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Uma resolução reparadora: o Congresso norte-americano e o repúdio ao socialismo

'Repudiar o socialismo é, antes de tudo, restaurar a hierarquia moral entre vítima e algoz'

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'Desde a época de Sartre, o comunismo foi — e continua sendo — um catalizador de utopias' | Foto: Reprodução/Shutterstock

O filósofo Jean-Paul Sartre escreveu certa vez que, para os homens de sua geração — nascidos no início do século 20 —, o evento mais decisivo não haviam sido as duas grandes guerras mundiais, mas a ascensão do socialismo e a fundação do Estado comunista na Rússia.

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De fato, desde a época de Sartre, o comunismo foi — e continua sendo — um catalizador de utopias. Por todo o mundo, jovens e adultos seguem ostentando a foice e o martelo em camisetas, bottons e bandeiras, como se exibissem um distintivo de rebeldia moral. Che Guevara, o guerrilheiro que transformou o fuzilamento em profissão de fé, conserva até hoje uma aura beatífica nos campi universitários. No Ocidente (e especialmente na América Latina) sobrevivem partidos declaradamente comunistas, herdeiros tardios da Internacional Socialista dos tempos soviéticos. E o fato é que o comunismo, enquanto símbolo de justiça e igualdade, ainda desfruta de prestígio, apesar da calamidade humanitária legada pelos regimes que o aplicaram.

Comentando a disparidade entre o tratamento concedido pelo Ocidente ao comunismo e ao nazismo — apesar da maior letalidade do primeiro — escreveu Alain Besançon em A Infelicidade do Século:

“A memória histórica, no entanto, não os trata igualmente. O nazismo, apesar de completamente extinto há mais de meio século, segue sendo, com razão, objeto de uma execração que não diminui com o tempo. […] O comunismo, em compensação […] beneficiou-se de uma amnésia e de uma anistia que colhem o consentimento quase unânime […] Nem uns nem outros sentem-se confortáveis para tirá-lo do esquecimento”.

Deputados dos EUA x socialismo

A iniciativa de repudiar o socialismo nos Estados Unidos partiu da deputada republicana María Elvira Salazar | Foto: Reprodução/Flickr
A iniciativa de repudiar o socialismo nos Estados Unidos partiu da deputada republicana María Elvira Salazar | Foto: Reprodução/Flickr

É justamente diante dessa assimetria moral que se torna louvável a resolução recentemente aprovada na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em repúdio ao socialismo. Sua propositora, María Elvira Salazar — cuja biografia é, por si só, um tratado empírico sobre os efeitos do socialismo real — limitou-se a recordar o óbvio que tantos se esforçam por esquecer: a ideologia que hoje arranca suspiros da elite cultural ocidental é a mesma que encheu de cadáveres o século passado. Lenin, Stalin, Mao, Castro, Pol Pot… um rosário de horrores que a esquerda acadêmica tenta dissolver na fórmula mágica das “contradições do processo histórico”, artifício retórico com que converte crimes em sociologia.

A resolução, no entanto, presta um serviço civilizacional que transcende a disputa partidária: ela resgata o senso de autoconservação — precisamente o primeiro a desaparecer em sociedades intelectualmente fatigadas. Repudiar o socialismo é, antes de tudo, restaurar a hierarquia moral entre vítima e algoz, distinção que a esquerda contemporânea, mestre da inversão dos valores, considera um pecado mortal.

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No fundo, a resolução norte-americana é um lembrete incômodo aos devotos da ingenuidade progressista: nenhuma sociedade que corteja o totalitarismo permanece inocente. Como ensinava Raymond Aron, o maior drama do século 20 não foi a força dos revolucionários, mas a fragilidade intelectual dos democratas. Por isso, a iniciativa vale menos pelo conteúdo do que pela coragem — essa virtude burguesa que revolucionários desprezam e que o Brasil, sempre retardatário na história, ainda reluta em cultivar.

Quem sabe um dia tenhamos por aqui um Parlamento capaz de condenar o socialismo com a mesma lucidez americana — ou, ao menos, capaz de reconhecer que o socialismo destrói consciências antes de destruir economias. Talvez seja justamente por isso que tantos continuam a venerá-lo.

Leia também: “Um socialista muçulmano em Nova York”, artigo de Rodrigo Constantino publicado na Edição 295 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. Egas Moniz Pascoal Batista
    Egas Moniz Pascoal Batista

    É sempre bom ler seus artigos. Ao lê-los, sinto-me não estar sozinho, o absorver de suas lúcidas argumentações nos faz mais fortes, nos traz coragem. Muito obrigado.

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