Vivemos em uma era em que determinados tipos de sofrimento infantil — crise de identidade, descontrole emocional, raiva ou afobação desmedidas, leves desvios morais, postura afrontosa e desafios a autoridade —, antes compreendidos como parte inevitável e até formadora do amadurecimento, foram patologizados de forma massiva. Abigail Shrier, em Terapia ruim: Por que as crianças não amadurecem (Auster), descreve com precisão o fenômeno que ela chama de “medicalização da infância”: uma transformação cultural que converte cada frustração, cada ansiedade passageira e cada inquietude normal da vida jovem em sinal clínico de trauma, desvio ou até doença. Sob o pretexto de “cuidar melhor”, a sociedade ocidental tem ensinado as crianças e adolescentes a se perceberem como frágeis, traumatizadas e dependentes de intervenção constante; ao invés de coragem, altruísmo e resiliência, estamos afundando a juventude num mar de vitimização e mendicância moral, tornando-os uma espécie reconstruída que varia entre cobaia científica e a massa de modelar de ideologias.
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A terapia, outrora instrumento para lidar com situações extremas, tornou-se um rito de passagem, ou uma ação cotidiana quase irrefletida, tal como um café da manhã com pão na chapa ou um Nescau antes de dormir. Crianças e adolescentes são levados a psicólogos não porque enfrentam tragédias e dramas psicológicos profundos, mas porque estão tristes, ansiosas com provas escolares ou frustradas com amizades e com o fora da morena. A consequência é devastadora: ao tentar proteger, os adultos estão desarmando emocionalmente seus filhos, retirando suas armas naturais, seus escudos e forças “musculares” que permitem enfrentar seus dramas e resolvê-los segundo suas capacidades, virtudes e resistências.

Um dos pontos mais contundentes de Shrier é a crítica à terceirização da autoridade moral dos pais. Ao delegar aos terapeutas o papel de mediadores emocionais e mentores éticos, mães e pais modernos se eximem da responsabilidade mais nobre e árdua da paternidade: formar o caráter e transferir o arcabouço de suas experiências.
Dos pais para os psicólogos
O psicólogo se converte em árbitro da vida familiar, interpretando comportamentos, sugerindo diagnósticos e, não raramente, orientando decisões parentais que têm o poder — sem nenhum pedantismo retórico — de interferir profundamente na liberdade e no destino desses jovens e também de seus pais. Nesse processo, a autoridade natural — paterna e materna — se dilui a ponto de praticamente se tornar desnecessária, para além de um caráter de dever jurídico de nutrição e moradia para seus filhos. A figura do pai que ensina a resiliência, que impõe limites e que oferece segurança é substituída pela “escuta empática” de um profissional externo. O amor disciplinado cede lugar à indulgência terapêutica.
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Entendia-se outrora que o amadurecimento era um processo moral, sustentado pela experiência da dor, da responsabilidade e do enfrentamento do real. A sociedade contemporânea, ao contrário, age como se qualquer desconforto fosse intolerável, como se o joelho ralado e até mesmo a prisão não tivesse um papel real na formação de um homem. Professores, terapeutas e até pediatras passaram a agir como curadores da felicidade, prontos a corrigirem qualquer emoção “negativa” e sugerir meios viáveis de alcançar serotonina.
“Shrier alerta que, ao proteger as crianças da dor, estamos negando a elas a possibilidade de se tornarem adultos”
A infância não é um estado a ser preservado indefinidamente. Amadurecer em caráter é, assim como nascer e morrer, um processo que definitivamente deve ser vivenciado com capacidades formadoras que só se mostram ao nos depararmos com desconfortos, problemas e até mesmo tragédias. Shrier alerta que, ao proteger as crianças da dor, estamos negando a elas a possibilidade de se tornarem adultos. O que nasce dessa pedagogia da eterna delicadeza é uma geração ansiosa, hipervigiada, emocionalmente volátil e sem estofo para a adversidade. E que lida com o contrário como uma afronta à sua vontade sacrossanta, que prefere chorar sua fraqueza — na internet — para ser digno de pena geral, do que ser digno e forte ante os males que se apresentam.
Terapia infantil x falência ética paternal
A autora denuncia ainda — e aqui o seu livro é alçado do plano do “muito bom” para o “genial” — como a linguagem da psicologia moderna é sedutora: fala em “validar emoções”, “criar espaços seguros”, “promover autoestima”. Contudo, esse vocabulário mascara uma falência ética paternal. Crianças não precisam de “validação emocional” constante — precisam de direção, de estrutura, de virtude.

Uma criança que escolhe um caminho obviamente errado, que tem anseios morais ruins, e que não reconhece a autoridade de seu pai e sua mãe, não tem que ser primariamente “entendida”, mas antes corrigida, redirecionada. Um pai e uma mãe não têm o dever de ceder ao erro em nome de uma boa convivência, convivência essa sustentada numa visão deturpada por ideologias e modas. Ao contrário, quando eles assim o fazem, estão sendo mais duros e punitivos com seus filhos do que se os tivessem de fato castigado, pois a realidade — a boa e dura realidade — como bem diz Ben Shapiro, não se importa com os nossos sentimentos e nem precisa de uma checagem dupla de nossas opiniões.
A verdade que se tornou tabu para os terapeutas e psicólogos atuais — muitos deles chafurdados em ideologias que adquiriram nas universidades — é que a correção não feita na juventude pode escalar ao crime na fase adulta, e que um defeito moral não arrumado na infância pode ser a futura prisão do vício ou a depressão irremediável do amanhã. Isso sim é cruel. O medo de “traumatizar” os filhos tem criado crianças sem ossos morais, tem revelado adolescentes sem coluna de caráter que os sustente moralmente ante a pressões sociais para fazerem o que é condenável.
Terapia infantil x pensamento conservador
O pensamento conservador, de Aristóteles a C. S. Lewis, ensina que o caráter nasce da luta com o real, não da fuga dele. Shrier ecoa essa tradição ao afirmar que a cura para a epidemia de ansiedade juvenil não é mais terapia — é menos. É o retorno à vida comum, ao convívio familiar, à liberdade para errar, cair e levantar. Os pais devem também eles próprios se consertarem, a fim de serem melhores guardiões e educadores de seus filhos, devem abandonar os reels para serem pais na realidade — assunto que já tratei aqui nesta coluna no texto “Adultização das crianças, infantilização de adultos”.
“É preciso libertar nossas crianças da tirania do cuidado”
A psicologização da infância não é progresso; é rendição. Quando o terapeuta substitui o pai, o consultório substitui o lar e o diagnóstico substitui o discernimento, o próprio existir da família deixa de ter por quê. O caminho de volta — é claro — não passa por abolir a psicologia e fechar consultórios, mas por recolocá-los em seu devido lugar: o de auxiliar, e não o de governar.
O livro de Abigail Shrier ressoa outras obras que vêm se preocupando com a mesma temática, destaco três: Stolen Youth (Dw Books), de Bethany Mandel e Karol Markowicz; A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt; e The Collapse of Parenting, de Leonard Sax. Por fim, o verdadeiro cuidado não é o que anestesia, mas o que fortalece. Educar é, por natureza, um ato de amor exigente. E a infância, quando protegida em excesso, deixa de florescer. É preciso libertar nossas crianças da tirania do cuidado, para que reencontrem na dor, na exigência da realidade e na coragem para desvendá-la o caminho da maturidade livre.
Leia também: “A crueldade da cultura woke“, artigo de Brendan O’Neill, da Spiked, publicado na Edição 259 da Revista Oeste









































Como psicanalista posso afirmar, quando um dos pais, (geralmente a mãe) pede análise (ou terapia) para o filho, quem está precisando mesmo são os pais.
Absolutamente, dados os dias de hoje, pertinente!
Excelente reportagem sobre terapia. ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️👏👏👏👏👏