publicidade
Cultura

O Morro dos Ventos Uivantes é mais uma vítima da cultura woke

Nova versão cinematográfica da obra de Emily Brontë frustra os fãs da literatura

Pôster de O morro dos ventos uivantes revela Jacob Elordi e Margot Robbie com o Heathcliff e Catherine | Foto: Divulgação/Warner Bros.
Pôster de O morro dos ventos uivantes revela Jacob Elordi e Margot Robbie com o Heathcliff e Catherine | Foto: Divulgação/Warner Bros.

No dicionário de inglês da Universidade de Cambridge, a palavra brat descreve “uma criança, especialmente uma que se comporta mal”. Foi essa a escolha de Charli XCX para batizar seu disco mais recente. O álbum, um sucesso de crítica e premiações no ano passado, deu à expressão um sentido ainda mais atual, transformando a “pirralhice” em um fenômeno cultural ligado à juventude hedonista e distante dos valores clássicos. O movimento cresceu tanto que, agora, alcança até uma obra referencial da literatura: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.

+ Leia mais notícias de Cultura em Oeste

Receba nossas atualizações

Publicado em 1847, o livro é um marco do estilo gótico. Com Heathcliff e Catherine, consolidou uma narrativa sobre amor obsessivo, marcada por crueldade, vingança e até elementos sobrenaturais. Não por acaso, inspirou adaptações no cinema e até na música pop, como o hit Wuthering Heights, de Kate Bush (regravado pela banda brasileira Angra). Agora, porém, Hollywood parece avançar na tarefa de distorcer o clássico em mais uma “joia” para a cultura woke.

Com lançamento previsto para 12 de fevereiro de 2026, O Morro dos Ventos Uivantes volta às telas sob direção de Emerald Fennell, indicada ao Oscar em 2021. Assim como Charli XCX, a britânica movimentou o cenário cultural com sua ousadia. É dela Saltburn, filme elogiado pela fotografia, mas criticado pela mistura de thriller, comédia e sua erotização exagerada. A nova adaptação sugere que Fennell repetirá essa fórmula em sua leitura brat da obra de Brontë.

Heathcliff branco e depravação destroem a essência de O Morro dos Ventos Uivantes

O trailer, que revela Jacob Elordi como Heathcliff e Margot Robbie como Catherine, irritou imediatamente leitores do romance original. No YouTube, em que o vídeo supera 20 milhões de visualizações, um usuário comenta: “Se você ouvir com cuidado, no final, dá para ouvir Emily Brontë berrando além de seu túmulo”. Centenas de mensagens seguem a mesma linha. A caracterização dos protagonistas também virou alvo: Elordi está longe da descrição do livro, que apresenta Heathcliff como um “cigano de pele escura”.

Um relato do jornal The Guardian sobre uma exibição-teste reforça a rejeição do público. Segundo o veículo, o filme se transforma em uma história de “depravação estilizada” nas mãos de Fennell. Um espectador, por exemplo, classificou a adaptação como “agressivamente provocativa e tonalmente áspera”.

A cena de abertura ilustra o cenário, que é descrito de forma explícita pelo jornal: “[O filme] começa com um enforcamento público no qual o condenado ejacula durante a execução. A multidão reage de forma orgástica, e uma freira acaricia a ereção visível do cadáver.”

Nada disso aparece no livro de 1847. Fennell adota o woke de forma descarada para gerar choque, rompendo com a estética original da obra e a ideia de uma adaptação. O marketing reforça essa intenção: trailers e pôsteres exibem o título entre aspas. A conexão com a tal da estética brat também se confirma na escolha da responsável pela trilha. É a própria Charli XCX que vai embalar a relação hedonista de “Heathcliff” e “Catherine” — se ainda fizer sentido chamá-los assim.

Leia também: “Billy Wilder e a arte de rir do desastre”

Confira

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Augusto de Resende Filho
    Augusto de Resende Filho

    Todo clássico em que a pseudo cinema toca, vira pó, desconstrói os personagens, e afirma a pauta Woke como mais uma insanidade atual.

  2. Reinaldo Martinazzo
    Reinaldo Martinazzo

    Que barbaridade!
    Clássico é clássico. Refirmar com novos recursos, tudo bem. Mas este tipo de reinterpretação deve fazer o autor se revirar no túmulo – Melhor tomar cuidado!
    Enfezado ele pode vir puxar os pés dos lacradores quando estiverem dormindo.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.