana. O petista celebrou um “tratado de cooperação agropecuária” com Maduro. Em troca, o chavista deu 180 mil hectares de terras ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, para “agricultura familiar”.

Em novembro de 2024, em uma reunião do G20, Lula disse que seu maior legado é a luta contra a fome. O presidente brasileiro, contudo, nunca explicou como pode ser amigo de um ditador que condena o habitantes do país que governa a fugirem da terra Natal em busca de comida.

Leia também “Aos inimigos, a lei”

Leia mais sobre:

5 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    A ideia fixa do Lula é transformar o Brasil em uma Venezuela continental.

  2. Adail da Costa Leite Filho
    Adail da Costa Leite Filho

    Qualquer dia desses todos eles estarão com bolsa família e titulo eleitoral votando no ladrão de 9 dedos.

  3. Robson Oliveira Aires
    Robson Oliveira Aires

    O que aconteceu na Venezuela, sirva de alerta para nós brasileiros.

  4. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Parabéns Crystian. Seus artigos são muito bons, sempre preocupados na condição humana.

  5. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    A população brasileira , que não lê ou participa da política BRASILEIRA, não sabe que a imigração é uma disputa de BOLSA FAMÍLIA, EMPREGOS , MAUS HABITOS E DOENCAS. O TERRORISMO E AS LUTAS ARMADAS TENDEM A SE FORTALECER , esses corpos de mulheres e homens encontrados mortos é, e só nos mostra o que tá por vir e assim como sua infiltração nas cidades, na política nos benefícios sociais.

Anterior:
As Janjas do planeta
Próximo:
A decadência da indústria bélica brasileira
publicidade