publicidade
Os blindados da Avibras, que já ocuparam importante espaço no mercado internacional, hoje estão com a sua produção paralisada: greve de funcionários dura mais de mil dias | Foto: Divulgação/Avibras
Edição 276

A decadência da indústria bélica brasileira

Agonia da Avibras simboliza cenário de degradação em que faltam planejamento e dinheiro, enquanto sobram burocracia e ameaças à segurança

No final da década de 1980, quem trafegava pela Rodovia Presidente Dutra dificilmente deixava de apreciar uma cena incomum. No limite entre os municípios de Caçapava e São José dos Campos, no Vale do Paraíba, era possível avistar uma fila de blindados. Tanques de guerra ocupavam as alamedas dentro de uma indústria que na época era um dos ícones do segmento brasileiro de defesa e segurança. Enquanto os conflitos fervilhavam no Oriente Médio, envolvendo especialmente Irã e Iraque, a Engenheiros Brasileiros S/A (Engesa) brilhava com uma linha de veículos para uso militar que chegou a rivalizar com os principais tanques norte-americanos. Os modelos Urutu, Cascavel e Osório rodavam em pelo menos 30 países. 

Em seu auge, quando era reconhecida como uma das maiores indústrias privadas de armamentos do Hemisfério Sul, com quase 7 mil blindados vendidos, a Engesa chegou a empregar 9 mil funcionários. O faturamento anual batia em meio bilhão de dólares ao ano. Convicta de que entrara em um virtuoso ciclo de crescimento, a empresa expandiu as suas operações com a abertura de uma segunda planta na Grande São Paulo. Era o momento, imaginaram seus executivos, de aumentar a produção, diversificar a linha de produtos e aproveitar o boom armamentista. Afinal, os equipamentos que vários países herdaram ou adquiriram das potências envolvidas na Segunda Guerra Mundial já exibiam o selo da obsolescência. A Engesa viu a revitalização dos arsenais como uma grande oportunidade. Só esqueceu de combinar o jogo com os norte-americanos.

O fenomenal Osório

O fenomenal avanço comercial do tanque Osório, que seria aprovado pelo exigente e bilionário governo saudita, incomodou o governo dos Estados Unidos. Com uma visão geopolítica desfocada, a Engesa queimou milhões de dólares na fabricação de mais tanques, além de caminhões e modelos mais leves. Os Estados Unidos não hesitaram em exigir que os países, entre eles a própria Arábia Saudita, desistissem dos Osórios e comprassem os seus M1 Abrams. O governo brasileiro lavou as mãos. A Engesa não suportou o peso do encalhe. Em 1993, depois de um melancólico definhamento, a empresa quebrou com uma dívida superior a US$ 200 milhões.

Tanque de guerra produzido pela Engesa modelo EE-T1 Osório | Foto: Divulgação

Mais de três décadas depois do fracasso da fabricante de tanques — cujo espaço fabril hoje é curiosamente ocupado pela Embraer —, a indústria bélica brasileira acusa um novo golpe. Desta vez, a protagonista é a Avibras Indústria Aeroespacial, que, na verdade, há muitos anos vem cambaleando. Agora, no entanto, ela expõe o momento mais agudo do seu declínio. De referência global em sistemas de artilharia de foguetes e veículos militares, a Avibras respira por aparelhos em meio a um processo de recuperação judicial. Deve cerca de R$ 1,5 bilhão e recentemente viu bater em mil dias a greve de seus funcionários. Segundo uma ex-integrante do alto escalão que foi morar na Europa, a companhia está inerte. “A Avibras não produz nada há dois anos. Sua última venda foi para Mali. Vendeu, tomou um calote e suspendeu as últimas entregas.”

Lançador de foguetes Astros produzido pela Avibras | Foto: Divulgação/Ministério da Defesa

Falta de garantia

A profissional revela que a Avibras jamais terminou o desenvolvimento de um míssil de cruzeiro (com alcance entre 500 e 2,5 mil quilômetros). O Exército, aliás, teria feito o pagamento, mas faltou a certificação. Ela conta ainda que as Forças Armadas compraram um míssil guiado de 150 quilômetros de alcance, mas o projeto não saiu do papel. A falta de fôlego financeiro, a má gestão da empresa e a burocracia do governo, diz a fonte, afastaram fregueses tradicionais, como a Malásia e o endinheirado Catar, que assinou um termo para a compra de diversos equipamentos, mas, desconfiado, pulou fora do negócio. “A Avibras nunca conseguiu executar o contrato por falta de garantia bancária. Não havia quem se dispusesse a correr o risco.”

Em meio a esse histórico traumático, os cerca de 900 funcionários que estão sem receber há mais de 26 meses vivem a expectativa de um respiro com o plano de recuperação homologado nesta terça-feira, 1º. Conforme decisão da 2ª Vara Cível de Jacareí, a Avibras deve começar em breve a pagar os atrasados do pessoal em 48 parcelas. A reportagem fez contato com a empresa. Eis a resposta: “A Avibras está passando por uma crise financeira severa com recuperação judicial em andamento e greve dos funcionários. A empresa está com as operações paralisadas”. Além da Avibras, a Akaer, outra companhia do Vale do Paraíba especializada em produtos de alta tecnologia para o setor de defesa, acumula dívidas e também vem atrasando o pagamento de salários.

Transportes de guerra produzidos pela Avibras | Foto: Divulgação

Embraer: um pequeno alívio

Por mais que a vizinha Embraer alivie o clima em razão do bom desempenho do seu cargueiro militar KC-390 e da aeronave de ataque leve Super Tucano, a situação é preocupante, dizem os especialistas. Alegando questões de agenda, a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde) não quis se pronunciar.

Outras fontes, no entanto, foram claras: por trás da decadência do setor há uma série de fatores. “A indústria de defesa brasileira paga pela falta de planejamento de longo prazo do governo, falta de dinheiro, dependência tecnológica estrangeira e ausência de políticas para formação de mão de obra técnica”, afirma um militar que trabalhou por dois anos no aparelhamento das Forças Armadas. Em condição de anonimato, ele disse que a teoria é boa, mas “a implementação é inconsistente por mudanças de governo, cortes orçamentários e falta de prioridades”. O especialista diz que projetos de longo ciclo, como o desenvolvimento de mísseis e submarinos, naufragam com as interrupções políticas.

Avião modelo KC-390 da Força Aérea Brasileira | Foto: Divulgação/FAB

O país dos projetos-piloto

Em um artigo intitulado O País dos Projetos-Piloto: Por Que Nada Escala no Brasil?, o mestre em ciência política Lucas Aragão escreve: “O Brasil virou um país especialista em testar sem transformar. Em fazer laboratório, mas não política pública. Um lugar onde ideias boas têm prazo de validade curto — geralmente o mesmo tempo de vida do mandato de quem as lançou”. Já Gunther Rudzit, professor de relações internacionais na ESPM, cita dois pontos como entraves à prosperidade das empresas bélicas no Brasil: a falta de um planejamento único dentro das Forças Armadas e a falta de investimento do governo.

A visão do professor coincide com a fala do presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Chamon. Segundo ele, é preciso “um projeto de Estado”, numa referência implícita aos interesses partidários que atrapalham o desenvolvimento. No 1º Seminário de Segurança, Desenvolvimento e Defesa no Ambiente Espacial, que ocorreu entre os dias 24 e 26 de junho, em Brasília, Chamon destacou a queda de investimentos nos últimos três anos.

Brasil investe pouco e gasta mal

Em um recorte sobre os programas espaciais, o dirigente comparou o Brasil com outros nove países (Estados Unidos, Rússia, Japão, China, Índia, Coreia do Sul, Austrália, Canadá e Israel). De longe, o governo Lula da Silva foi o que menos investiu, de acordo com o Banco Mundial. Foram apenas 0,002% do PIB em 2023. O volume é 123 vezes menor do que o dos Estados Unidos.

Numa visão ampla, a situação é mais alarmante. Pesquisa publicada em janeiro deste ano pelo jornal Folha de S.Paulo, com dados do Portal da Transparência, mostra que o Brasil investe pouco e gasta mal. O levantamento revelou que as Forças Armadas destinam atualmente cerca de 85% do orçamento (R$ 107 bilhões dos R$ 127 bilhões) para despesas com pessoal. Esse fluxo coloca o país bem distante do aceitável pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Avião da Força Aérea Brasileira | Foto: Divulgação/FAB

Um dos piores índices do mundo

Uma análise sobre os números mostra que apenas 5% das despesas totais vão para investimentos — um dos piores índices do mundo. A situação brasileira, comparada à realidade dos 29 países membros da Otan, expõe uma disparidade chocante. Apenas nove nações têm orçamentos em que mais de 50% são para pagar pessoal. Logo, o mau uso do dinheiro deixa de nutrir um setor que, querendo ou não, precisa do governo.

O setor produz equipamento de uso militar estratégico, que não dá para sair vendendo numa Shopee da vida. Essa comercialização depende de regulamentações internas e de acordos internacionais negociados no âmbito diplomático. É um processo complexo. Quando o governo tira o corpo fora, não só deixa no vácuo a sustentabilidade dos projetos, como enfraquece as empresas no xadrez das regras regulatórias.

Nas mãos dos árabes

Ou seja, sobreviver no Brasil dentro do segmento de defesa sem a ajuda do governo significa muitas vezes ceder à influência estrangeira. Um exemplo claro dessa situação é a SIATT, do setor de armamentos inteligentes. A empresa vive uma importante fase de expansão, mas possivelmente estaria na mesma draga de Avibras e Akaer, não fosse a entrada de um sócio dos Emirados Árabes, que, em 2023, começou a injetar R$ 3 bilhões em troca de 50% da companhia brasileira.

De acordo com o especialista que trabalhou nas Forças Armadas, esse caso ilustra a forte dependência do Brasil em relação ao dinheiro e à tecnologia estrangeiros. Sem eles, os problemas seriam muito maiores para produzir artefatos que vão de munição a torpedos, além de gestão do conhecimento. “A formação das equipes técnicas exige muita qualificação, tempo e recursos diversos. Com a descontinuidade, fica impossível manter essas equipes.” Na sua análise, o desmonte da indústria bélica brasileira não é apenas um problema econômico. “É uma ameaça real à soberania nacional. Sem autonomia tecnológica, sem capacidade industrial e sem mão de obra qualificada, o país torna-se refém de fornecedores estrangeiros até para proteger suas fronteiras.”

Governo subestima possíveis ameaças

Na opinião de Maurício Galante, ex-oficial da Marinha do Brasil e especialista em Sistemas de Armas, o Brasil está cada vez mais atrasado no desenvolvimento de uma plataforma bélica consistente. “Os mercados são dominados por indústrias gigantes, com forte apoio governamental, que intervêm junto a outros governos viabilizando ou dificultando uma venda.”

Primeiro brasileiro a se eleger vereador nos Estados Unidos, o republicano acredita que o atual governo brasileiro subestima as ameaças territoriais. Com Rússia, China, Coreia do Norte e Irã ampliando sua influência e arsenal, o mundo caminha para um cenário de confronto. Enquanto isso, o Brasil continua investindo cada vez menos, mesmo com riscos reais na região, como o conflito no Essequibo, na fronteira do Brasil com a Venezuela.

O fantasma da Engesa

De fato, o Brasil não tem demonstrado avanço nos investimentos em defesa. Enquanto os Estados Unidos e a China destinam 3,4% e 1,7% do seu PIB em segurança, respectivamente, o Brasil estacionou em 1,1% e na 18ª posição mundial. Nos EUA, empresas como Lockheed Martin, Boeing e Raytheon desenvolvem soluções em conjunto com o Pentágono. No Brasil, a Avibras luta para pagar salários. Nos EUA, militares e civis disputam vagas em centros de pesquisa de defesa. No Brasil, engenheiros abandonam o setor por falta de perspectiva. Pilotos da Força Aérea Brasileira pedem baixa na carteira, cansados de trabalhar como pilotos de ministros em viagens a passeio.

Enquanto o mundo mostra um apetite cada vez maior para se proteger, o Brasil recua e abre espaço para um ambiente favorável não só a interferências externas, mas a riscos de distúrbios patrocinados por milícias do narcotráfico. Já a indústria bélica nacional, apesar do esforço de algumas empresas, retrata a estagnação com forte tendência de retrocesso. É o reflexo de um segmento que já esteve entre os cinco maiores exportadores de armas leves do mundo, mas que agora parece flertar continuamente com o fantasma que liquidou a finada Engesa.

Leia também “A COP30 e sua vila da insensatez”

Leia mais sobre:

6 comentários
  1. Silvio Ramos Jr.
    Silvio Ramos Jr.

    Contudo, a nossa aproximação com a China segue de vento em popa.

  2. Luiz Fraga
    Luiz Fraga

    E, fazendo um paralelo, isso não acontece só na área de Defesa. Acontece, também, na Saúde, Educação, Infraestrutura… Não existe um Projeto de Nação.
    Somos resultado de um processo de colonização nefasto, que nos deixou como legado a cultura da corrupção, do “jeitinho”, do improviso, do patrimonialismo e da incompetência. E, como se não bastasse, temos agora a ideologia caolha pra terminar de empurrar ladeira abaixo o resto que sobrou.
    O Brasil é um projeto fracassado de País-nação.
    Só “intervenção divina” agora.

  3. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    E alguém tem dúvida do que é esse PT?

  4. Candido Andre Sampaio Toledo Cabral
    Candido Andre Sampaio Toledo Cabral

    Não todos, mas acredito que boa parte, pensando somente nos penduricalhos, como auxílios, gordas e precoces aposentadorias, e tudo mais.

  5. Robson Oliveira Aires
    Robson Oliveira Aires

    Enquanto isso o Filho de Belzebu, que governa o país, defeca pela boca mentiras, defendendo a soberania brasileira.

  6. Marcelo Martins
    Marcelo Martins

    As Forças Armadas também contribuem com esse cenário, no meu entendimento. Essa mania de querer transferência de tecnologia em tudo que compra, faz com que gastemos uma grande soma de dinheiro para capacitar pessoal, desenvolver o parque industrial para produzir os equipamentos. Veja os submarinos da classe Tupi: construímos 4 unidades mais 1 Tikuna e depois disso, tudo foi jogado às traças. O mesmo vai acontecer com os Scorpenes, vamos fazer apenas 4 e todo o pessoal em Itaguaí vai ser desmobilizado porque a Marinha não vai ter dinheiro para comprar mais. O mesmo já está acontecendo com as fragatas Tamandaré, onde já há riscos das últimas não serem concluídas. O Gripen sofre do mesmo problema com atrasos nas entregas porque a FAB não consegue concluir os pagamentos. E quando as entregas forem concluídas, os funcionários da fábrica em São Bernardo do Campo serão todos mandados embora, pois dificilmente haverá novas encomendas. Seria muito mais válido, do ponto de vista do uso do dinheiro, fazer compras de prateleira, ao invés de tentar desenvolver tudo aqui, pois o Governo nunca da continuidade nos orçamentos das Forças Armadas.

Anterior:
O êxodo venezuelano
Próximo:
O mosquito espião
publicidade