Cena 1
Você está assistindo a um jogo de futebol, sua família se diverte, a criançada corre, tem lanche na cozinha. Alegria geral. E então você vê um mosquito entrando na sua casa.
É apenas um mosquito. Ninguém percebe. Nem seu gato, sonolento, saiu à caça. Vida que segue. O mosquito se esconde atrás de uma cortina. É intervalo do jogo e você começa a discutir política com um primo.
A conversa fica tensa, você começa a dizer coisas que não devia. Xinga os governantes, clama por um levante popular. Seu primo discorda, e você passa a dizer coisas cada vez mais agressivas — e perigosas. No calor da discussão, seu primo comenta acontecimentos de sua vida que deveriam ser mantidos em segredo.
Cena 2
Alto comando militar. Oficiais e governantes do mais alto escalão discutem que atitude tomar com relação a uma ameaça de invasão das fronteiras do país.
Decisões estratégicas são tomadas. Como as fronteiras serão defendidas? Qual vai ser a forma do contra-ataque? Que armas deverão ser usadas? Como as tropas serão deslocadas para o cenário de combate? Os maiores segredos de Estado são debatidos na busca da melhor estratégia.
Nisso, um mosquito entra na sala de comando. E ninguém percebe.
Da revista TechLife News:
“A Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China desenvolveu um drone do tamanho de um mosquito, desenhado para operações militares secretas. O microdrone, exibido pela TV estatal, imita um inseto com um corpo em forma de palito, duas asas em formato de folha que batem como um inseto, e três pernas com a espessura de um fio de cabelo para pouso e decolagem. Um pouco maior que uma unha, foi construído para penetrar em espaços apertados, colher informações ou monitorar alvos sem ser notado, tornando-se um novo instrumento para o reconhecimento do campo de batalha.”
O microdrone foi apresentado no dia 20 de junho pela CCTV-7, o canal de divulgação da emissora militar chinesa. Mede dois centímetros e pesa 0,3 grama. Suas asas podem bater 500 vezes por segundo, segundo estimativa do jornal coreano Chosun Ilbo.
Ainda segundo a TechLife News, o microdrone chinês pode ser controlado por um smartphone e é fácil de operar. Os detalhes técnicos ainda são secretos, mas já se sabe que pode capturar imagens, áudio ou sinais eletrônicos. Ele se comporta como um mosquito, o que torna sua detecção difícil — e representa uma vitória da China no campo da microrrobótica.
Estamos falando de vanguarda tecnológica, portanto ainda sujeita a limitações. A duração da bateria é muito curta, a capacidade de carga obviamente é pequena, e é difícil de ser manobrado, especialmente se estiver ventando.
Os benefícios do mosquito
Não é só a China que está investindo nessa tecnologia de microdrones. A Noruega desenvolveu o Black Hornet 4, que tem o tamanho de uma mão. Ele consegue voar por quase 2 quilômetros e resiste ao vento.
O Departamento de Defesa dos EUA está usando o RoboBee, desenvolvido na Universidade Harvard. Ele tem o tamanho de uma moeda pequena, também tem um aspecto de inseto e pode tanto voar como navegar na água.
O RoboBee (“abelha-robô”) não foi criado para uso militar. Pode ser usado para monitorar plantações ou em operações de busca, pelo ar e pela água. Pense nos 12 meninos e um adulto que sofreram dias de terror na caverna Tham Luang, na Tailândia, em 2018. A operação de salvamento poderia ter sido muito mais eficiente se já existisse essa tecnologia de microdrones.
Em caso de guerra
Os “mosquitos” chineses fazem parte de uma estratégia mais ampla das Forças Armadas do país, segundo a revista TechLife News. A Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa está desenvolvendo robôs humanoides e drones lançados por artilharia que sobrevivem a forças intensas. Esses esforços revelam o foco em misturar biologia com tecnologia, criando máquinas que imitam a natureza para adquirir vantagem tática. O design do drone em forma de mosquito, com suas asas e pernas finas, reflete isto: a procura por uma espionagem que seja tão natural — e indetectável — quanto um inseto que passa por nós.
Drones já fazem parte da rotina das guerras. Especialmente a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Os dois lados atacam e contra-atacam com drones. Apontam para uma era em que a guerra poderá ser “terceirizada” pelas máquinas. Drone contra drone. Mais para a frente, robôs versus robôs.
O conflito entre Israel e Irã também mostrou o novo poder desses artefatos. Os iranianos atacaram com drones explosivos as populações civis das grandes cidades israelenses. Já Israel usou um microdrone de 1,5 quilo para entrar em Teerã, localizar o apartamento de um cientista do programa nuclear, entrar pela janela do seu quarto e explodir o equivalente a uma granada. O resto do edifício ficou intocado. Esses tipos de drones são cirúrgicos.
A Turquia se tornou um grande produtor de drones militares, usados pelos ucranianos contra os russos. Os Estados Unidos resolveram multiplicar suas frotas após o 11 de Setembro. Segundo o Wall Street Journal, o mercado de pequenos drones já atingiu o primeiro bilhão de dólares só na Califórnia. E somente 2% dessa produção vai ser usada para uso militar.
Na lojinha
Hoje, mais de 100 países possuem algum tipo de frota de drones militares. Mais de 40 dessas nações operam drones armados. As frotas restantes usam drones não armados para vigilância, reconhecimento, logística ou guerra eletrônica.
Mas a novidade da China nos faz voltar a um princípio básico — o de que os avanços da tecnologia não são bons ou ruins em si, mas dependem das intenções de quem os usa. O “mosquito” só poderia ser inventado por um regime controlador como o chinês. Hoje, pode ser usado no campo de batalha ou em instalações militares inimigas. Amanhã poderá estar entrando nas casas de dissidentes e “inimigos do regime”.
E quem sabe depois de amanhã o mosquito espião não esteja disponível numa lojinha de eletrônicos à disposição de maridos desconfiados, quadrilhas de assaltantes ou voyeurs em geral?
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
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Vindo da China, capaz do governo ditatorial adquirir para adentrar e se hospedar nas cortinas das residências chinesas.