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Cultura

'A literatura contemporânea imagina muito, mas pensa pouco', diz Carlos Nejar

Imortal da ABL publica romance inédito em meio a cenário de encolhimento cultural

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Imortal da ABL, Carlos Nejar é poeta e ex-promotor do Ministério Público do Rio Grande do Sul | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Carlos Nejar não sente o peso da imortalidade. O título concedido pela Academia Brasileira de Letras, segundo ele, emagrece. “E eu emagreci muito ultimamente”, relata o escritor, de 86 anos, a Oeste. Guardião da cadeira número 4, que já foi de Aluísio Azevedo, o gaúcho fala como sua poesia: desenvolve as ideias com calma e constrói as frases com o zelo de um ourives diante de metais raros.

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“Eu deixo que as palavras me inventem”, afirma, ao descrever sua relação com a escrita. Não à toa, ao longo de sua vida octogenária, foi descrito por um punhado de substantivos. “Escritor”, “poeta”, “pastor” e até “promotor”, quando atuou nas comarcas do Rio Grande do Sul. Mas nada disso parece contê-lo. “A literatura sempre foi maior do que eu. E, se fosse menor do que eu, seria muito pequena.”

Desidério, ou o Gênero Humano

Nejar é um dos primeiros autores anunciados no rol da Pessôa Editora, que estreia neste mês em formato de clube do livro. A primeira obra enviada aos assinantes será seu novo romance, Desidério, ou o Gênero Humano. “É um romance filosófico, com um quê de humorístico e curioso”, explica o editor Matheus Araújo, fundador da Pessôa e amigo do escritor.

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Capa de Desidério, ou o gênero humano, novo livro de Carlos Nejar | Foto: Divulgação/Pessôa

O livro narra a história de um cachorro que entra em uma biblioteca e devora um exemplar de Dom Quixote, clássico de Miguel de Cervantes. Seguindo a tradição simbólica do castelhano, Nejar usa o animal para refletir sobre a moralidade do homem. “O animal tem que alcançar o humano”, diz. “Sempre há possibilidade de o homem voltar à sua humanidade integral.”

A proposta da editora é ajudar o leitor nessa metamorfose. Para Araújo, a literatura ainda é o caminho mais eficaz. Com entregas mensais, o objetivo é incentivar “a tentativa — sempre falha — de tocar o que ainda não se tornou palavra”. Nejar se mostra animado com o formato. “É o grande caminho hoje, com o que está ocorrendo com as livrarias.”

Literatura e cultura são reféns da ideologia

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, mais da metade dos brasileiros não lê livros. “Houve, lógico, um grande encolhimento cultural”, afirma Nejar. “A imagem tenta substituir a palavra. Mas a imagem jamais terá a profundidade da palavra.”

O poeta relaciona essa perda à crescente digitalização do mundo. “Nós devemos ajudar a levantar o nível dos leitores, que está lá embaixo”, diz. “A leitura exige esforço. Sem exigência, não chegamos a nada. Há uma mediocridade pulsante no ar.”

Nejar também culpa parte dos escritores por afastar o público. “A ficção contemporânea imagina muito, mas muitas vezes não sabe pensar”, crava. “Hoje é um momento em que a palavra precisa pensar por nós. Quando criamos, temos que criar símbolos, planos e novas dimensões da realidade.”

O autor critica a ausência de políticas do Estado para o livro. “Antigamente, o Instituto Nacional do Livro e a Biblioteca Nacional publicavam autores em convênio”, lembra. “Isso não existe mais. As políticas hoje são voltadas para outro lado, para um lado mais eleitoral.”

Para o Imortal, a cultura ficou refém “entre gregos e troianos” e se perde em um mundo em que a arte é cada vez mais politizada. “A ideologia é inimiga. Com ela, a gente cria barreiras. É uma desumanização.”

Leia também: “O mercado editorial descobre a direita”, texto publicado na edição 286 da Revista Oeste

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1 comentário
  1. Edson Csuraji
    Edson Csuraji

    A ABL se mostra incoerente e na contramão da arte da escrita ao “dar cadeira” a pessoas que, apesar de terem algum destaque no universo das artes, não produziram obras escritas na sua forma como a entendemos. Foi transformada em vitrine com gordas benesses.

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