Quando László Krasznahorkai foi anunciado como o ganhador do Nobel da Literatura de 2025, a editora Companhia das Letras correu para anunciar que publicaria duas obras inéditas do autor. Conhecido por Sátántangó, traduzido para o português em 2022, o húngaro foi celebrado pela Academia Sueca “por sua obra contundente e visionária, que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma a força da arte”. E, agora, o leitor brasileiro poderá confirmar isso com O Retorno do Barão de Wenckheim, lançado nesta quarta-feira, 10.
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Em sinopses, a obra é sintetizada como a história do personagem titular, que, depois de décadas de exílio na Argentina, retorna para sua terra e é visto pela população húngara como um salvador endinheirado, quando, na verdade, está afundado em dívidas de jogo. Embora tudo isso esteja no livro, o resumo é insuficiente para explicar a obra de Krasznahorkai ao literato mais desavisado.
Um Nobel da Literatura justificado pelo estilo
O que brilha em O Retorno do Barão de Wenckheim é a própria linguagem, mesmo que o estilo do escritor não seja para todos. Inspirado por autores clássicos, como Franz Kafka e Thomas Mann, o húngaro constrói suas narrativas dentro de uma estética muito associada ao movimento pós-modernista.
“O estilo de Krasznahorkai consiste em frases longas e sinuosas que muitas vezes se estendem por várias páginas”, define a própria Academia Sueca. Para isso, ele utiliza milhares de vírgulas e apenas algumas centenas de pontos finais. “Pode-se dizer que esse estilo fluido se assemelha a um fluxo interno de pensamentos e palavras, às vezes chamado de ‘fluxo de consciência’.”
Por essas escolhas, o próprio Krasznahorkai acaba sendo o grande destaque do lançamento. Afinal, o livro só menciona o tal do barão na 76ª página — ele chega ao Brasil com um total de 512 páginas. É um caminho árduo, especialmente para quem nunca leu nada do autor (recomenda-se começar por Sátántangó). Mas pode ser bastante recompensador.
Deus e o ponto final
O novo livro é um em que húngaro equilibra melhor o seu uso da melancolia para fins cômicos. No mesmo grau em que o cenário gera incômodo, especialmente pela prosa labiríntica e repleta de simbolismo, o desfecho coloca os personagens em um cenário capaz de arrancar um sorriso do leitor. A ironia é o grande trunfo do húngaro, além de sua capacidade de gerar questionamentos.
Em 2026, a Companhia das Letras deve publicar outra obra de Krasznahorkai, chamada Herscht 07769. Ela acompanha um limpador de pichações que crê na chegada do fim do mundo. Para tentar alertar a todos, o personagem chamado Florian Herscht escreve cartas para Angela Merkel, ex-chanceler da Alemanha. Mesmo com a trama inusitada, o que chama atenção novamente é o próprio escritor: ele criou Herscht 07769 em uma única frase. Ou seja, só há um ponto final.
Ao Nobel, Krasznahorkai afirmou que não confia em frases curtas. Ele crê que as pessoas não falam com pontos finais, mas com vírgulas. “O ponto final não pertence aos seres humanos, pertence a Deus.”
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