A maneira como a Polícia Federal (PF) organiza arquivos extraídos de celulares, por meio de um software chamado Indexador e Processador de Evidência Digital (Iped), levanta dúvidas sobre as alegações do ministro Alexandre de Moraes a respeito de registros encontrados no telefone do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. É que mostra uma reportagem publicada neste domingo, 8, no jornal O Estado de S. Paulo.
O sistema usado pela PF mostra que arquivos colocados na mesma pasta não necessariamente têm relação entre si. O programa os organiza automaticamente, com base no chamado hash — uma sequência de letras e números criada para cada arquivo, que funciona como uma espécie de “impressão digital” usada pelo sistema para armazenar os dados. Para Moraes, contudo, os arquivos da Polícia Federal compartilhados com a CPMI do INSS seguem uma estrutura na qual os prints de texto são armazenados nas mesmas pastas em que constam os dados dos contatos das pessoas para quem o banqueiro os enviou.
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A estrutura do software é pública desde 2019 e pode ser consultada na plataforma GitHub, onde está disponível a documentação técnica do Iped.
Como funciona o sistema
O Iped começou a ser desenvolvido em 2012 por técnicos da PF liderados pelo perito criminal Luís Filipe da Cruz Nassif. O software é usado para organizar e analisar dados extraídos de dispositivos eletrônicos, como celulares e computadores, durante investigações.
Depois da coleta de dados, os arquivos são processados automaticamente pelo programa. A organização ocorre por meio de indexação baseada em hash, modelo comum na perícia digital e em grandes bancos de dados.
Cada arquivo recebe uma sequência única de caracteres. O programa usa os primeiros dígitos dessa sequência para definir em qual pasta o arquivo será armazenado. Por causa disso, arquivos sem relação entre si podem aparecer na mesma pasta apenas porque seus hashes começam com os mesmos caracteres.
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Entre os mais de 200 arquivos extraídos do celular de Vorcaro e compartilhados pela PF com a CPMI do INSS, há casos em que documentos diferentes aparecem agrupados em uma mesma pasta.
Em um exemplo citado pela reportagem, três arquivos foram colocados juntos pelo sistema: 1) um print do bloco de notas de Vorcaro, feito às 19h58 de 17 de novembro de 2025, poucas horas antes da prisão do banqueiro; 2) um arquivo de contato (formato VCF) do presidente do União Brasil, Antonio Rueda; e 3) um arquivo de texto com anotações diversas. Os três arquivos possuem hashes iniciados pelos números 6 e 2. Por isso, o Iped os colocou automaticamente dentro de uma pasta “6” e, dentro dela, em uma subpasta “2”.

Segundo especialistas consultados pelo jornal, essa proximidade não sugere que os conteúdos estejam relacionados.
Outro caso citado
Situação semelhante ocorre com dois arquivos guardados em outra pasta: um print de texto feito por Vorcaro e um arquivo de contato atribuído à advogada Viviane Barci de Moraes. O escritório dela firmou contrato de cerca de R$ 130 milhões por três anos com o Banco Master. Viviane é casada com o ministro Alexandre de Moraes.
No sistema, os dois arquivos aparecem juntos apenas porque seus hashes começam com os dígitos 6 e 3.
Em nota, Viviane afirmou que não recebeu mensagens de Vorcaro. Rueda também negou ter sido destinatário de qualquer texto.

Estrutura descrita no código
A lógica de organização está explicitamente descrita no código do programa. Os arquivos são colocados dentro de uma pasta chamada “arquivos”, que por sua vez fica dentro da pasta “exportados”.
Dentro de “arquivos” existem 16 subpastas, cada uma nomeada de acordo com o primeiro caractere do hash. Dentro delas há novas subpastas definidas pelo segundo dígito. Esse modelo permite que sistemas localizem rapidamente os arquivos durante análises forenses.
Um especialista ouvido pela reportagem comparou o método à organização de livros em uma biblioteca. Obras completamente diferentes, por exemplo, poderiam acabar na mesma prateleira apenas porque seus títulos começam com as mesmas letras.






































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