Quase nove anos depois do desaparecimento do pastor Raymond Koh, a Suprema Corte da Malásia reconheceu oficialmente que ele foi vítima de sequestro forçado e responsabilizou policiais e o governo do país pelo caso.
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Mulher do pastor, Susanna Liew classificou a decisão, anunciada em novembro do ano passado, como “um marco histórico e emocionante”, segundo declarou à BBC.
Raymond Koh desapareceu em 13 de fevereiro de 2017, aos 63 anos, em Kuala Lumpur, depois de ser abordado por homens mascarados em plena luz do dia. A ação, meticulosamente executada e registrada por câmeras de vigilância, durou apenas alguns segundos e gerou grande repercussão nacional. Nenhum pedido de resgate foi feito, e a família logo percebeu que o caso fugia ao padrão de sequestros comuns.
Desaparecimentos similares e pressão popular na Malásia

O desaparecimento do pastor foi precedido, em novembro de 2016, por crime semelhante contra o ativista Amri Che Mat, no norte da Malásia. Ambas as famílias buscaram a imprensa, e imagens dos sequestros circularam amplamente, impulsionando pressão popular.
Em resposta, a Comissão de Direitos Humanos da Malásia e o governo abriram investigações independentes sobre os desaparecimentos.
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Durante as investigações, surgiram suspeitas sobre o envolvimento da divisão especial da polícia, principal órgão de inteligência do país. Apesar das negativas das autoridades, um policial revelou à mulher de Amri, em maio de 2018, que a divisão especial executou ambos os sequestros, motivada por acusações de conversão religiosa.
A comissão de direitos humanos confirmou a versão, depois de identificar inconsistências nas negativas oficiais.
Evidências como o avistamento de um Toyota Vios dourado, presente nos dois sequestros, reforçaram o elo policial. Em 2019, o relatório da comissão concluiu que a divisão especial agiu contra Raymond Koh e Amri Che Mat por suposta ameaça ao islã.
O documento impulsionou nova investigação governamental, que entendeu o caso de forma semelhante e sugeriu como principal suspeito Awaludin bin Jadid, então chefe da unidade de extremismo social.
Decisões judiciais e indenizações históricas

Na Justiça, Susanna Liew processou oficiais do alto escalão da polícia, a Polícia Real da Malásia e o governo. A essas instituições, ela atribuiu o desaparecimento forçado do marido.
Em decisão recente, a Suprema Corte determinou que “um ou mais” dos réus foram responsáveis pelo crime e estabeleceu a responsabilidade do Estado. Além disso, determinou indenização milionária e o pagamento de 10 mil ringgits (aproximadamente R$ 11 mil) por dia de desaparecimento. O valor acumulado já supera 32 milhões de ringgits (próximo a R$ 35 milhões) e pode se tornar a maior indenização do país.
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Os pagamentos só devem ocorrer depois do esclarecimento do paradeiro de Koh. Norhayati, mulher de Amri, também venceu processo semelhante e obteve indenização milionária.
O governo recorre das decisões e alega questões financeiras e o compromisso com a justiça universal, além de manter as investigações em andamento.
A ausência de respostas definitivas agravou o sofrimento da família de Koh, que enfrentou dificuldades financeiras e emocionais. Susanna relatou que seu interrogatório durou cinco horas na delegacia, no qual tratou sobre possíveis tentativas do marido de converter muçulmanos. Ela classificou o episódio como “traumatizante”. Posteriormente, um policial admitiu que seguiu ordens superiores por Koh ser pastor.
Repercussão e luta por justiça na Malásia
Acusações de apostasia contra Raymond Koh surgiram em 2011, depois de ele organizar uma festa na igreja com presença de muçulmanos. Elas, contudo, não resultaram em punições.
Desde então, a família sempre negou envolvimento em conversões religiosas. Susanna afirma que a polícia dificultou a busca por respostas e criou falsas pistas, postura que a família entende como tentativa de encobrir o envolvimento estatal no crime.
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Susanna compartilhou que o luto e a incerteza prejudicam a possibilidade de seguir em frente. “Se soubéssemos que ele está morto e tivéssemos o corpo, ao menos poderíamos enterrá-lo e seguir”, afirmou à BBC. “Mas, neste momento, estamos em um limbo. Não sabemos: ele está morto ou vivo? E isso nos afeta muito.”
O tempo auxiliou a família a buscar superação. Susanna, inspirada pelo apoio de terapeutas, se prepara para atuar na área e relata encontrar alívio ao compartilhar sua história e denunciar desaparecimentos forçados. Em 2020, recebeu a medalha Mulheres de Coragem dos Estados Unidos, que reconheceu sua atuação internacional.

Susanna afirma que perdoou os envolvidos no sequestro do marido, mas mantém a busca por justiça. Ela pede a criação de órgãos de fiscalização policial, comissão de inquérito e força-tarefa para identificar todos os responsáveis. Até hoje, nenhum dos policiais citados foi preso nem punido; um deles chegou a ser promovido.






































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