Direcionei minha vida para um terreno intelectual, todavia, minha criação foi a mais comum que um menino do interior pode ter: escola, brincadeiras, obrigações religiosas, videogames baratos, filmes e desenhos de TV, e futebol na rua ou na praça. O cosmos comum de um garoto nascido no início dos anos 1990. Fui criado longe dos livros, ninguém em minha casa, salvo uma tia advogada — relativamente afastada de meu convívio — que nutria certa experiência de leitora e amabilidade com os livros.
Meu primeiro livro lido — completamente lido — se deu apenas aos meus 19 anos. Até então, lia por obrigação escolar, somente. Até que um dia, vendo um amigo vizinho falar sobre Dostoiévski — amigo esse, sim, intelectualizado e até mesmo erudito —, foi que tive uma vontade genuína de ler e entender, sentir como ele, aquela calefação e incômodo intelectual que Crime e Castigo aparentava trazer.
Receba nossas atualizações
Como não era conhecedor de literatura, muito menos de alta literatura, contentei-me em ouvir meu amigo Raul falar sobre as descrições profundas da mente humana feitas pelo autor russo, principalmente — dizia ele — por meio do personagem principal da trama, Raskólnikov. Falava Raul sobre os embates morais profundos do personagem assassino, e como o ambiente claustrofóbico do texto trazia para fora das páginas a realidade esquecida pela contemporaneidade, isto é, a consciência resoluta e implacável que nos acompanha. Por assim dizer, um verdadeiro imperativo categórico da psique dos homens.
+ Leia mais notícias de Cultura em Oeste
Aquela conversa me deixou profundamente inquieto, por dois motivos: aquele dedo cutucante de Sócrates me atingiu, eu notei minha profunda e miserável ignorância, ao ponto de, numa longa conversa sobre livros, o sustentáculo cultural da civilização, eu não ter sequer meia palavra para comentar nada; e, depois, a curiosidade me agitou, pois como seria possível um autor russo poder entrar na mente humana, galgar braçadas exploradoras na psique do homem, tudo isso por meio de uma ficção sobre um assassino melancólico, pobre e fraco? Como pode letras russas descortinar a alma e o espírito?
Como surgiu um leitor

Esta conversa aconteceu numa sexta-feira, e no dia seguinte eu iria ao cinema com uma namoradinha. Lembro-me de ter chegado um pouco mais cedo que ela, e buscado numa banca de jornal que sempre fazia promoções de livros, instalado como lojas-ilhas nos corredores do Shopping Vale-Sul de São José dos Campos (SP), encontrei o famigerado Crime e Castigo de Dostoiévski. A edição que comprei foi a da L&PM Pocket, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes. Lembro-me inclusive do preço: R$ 25,99. Depois do cinema, deixei a garota em sua casa e fui para a minha, entrei em meu quarto por volta das 21 horas e, sentado em minha cama, comecei a ler o livro.
Mais artigos de Pedro Henrique Alves
Era uma leitura desafiadora, não me lembrava de ter enfrentado tamanha dificuldade em um texto até então. Mas me forcei e, lá pela página 9 ou 11, estava imerso no enredo, apesar de quase ter um AVC a cada tentativa frustrada de ler os nomes russos cheio de consoantes desnecessárias, aos poucos eu conseguia entrar cada vez mais na história e notar as nuances das descrições de Dostoiévski. Naquele dia li o livro até meia noite, dormi sem tomar banho, eu simplesmente não conseguia pensar em nada além do que o autor russo narrava. Por fim, a leitura foi rápida, o terminei em seis dias. Naquela semana abdiquei do videogame, de saídas, séries, e de muitas coisas para ler o livro por horas.
Sei que para um leitor o ambiente não é tudo. Conheço pessoas que nasceram envolta de livros e não se interessam nem um pouco por eles, e outras que, do PDF a livros emprestados de bibliotecas (sem nunca terem tido incentivo para isso), buscam a leitura como modo de vida sem precisar que ninguém pregue a elas a relevância suprema da alta cultura.
“Bem verdade que para se tornar um leitor é necessário prática, constância e esforço”
Mas a mim é muito claro como um ambiente voltado à erudição e ao debate, não aquele piedoso e piegas, feito para elevar o próprio ego, falo daquele meio feito até mesmo com certo linguajar e postura despreocupadas, algo e cotidiano, ainda que focado em grandes ideias. Enfim, um ambiente assim tem o poder real de transformar um campo árido de distrações e ações sem propósito em hábitos intelectuais de profundidade e amadurecimento pessoal. É bem verdade que para se tornar um leitor é necessário prática, constância e esforço, mas tudo isso se torna mais fácil quando o ambiente e as amizades conseguem cultivar o interesse e o fascínio pela literatura.
Leitura solitária

A leitura, aliás, sempre foi descrita como um ato solitário, e é claro que esta dimensão é óbvia demais para ser simplesmente negada. Eu mesmo li Crime e Castigo trancado, sozinho, em meu quarto, mas ao mesmo tempo, fui incentivado por um terceiro, e depois de terminá-lo, estava ansioso para falar sobre, para voltar àquele debate com meu amigo, pois agora eu entendia, agora eu tinha o que compartilhar.
A leitura é solitária, mas o compartilhamento das ideias, das reflexões e do entusiasmo, pode e deve ser público. Sinceramente, não sei se teria me tornado leitor se naquela saudosa sexta-feira eu não tivesse encontrado o Raul, e não tivéssemos nos envolvido no assunto: Dostoiéski. Um diálogo ao acaso, sobre um livro, levou-me a ser leitor, ser leitor me levou a encontrar minha profissão como editor, compartilhar experiências literárias com escritores e no próprio ato de fazer livros. Ora, isso me tornou um bibliófilo assumido — um confesso leitor contumaz e feliz.
Leia mais:
Para me encaminhar ao final do ensaio, gostaria de compartilhar uma conversa com uma adolescente ocorrido há cerca de um mês pelo meu Instagram. Uma ex-aluna me perguntou como ela poderia se tornar leitora de fato, pois ela via como eu, segundo suas palavras: “Era empolgado com os livros” e como isso “parece legal”, e para ajudar, a sua nova amiga tinha o hábito de ler e falar com ela sempre sobre os romances que lia.
Dicas para novos leitores

A incentivei primeiro a escolher um livro que a interessasse, seja pela sinopse, indicação ou até mesmo pela capa, que ela fizesse isso sem preconceito. Depois, disse para ela se cercar de amigos ou alguma comunidade leitora, buscar interagir com outros leitores, conversar sobre livros, assistir filmes baseados em livros, e ler aqueles livros em que os filmes que ela já gosta foram baseado.
O segundo foi mais fácil a ela, pois a amiga de cursinho era voraz nisso. Na última segunda-feira, a menina me chamou de novo no direct do Instagram, afirmando que acabara de ler O Ceifador de Neal Shusterman, livro que escolheu pela minha resenha aqui nesta coluna. Disse ainda que no começo foi difícil, cansativo, mas que aos poucos ela entrou na trama e lia cerca de 50 páginas ao dia; disse que já havia comprado a sequência da trilogia distópica e que, por impulso, comprou também Heidi de Johanna Spyri, livro que eu havia indicado a ela em nossa primeira conversa Em tom de brincadeira, falei a ela: “Pois bem, você já compra livros por impulso, está oficialmente a meio caminho de ser uma leitora ‘psiquiátrica’ como eu”.
“O livro é um hábito que nos transforma de dentro para fora, que chacoalha nossas raízes, cutuca nossas feridas e também cicatriza outras”
A leitura demanda esforço, atenção e continuidade apesar das dificuldades, sejam elas mentais, sociais ou até mesmo políticas e econômicas. O leitor é feito a partir da persistência e do encanto. E quando ser um leitor já é uma realidade, aí a coisa muda bastante, pois é mais difícil deixar de sê-lo do que se tornar um.
O livro é um hábito que nos transforma de dentro para fora, que chacoalha nossas raízes, cutuca nossas feridas e também cicatriza outras, nos faz ver a realidade por ângulos que jamais seríamos capazes de enxergar pela mera vivência e experiência comum. A leitura nos torna eruditos, comedidos e mais perspicazes, pois retira de nossa alma a afobação, a mesquinhez e o simplismo. E se tem uma coisa que a literatura faz é nos nos encarregar de viver centenas, quiçá, milhares, de vidas em apenas uma.
Leia também: “Um universo que resiste, se reinventa e conquista novos leitores”, reportagem de Letícia Alves publicada na Edição 271 da Revista Oeste












































sou leitora assídua desde adolescente, à época eu não podia comprar livros mas, para minha sorte e biblioteca municipal era ótima lá, à noite li crime e castigo, os irmãos karamazov, o mestre e margarita, a leste do eden, entre tantos outros, ler é maravilhoso
Um livro aberto e um amigo que fala!