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Cultura

A tirania do cuidado: como o excesso de terapia está destruindo a infância

'Sob o pretexto de cuidar melhor, a sociedade ocidental tem ensinado as crianças e adolescentes a se perceberem como frágeis, traumatizadas e dependentes de intervenção constante'

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Terapia infantil pauta artigo de Pedro Henrique Alves no site da Revista Oeste | Foto: Reprodução/Freepik

Vivemos em uma era em que determinados tipos de sofrimento infantil — crise de identidade, descontrole emocional, raiva ou afobação desmedidas, leves desvios morais, postura afrontosa e desafios a autoridade —, antes compreendidos como parte inevitável e até formadora do amadurecimento, foram patologizados de forma massiva. Abigail Shrier, em Terapia ruim: Por que as crianças não amadurecem (Auster), descreve com precisão o fenômeno que ela chama de “medicalização da infância”: uma transformação cultural que converte cada frustração, cada ansiedade passageira e cada inquietude normal da vida jovem em sinal clínico de trauma, desvio ou até doença. Sob o pretexto de “cuidar melhor”, a sociedade ocidental tem ensinado as crianças e adolescentes a se perceberem como frágeis, traumatizadas e dependentes de intervenção constante; ao invés de coragem, altruísmo e resiliência, estamos afundando a juventude num mar de vitimização e mendicância moral, tornando-os uma espécie reconstruída que varia entre cobaia científica e a massa de modelar de ideologias.

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A terapia, outrora instrumento para lidar com situações extremas, tornou-se um rito de passagem, ou uma ação cotidiana quase irrefletida, tal como um café da manhã com pão na chapa ou um Nescau antes de dormir. Crianças e adolescentes são levados a psicólogos não porque enfrentam tragédias e dramas psicológicos profundos, mas porque estão tristes, ansiosas com provas escolares ou frustradas com amizades e com o fora da morena. A consequência é devastadora: ao tentar proteger, os adultos estão desarmando emocionalmente seus filhos, retirando suas armas naturais, seus escudos e forças “musculares” que permitem enfrentar seus dramas e resolvê-los segundo suas capacidades, virtudes e resistências.

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Capa do livro Terapia ruim | Foto: Reprodução/Amazona

Um dos pontos mais contundentes de Shrier é a crítica à terceirização da autoridade moral dos pais. Ao delegar aos terapeutas o papel de mediadores emocionais e mentores éticos, mães e pais modernos se eximem da responsabilidade mais nobre e árdua da paternidade: formar o caráter e transferir o arcabouço de suas experiências.

Dos pais para os psicólogos

O psicólogo se converte em árbitro da vida familiar, interpretando comportamentos, sugerindo diagnósticos e, não raramente, orientando decisões parentais que têm o poder — sem nenhum pedantismo retórico — de interferir profundamente na liberdade e no destino desses jovens e também de seus pais. Nesse processo, a autoridade natural — paterna e materna — se dilui a ponto de praticamente se tornar desnecessária, para além de um caráter de dever jurídico de nutrição e moradia para seus filhos. A figura do pai que ensina a resiliência, que impõe limites e que oferece segurança é substituída pela “escuta empática” de um profissional externo. O amor disciplinado cede lugar à indulgência terapêutica.

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Entendia-se outrora que o amadurecimento era um processo moral, sustentado pela experiência da dor, da responsabilidade e do enfrentamento do real. A sociedade contemporânea, ao contrário, age como se qualquer desconforto fosse intolerável, como se o joelho ralado e até mesmo a prisão não tivesse um papel real na formação de um homem. Professores, terapeutas e até pediatras passaram a agir como curadores da felicidade, prontos a corrigirem qualquer emoção “negativa” e sugerir meios viáveis de alcançar serotonina.

“Shrier alerta que, ao proteger as crianças da dor, estamos negando a elas a possibilidade de se tornarem adultos”

A infância não é um estado a ser preservado indefinidamente. Amadurecer em caráter é, assim como nascer e morrer, um processo que definitivamente deve ser vivenciado com capacidades formadoras que só se mostram ao nos depararmos com desconfortos, problemas e até mesmo tragédias. Shrier alerta que, ao proteger as crianças da dor, estamos negando a elas a possibilidade de se tornarem adultos. O que nasce dessa pedagogia da eterna delicadeza é uma geração ansiosa, hipervigiada, emocionalmente volátil e sem estofo para a adversidade. E que lida com o contrário como uma afronta à sua vontade sacrossanta, que prefere chorar sua fraqueza — na internet — para ser digno de pena geral, do que ser digno e forte ante os males que se apresentam.

Terapia infantil x falência ética paternal

A autora denuncia ainda — e aqui o seu livro é alçado do plano do “muito bom” para o “genial” — como a linguagem da psicologia moderna é sedutora: fala em “validar emoções”, “criar espaços seguros”, “promover autoestima”. Contudo, esse vocabulário mascara uma falência ética paternal. Crianças não precisam de “validação emocional” constante — precisam de direção, de estrutura, de virtude.

Abigail Shrier
A escritora Abigail Shrier | Foto: Reprodução/Penguim Random House

Uma criança que escolhe um caminho obviamente errado, que tem anseios morais ruins, e que não reconhece a autoridade de seu pai e sua mãe, não tem que ser primariamente “entendida”, mas antes corrigida, redirecionada. Um pai e uma mãe não têm o dever de ceder ao erro em nome de uma boa convivência, convivência essa sustentada numa visão deturpada por ideologias e modas. Ao contrário, quando eles assim o fazem, estão sendo mais duros e punitivos com seus filhos do que se os tivessem de fato castigado, pois a realidade — a boa e dura realidade — como bem diz Ben Shapiro, não se importa com os nossos sentimentos e nem precisa de uma checagem dupla de nossas opiniões.

A verdade que se tornou tabu para os terapeutas e psicólogos atuais — muitos deles chafurdados em ideologias que adquiriram nas universidades — é que a correção não feita na juventude pode escalar ao crime na fase adulta, e que um defeito moral não arrumado na infância pode ser a futura prisão do vício ou a depressão irremediável do amanhã. Isso sim é cruel. O medo de “traumatizar” os filhos tem criado crianças sem ossos morais, tem revelado adolescentes sem coluna de caráter que os sustente moralmente ante a pressões sociais para fazerem o que é condenável.

Terapia infantil x pensamento conservador

O pensamento conservador, de Aristóteles a C. S. Lewis, ensina que o caráter nasce da luta com o real, não da fuga dele. Shrier ecoa essa tradição ao afirmar que a cura para a epidemia de ansiedade juvenil não é mais terapia — é menos. É o retorno à vida comum, ao convívio familiar, à liberdade para errar, cair e levantar. Os pais devem também eles próprios se consertarem, a fim de serem melhores guardiões e educadores de seus filhos, devem abandonar os reels para serem pais na realidade — assunto que já tratei aqui nesta coluna no texto “Adultização das crianças, infantilização de adultos”.

“É preciso libertar nossas crianças da tirania do cuidado”

A psicologização da infância não é progresso; é rendição. Quando o terapeuta substitui o pai, o consultório substitui o lar e o diagnóstico substitui o discernimento, o próprio existir da família deixa de ter por quê. O caminho de volta — é claro — não passa por abolir a psicologia e fechar consultórios, mas por recolocá-los em seu devido lugar: o de auxiliar, e não o de governar.

O livro de Abigail Shrier ressoa outras obras que vêm se preocupando com a mesma temática, destaco três: Stolen Youth (Dw Books), de Bethany Mandel e Karol Markowicz; A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt; e The Collapse of Parenting, de Leonard Sax. Por fim, o verdadeiro cuidado não é o que anestesia, mas o que fortalece. Educar é, por natureza, um ato de amor exigente. E a infância, quando protegida em excesso, deixa de florescer. É preciso libertar nossas crianças da tirania do cuidado, para que reencontrem na dor, na exigência da realidade e na coragem para desvendá-la o caminho da maturidade livre.

Leia também: “A crueldade da cultura woke, artigo de Brendan O’Neill, da Spiked, publicado na Edição 259 da Revista Oeste

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3 comentários
  1. Eduardo Fortkamp
    Eduardo Fortkamp

    Como psicanalista posso afirmar, quando um dos pais, (geralmente a mãe) pede análise (ou terapia) para o filho, quem está precisando mesmo são os pais.

  2. Marco Polo Gerard Bondim
    Marco Polo Gerard Bondim

    Absolutamente, dados os dias de hoje, pertinente!

  3. Lucia campos
    Lucia campos

    Excelente reportagem sobre terapia. ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️👏👏👏👏👏

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