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Cultura

Eu só via sofrimento. Ela sorriu

'Em uma sala — penso — sempre deveria ter alguém pronto para o caos e alguém pronto para o paraíso'

grávida - artigo pedro henrique alves
'Aquela mulher entendia o sentido de sacrifício' | Foto: Reprodução/Freepik

Um dos autores que mais admiro é um gorducho inglês do século 19 chamado G. K. Chesterton, e nem é exatamente por uma empatia de balança, mas porque ele conseguia fazer algo com naturalidade, algo que sempre tive dificuldades — mesmo esforçando-me muito —: ser um otimista pessimista. Semana passada, estava no hospital obstétrico de Lorena com a minha mulher grávida; ao nosso lado, visivelmente atacada por algum tipo de alergia, uma outra grávida sofria, literalmente, as dores de parto. Segundo a enfermeira, a gestante aflita não podia ser medicada devido à gravidez, isto é, ao risco envolvido à criança. Em seguida, ouvi a médica pedir que ela ficasse na sala de espera, enquanto as contrações aumentavam, até o momento em que seria levada a algum quarto para parir.

O rosto da grávida era uma mistura de sofrimento, urtiga e escamas. Uma senhora a acompanhava, muito possivelmente sua mãe. Tal senhora, já idosa, distraía uma criança de uns três anos que, banhada pela ignorância da idade, brincava sozinha, alegrando o ambiente apesar das dores que havia ali; tratava-se do primeiro filho da grávida dolorida — depois viemos a saber.

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Um pouco antes de minha mulher entrar para o consultório, a enfermeira levou-a para o quarto em que faria brotar mais um bebê para a sociedade. Observando tudo com um interesse distante, eu me dividia entre a preocupação com a minha mulher e a curiosidade por aquela cena peculiar. Ora me distraía com o bebê bagunceiro, ora prestava atenção na grávida que dizia à mãe que tentaria o parto normal.

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Porém, uma frase da mãe agoniada destoou de todas as outras, ela disse a uma terceira grávida que havia somado ao ambiente de espera: “Só quero que meu bebê nasça com saúde”. Na minha bestial análise pessimista, só conseguia ver dor e sofrimento naquela mulher. A mãe, no entanto, apesar de tudo, só conseguia projetar de seu sofrimento a saúde do bebê que em poucos minutos colocaria para fora. E o mais perturbador de tudo. Ao passar por mim e por minha mulher, a mulher vermelha e escamada, sorriu. Ela sorriu.

Chesterton, o otimista pessimista

Chesterton disse certa vez que “um otimista é um homem que cuida dos seus olhos, e um pessimista é um homem que cuida dos seus pés”. E isso explica muito. Aquela mulher estava olhando a benção que viria, enquanto eu estava olhando os pés inchados e deformados que levavam a otimista prenha. O que eu não pensava, porém, é que aquela mulher, se preciso fosse, tiraria seus pés para que seu filho “viesse com saúde”. Naquela sala de espera, em resumo, estava o sumo de uma civilização: o pessimista necessário, que enxerga o caos momentâneo em busca de soluções, o otimista que enxerga no sofrimento a etapa do futuro melhor, e a esperança que brinca nos escombros independentemente do caos.

G. K. Chesterton
O escritor G. K. Chesterton | Foto: Reprodução/Wikimedia

Não sei como o bebê veio ao mundo, com ou sem saúde, nem como ficou a mãe depois do parto. Eu sei, no entanto, quão bom foi notar que nem só de pessimistas vive o mundo. Aquela mulher entendia o sentido de sacrifício. Eu, no entanto, entendia o sentido de imediatismo e de necessidade. Ela tinha esperança; eu me preparava para o pior.

Eis a sumo de um equilíbrio necessário. Em uma sala — penso — sempre deveria ter alguém pronto para o caos e alguém pronto para o paraíso; alguém pronto para calçar os coturnos e manter a pólvora seca, e alguém pronto para o desfile da vitória. Se é verdade que, por vezes, os otimistas são tolos, também é verdade que, não raro, os pessimistas são estagnados. Talvez a solução fosse fazer os estagnados olharem os reflexos nos olhos dos tolos. E os tolos, vez ou outra, checarem se não estão descalços. Tudo isso, é claro, sem deixar de brincar e se alegrar com as crianças que remexem as bundas de fraldas em cima das mazelas que não raro deixamos por aí.

Leia também: “Devoradores de memória”, reportagem de Dagomir Marquezi publicada na Edição 321 da Revista Oeste

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