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'Falta de conhecimento', diz Peña sobre rejeição de agricultores europeus ao acordo com Mercosul

Para o presidente paraguaio, o tratado recoloca o bloco sul-americano no mapa global

Santiago Peña, presidente do Paraguai | Agéncia IP/Divulgação
Santiago Peña, presidente do Paraguai | Divulgação/Agéncia IP

Anfitrião da assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, concretizada neste sábado, 17, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirma que o tratado tem potencial para recolocar a integração entre a Europa e a América do Sul em movimento e para reposicionar o bloco sul-americano no cenário global.

A cerimônia ocorreu em Assunção, a mesma cidade onde, em 1991, foi assinado o tratado que deu origem ao Mercosul. Para Peña, o simbolismo do local reforça a ambição paraguaia de se consolidar como polo de integração regional.

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“Para nós, trata-se de retornar às nossas raízes”, disse, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Segundo ele, Assunção carrega uma tradição histórica de articulação política e econômica: “O Mercosul nasceu no Paraguai. Então, hoje, este acordo, o maior do mundo entre a Europa e o Mercosul, foi assinado. Para nós, ele tem valor, mas também reafirma quem somos.”

Top officials from the EU and the South American bloc Mercosur signed a free trade agreement on Saturday in Paraguay, paving the way for the European Union's largest-ever trade accord after 25 years of negotiations. The agreement, designed to lower tariffs and boost trade between the two regions, must now gain the consent of the European Parliament and be ratified by the legislatures of Mercosur members Argentina, Brazil, Paraguay and Uruguay.
Líderes da União Europeia e do Mercosul durante a cerimônia de assinatura do acordo | Foto: Reprodução/X

O presidente avaliou que o longo tempo de negociação — mais de 25 anos — representou uma oportunidade perdida para os europeus. “A Europa perdeu a oportunidade de desenvolver o Mercosul e a América Latina.” Peña, de 47 anos, é presidente do Paraguai desde 2023. Economista, ele já foi diretor do Banco Central do país e ministro da Fazenda.

Ainda assim, Peña vê o acordo como uma chance estratégica para ambas as regiões. De um lado, destacou o potencial sul-americano em alimentos, transição energética e população jovem; de outro, apontou os desafios europeus ligados ao envelhecimento demográfico e à crise energética agravada pelo conflito com a Rússia.

Na avaliação do paraguaio, o tratado pode ampliar investimentos e acesso a mercados. “É uma oportunidade de colocar o Mercosul no mapa, de sermos vistos, e isso permitirá mais investimentos, maior acesso ao mercado e mais oportunidades para o nosso povo”, avalia.

Peña reiterou que a estratégia do Paraguai passa pelo fortalecimento do bloco. “É tudo dentro do Mercosul. Consideramos o bloco a nossa melhor plataforma.” Ele listou acordos já firmados com Cingapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio, além de negociações defendidas com países como Japão, Coreia do Sul, Canadá e Emirados Árabes Unidos.

Sobre a resistência de agricultores europeus ao acordo, o presidente atribuiu a reação à desinformação. “Falta de conhecimento. Eles não nos conhecem”, disse, argumentando que produtores sul-americanos compartilham práticas semelhantes às dos europeus. Para ele, o tratado pode aproximar realidades que, na prática, não são tão distintas.

Peña não descarta retorno da Venezuela ao Mercosul

Peña também se manifestou favoravelmente a um eventual retorno da Venezuela ao Mercosul, desde que haja normalização política no país. “Se houver eleições e o povo venezuelano eleger um presidente, tenho certeza de que eles voltarão a fazer parte do Mercosul”, afirmou.

Bandeiras de países do Mercosul
Bandeiras de países do Mercosul | Foto: Tom Costa/MJSP

Ao comentar o papel das lideranças regionais na conclusão do acordo, Peña destacou a convergência política atual no bloco e elogiou o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. “Isso não teria sido possível sem a liderança do presidente Lula. Foi fundamental.”

Questionado sobre a ausência do petista na cerimônia em Assunção, o presidente paraguaio afirmou que o tema foi tratado como um ato ministerial. “Foi por isso que ele não veio”, explicou, acrescentando que mantém “um bom relacionamento” com o presidente brasileiro.

As relações bilaterais entre Brasil e Paraguai, segundo Peña, estão em bom momento, apesar de episódios recentes de tensão, como o caso de espionagem envolvendo a Agência Brasileira de Inteligência. “Para nós, é um capítulo encerrado”, afirmou. Ele disse que o governo paraguaio recebeu explicações formais e que não faz sentido “se apegar ao passado”.

As negociações sobre a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, que trata das bases financeiras da usina binacional, já foram retomadas. Segundo Peña, o objetivo é projetar a hidrelétrica para as próximas décadas.

“Precisamos projetar uma Itaipu para os próximos 50 anos.” Ele defendeu investimentos em modernização das turbinas e até no uso de painéis solares no reservatório.

Para o presidente, o futuro energético é central na relação entre os dois países. “Não há energia suficiente para atender às necessidades que surgirão nos próximos anos.” Peña destacou o papel estratégico de Itaipu para manter Brasil e Paraguai entre os líderes mundiais em energia limpa e renovável.

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