publicidade
Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/Shutterstock
Edição 276

As Janjas do planeta

Primeiras-damas que se notabilizam por gafes, gastos acintosos e ostentação brega

Primeiras-damas, na dúvida, devem observar a premissa que se aplica aos árbitros de futebol: quanto menos aparecer, melhor. Interferir no resultado da partida, nem pensar. Janja segue outra cartilha: quanto mais aparecer, melhor, seja na base do palavrório desmiolado, com atitudes arrogantes dos que se consideram inimputáveis, seja esbanjando o dinheiro dos pagadores de impostos. Se tal postura tiver o eventual efeito de alterar os rumos do jogo, paciência. O VAR não vai se manifestar mesmo. E pouco importa se para alcançar alguns dos palanques mais duvidosos do mundo — muitas vezes sem a presença do marido que ocupa a Presidência — seja preciso consumir incontáveis milhões de reais dos dos pagadores de impostos. 

A maioria das primeiras-damas brasileiras seguiu o conselho dado aos árbitros, com maior ou menor competência. Outras destacaram-se por seus méritos. Darcy Vargas e Sarah Kubitschek, por exemplo, notabilizaram-se pela atuação na área social. A mulher de Getúlio fundou a Legião Brasileira de Assistência (LBA), enquanto a de Juscelino criou a Organização das Pioneiras, que virou associação e administra a Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, com base em Brasília e unidades em vários Estados.

Maria Thereza Goulart, mulher de Jango, foi apontada pela revista People como uma das primeiras-damas mais bonitas do mundo e chegou a ser comparada a Jacqueline Kennedy, um ícone dos anos 1960. Chamava a atenção pela beleza e pela elegância em suas aparições públicas. Ainda que tentasse, não conseguiria passar despercebida.

Maria Thereza Goulart foi considerada uma das mais belas primeiras-damas do mundo | Foto: Wikimedia Commons

Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique, tinha luz própria. Intelectual respeitada, no papel de primeira-dama sempre foi discreta, mas produtiva, tendo implantado o programa Comunidade Solidária, embrião do Bolsa Família.

Ruth Cardoso era uma intelectual com luz própria | Foto: Arquivo Nacional

Na ausência da luz própria de Ruth, da beleza de Maria Thereza, ou da compaixão genuína de Darcy e Sarah, em vez de se integrar à galeria das primeiras-damas discretas, Janja preferiu se alinhar às que se notabilizam pelas gafes, pelos gastos acintosos e pela ostentação brega. Fora o resto. Entre uma escala e outra no Brasil, opta por perder todas as chances de ficar calada.

Uma das mais notórias primeiras-damas da história foi Imelda, mulher do ditador Ferdinand Marcos — que governou as Filipinas de 1965 a 1986 — e mãe do atual presidente, que tem o mesmo nome do pai, mas é conhecido como Bongbong Marcos. Imelda notabilizou-se pela formidável coleção de sapatos, que chegou a contar com mais de 3 mil pares, a maioria de grifes como Gucci, Christian Dior e Chanel.

Imelda Marcos, mulher do ditador Ferdinand Marcos, ficou famosa pela sua impressionante coleção de mais de 3 mil pares de sapatos de grifes renomadas, como Gucci e Chanel | Foto: Reprodução/X

O que poderia parecer mera ostentação de deslumbrados no poder acabou virando também símbolo da corrupção que — somada à violência política e à fraude eleitoral — levou à deposição do ditador, em 1986. O casal fugiu para o Havaí, onde ele morreria três anos depois, sob investigação. Na pressa para escapar da fúria popular, Imelda teve de deixar para trás mais de 1,2 mil pares, que foram parar no Museu do Sapato, na cidade filipina de Markina.

O apreço por calçados e bolsas caras era marca também de Asma, mulher do ditador sírio Bashar al-Assad. Nascida em Londres, Asma era sunita, como a maioria da população da Síria, o que deu mais popularidade a Bashar, da minoria alauíta. Chegou a ser classificada como “Uma Rosa no Deserto” pela edição americana da revista Vogue. A rosa tinha gosto sofisticado. Talvez demais para um país que vivia sob um regime autoritário acusado de constantes abusos de direitos humanos e com uma população dividida pelas dificuldades econômicas e diferenças religiosas. Asma costumava exibir-se com calçados, bolsas e joias de grifes de luxo como Christian Louboutin, Bottega Veneta, Chanel e Dior, embora nem de longe rivalizasse em quantidade com a coleção de sapatos de Imelda Marcos. 

Asma al-Assad, esposa de Bashar al-Assad, era conhecida por seu gosto por itens de luxo, como calçados e bolsas de grifes renomadas, enquanto o país enfrentava abusos de direitos humanos e dificuldades econômicas | Foto: Wikimedia Commons

Ao contrário da ex-primeira-dama filipina, Asma teve tempo de retocar a imagem. Embora seus hábitos de consumo tivessem lhe valido outro apelido, “Maria Antonieta do Oriente Médio”, Asma desceu dos saltos Louboutin, vestiu-se como uma simples mortal e abriu as portas do palácio aos familiares das vítimas de uma guerra civil cujo número de mortos já passava da centena de milhares. No entanto, e-mails vazados por adversários do regime revelaram que ela seguia adquirindo joias, sapatos e objetos como candelabros luxuosos em sites de lojas de Paris e de Londres, enquanto milhares de pessoas eram mortas pelo regime. Bashar al-Assad caiu em 8 de dezembro de 2024, e o casal se refugiou na Rússia.

Rosmah Mansor, mulher do ex-primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, enfrentou 12 acusações por lavagem de dinheiro e cinco por sonegação fiscal, no rastro de um escândalo político que acabou por levar Razak à prisão. A polícia apreendeu nas residências do casal 284 caixas de bolsas, 72 malas e “toneladas de joias e dinheiro”. Rosmah era mais uma obcecada por marcas de luxo. A ex-primeira-dama chegou para um depoimento com uma bolsa que, segundo logo viralizou na internet, era muito semelhante a um modelo da Versace Demetra. 

De acordo com a revista Fortune, Rosmah possuía uma coleção de bolsas da marca Birkin, da grife Hermès, tão valorizadas que sua compra é considerada um investimento. Estima-se que a coleção tenha custado pelo menos US$ 5 milhões, ainda assim ofuscada por um colar de diamante rosa de 22 quilates no valor de US$ 30 milhões, luxos financiados pelas atividades subterrâneas do casal.

Rosmah, esposa do ex-primeiro-ministro malaio, possuía uma coleção de bolsas Birkin, da Hermès, avaliada em US$ 5 milhões, além de um colar de diamante rosa de 22 quilates no valor de US$ 30 milhões, luxos financiados por atividades ilegais | Foto: Reprodução

A gastança de dinheiro público — seja ele desviado ou retirado regularmente dos cofres oficiais — nem sempre é a razão da notoriedade das primeiras-damas sem noção e do constrangimento dos respectivos maridos. Gafes também são comuns, embora sejam cometidas somente — como diria uma jornalista sobre as mortes de israelenses em ataques iranianos — “uma aqui, outra ali”. 

Se Janja comemorou sua chegada a Nova Délhi com uma dancinha em meio à tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2023, a primeira-dama chinesa, Peng Liyuan — que era cantora e militar —, foi muito criticada por cantar para as tropas que haviam acabado de massacrar centenas (ou milhares) de civis na Praça da Paz Celestial, em 1989. 

Peng Liyuan canta para os soldados na Praça da Paz Celestial, em 1989 | Foto: China Digital Times

O fato ocorreu quando ela ainda não era primeira-dama, mas já estava casada com Xi Jinping. Uma foto da cena circulou na internet em 2013, logo depois de ele se tornar presidente, causando grande comoção entre os chineses e desconforto para o governo, que fez a imagem sumir das restritas e censuradas redes sociais chinesas.

Outra primeira-dama a ser criticada por algo do passado foi a atriz Carla Bruni, casada com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. “A monogamia me entedia loucamente, sou monógama de tempos em tempos, mas prefiro a poligamia e a poliandria [quando a mulher tem múltiplos parceiros simultaneamente]”, havia declarado em entrevista ao Le Figaro.

Chamar a atenção do jeito errado é algo que pode vir de várias formas. Recentemente, a atual primeira-dama da França, Brigitte Macron, foi flagrada empurrando o rosto do marido antes de desembarcar no Vietnã. A assessoria do presidente afirmou se tratar de “uma brincadeira de casal”, mas, ao descer as escadas do avião, Emmanuel Macron ofereceu o braço à mulher, e ela recusou.

Janja não empurrou Lula — ao menos que se saiba. Entre uma viagem e outra, exibe em suas redes uma foto deitada ao lado do marido, embaixo de um ipê-rosa, a observar pássaros. Mas preenche os demais requisitos da primeira-dama sem noção: gafes, gastos excessivos e ostentação. Além das despesas de viagens, somente a aquisição de móveis e as reformas da residência oficial custaram quase R$ 30 milhões. Entre outros esbanjamentos, Janja fez compras na loja da grife de luxo Zegna, em Portugal, gastou R$ 30 mil em cinco peças de roupas em Fortaleza e compareceu a um evento em Nova York calçando um mocassim Hermès no valor de R$ 8,5 mil. Um exemplar digno de integrar a coleção de Imelda Marcos.

Leia também “No país da piada pronta, contar piada dá cadeia”

Leia mais sobre:

10 comentários
  1. Bibliófilo

    Esta mulherzinha de Lulle é uma desqualificada. Só sabe gastar o que não ganha.

  2. Antonio Carlos Neves
    Antonio Carlos Neves

    Prezado Elizário, algum preconceito contra Michelle Bolsonaro? Nenhuma qualidade?

  3. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Parabéns pelo artigo, Eliziário.
    Essa Janja é mala, e não subestimem a capacidade dessa criatura de se viabilizar candidata futuramente. Quando o Ladrão morrer, essa atriz vai fazer tanta cena e infelizmente terá gente que cairá na comoção. A escolhe deste apelido ”Janja” já é proposital para popularizar, como ”Lula”.

  4. José Antonio Moura Guimarães
    José Antonio Moura Guimarães

    … ela representa apenas uma deslumbrada ‘prosti’ de luxo amigada com um bandido contumaz, q deveria voltar a cumprir a sua pena na cadeia no Paraná!

  5. Edson Carlos de Almeida
    Edson Carlos de Almeida

    Por muito menos , Maria Antonieta foi guilhotinada.

  6. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    100 anos de sigilo para o cartao corporativo limitless da esbanja, com certeza!

  7. Sandra A. Hipolito
    Sandra A. Hipolito

    Em muito me preocupa a vontade da OESTE DE TER CABAL , frente a restrições e custo que fazem oscilar emissoras e que a amam bastante mãos de governos ou empresas mercenárias. Acredito que a TV OCUPANDO UM ESPAÇO ainda seria uma ótima alternativa, podendo transitar notícias estas consideradas fracas , quando a isenção de opinião.

  8. fabio de souza arcas
    fabio de souza arcas

    Quando perdulário casal deixar o poder o que será que descobriremos todos os gastos da nossa primeira dama? Seguramente não.

Anterior:
O legado da Independência americana
Próximo:
O êxodo venezuelano
publicidade