publicidade
Cultura

Eu sou — você mataria sua mãe em nome de sua ideologia?

A trama é narrada em um tempo essencialmente presente, conferindo ao texto um tom de confissão imediata e intensa

Sua forma de escrita lembra o fluxo de consciência de Ulysses, de James Joyce, e a fragmentação expressionista do teatro alemão | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com auxílio de inteligência artificial
Sua forma de escrita lembra o fluxo de consciência de Ulysses, de James Joyce, e a fragmentação expressionista do teatro alemão | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com auxílio de inteligência artificial

Minha função de editor é mais extensa que muitas pessoas imaginam. Não se trata de um fordismo literário, uma linha de produção irrefletida e com apenas 8 horas diárias de trabalho. Ela compreende também pesquisa, dedicação e muito tempo gasto em leituras frutíferas e infrutíferas. Foi num desses casos de êxito que encontrei uma pequenina novela de um autor ucraniano. Um dos livros mais lacerantes que li sobre a temática da revolução comunista, e, mesmo após editar essa obra que sairá em novembro pela editora LVM, continuo abismado como um autor conseguiu colocar em apenas uma breve introdução e três curtos capítulos uma angústia psicológica, um ambiente sombrio, e a tradução profundamente realista de uma alma torturada pela asfixia ideológica. Foi isso que fez o completamente desconhecido em nossas terras, Mykola Khvylovy.

Publicado em 1924, em Kharkiv, no auge da política soviética de ucranização cultural (korenizatsiya), a novela-poema em prosa Я (Романтика) [Eu sou], de Mykola Khvylovy, é uma das obras mais enigmáticas e polêmicas da literatura ucraniana do período entreguerras. O livro não teve até hoje nenhuma tradução no Brasil, e, pelo que pesquisei, em nenhum país lusófono; ele caiu, como já notei não ser tão raro assim, no poço do esquecimento seletivo daquelas literatura que afrontam certas ideias — se é que “cê” me entende…

Receba nossas atualizações

+ Leia notícias de Cultura em Oeste

Híbrido de confissão, manifesto e visão apocalíptica, o texto rompe as fronteiras entre romance, poesia e ensaio, expondo o drama interior de uma geração dilacerada pela Guerra Civil e pela Revolução de Outubro. Em fragmentos carregados de imagens visionárias, e por meio de personagens bem construído: Maria; Dr. Tagabat; Andryusha, o vigia degenerado; e o “Messias da Cheka” (o protagonista sem nome), Khvylovy combina em sua narrativa um lirismo místico e sarcasmo corrosivo, revelando tanto uma nauseante fé revolucionária quanto a angústia de sua degradação em terror. O texto narra a noite de um oficial da Tcheka — polícia revolucionária incumbida de prender e matar quem se opusesse à revolução bolchevique de 1917 —, que se encontra na linha de frente de batalha entre o exército revolucionário e contrarrevolucionário. O protagonista está em um castelo assaltado pelos comunistas e tornado tribunal improvisado de traidores, e, entre descrições de seus pares e do ambiente, o juiz se encontra diante da prisão de sua própria mãe, que foi pega junto a freiras que estavam supostamente “sabotando” a revolução. Ele tem então a missão de pesar o amor à sua mãe e o seu dever e crenças revolucionárias. Deve ele prevaricar ante seus pares de revolução, ou condenar à morte a sua própria progenitora?

Híbrido de confissão, manifesto e visão apocalíptica, o texto rompe as fronteiras entre romance, poesia e ensaio | Foto: Divulgação/LVM
Híbrido de confissão, manifesto e visão apocalíptica, o texto rompe as fronteiras entre romance, poesia e ensaio | Foto: Divulgação/LVM

Sua forma de escrita lembra o fluxo de consciência de Ulysses, de James Joyce, e a fragmentação expressionista do teatro alemão. Khvylovy transforma a revolução e a guerra civil em linguagem convulsiva, que incomoda nossos olhares acostumados à linearidade dos romances estruturados. Ele alterna deliberadamente o lirismo puro e o grotesco brutal, criando um texto que mais traduz estados de consciência do que relata fatos puros. É nesse hibridismo — entre confissão, manifesto e alegoria — que reside a força única da obra, um testemunho ao mesmo tempo íntimo e universal das promessas e dos horrores da revolução comunista.

A trama criada pelo ucraniano é narrada em primeira pessoa em um tempo essencialmente presente, conferindo ao texto um tom de confissão imediata e intensa. O narrador fala como se estivesse vivendo os acontecimentos no instante em que escreve, o que aproxima o leitor da experiência interior que ele descreve. Contudo, essa narrativa no presente é entrecortada por lampejos de memória e reflexão, criando uma oscilação entre o vivido e o rememorado.

+ A bênção da tradição

À época, a obra provocou escândalo e fascínio, pois ela atua como uma denúncia velada da brutalidade bolchevique e, ao mesmo tempo, como um testemunho lírico da utopia revolucionária. Desde o lançamento, o texto dividiu críticos e leitores. Os círculos oficiais soviéticos acusaram Khvylovy de “desvios pequeno-burgueses” e de “flertar com o simbolismo decadente”. Ainda assim, o texto circulou intensamente e consolidou o autor como voz central do chamado “Renascimento Executado” (Rozstriliane Vidrodzhennia), geração de escritores ucranianos que floresceu nos anos 1920 e foi dizimada pelas repressões stalinistas.

Já no título, a obra se torna uma expressão singular, tanto de denúncia quanto de provocação, enunciando por meio do simbolismo literário as pretensões profundas do comunismo soviético. “Eu sou” é a teológica resposta de Deus à pergunta de Moisés em Êxodo 3,13-4: “Qual é seu nome?…”, perguntou o profeta, “E disse Deus a Moisés: eu sou o que sou”. Tal inferência bíblica fica mais clara quando Khvylovy expõe nas entrelinhas como a revolução toma para si as pretensões de juiz da sorte dos homens. Há no texto propositalmente fragmentado do ucraniano a salutar crítica de que o comunismo quis ir além da mera casca política e militar, mas agarrou-se também — e tentou remodelar — às questões profundas da alma humana, num terreno de deturpações metafísicas e ontológicas. Aquilo que o estudioso da ideologia comunista, Nelson Lehmann Silva, denominou de “religiosidade substituta”, ou ainda “religião sucedânea”. Svetlana Aleksiévitch, aliás, em seu maravilhoso Vozes de Tchernóbil, ouviu de uma das entrevistadas ucranianas a seguinte frase: “Tivemos os comunistas no lugar de Deus, mas agora só restou Deus” — o mesmo parece nos dizer Khvylovy ao final do romance.

+ O massacre de cristãos e o silêncio dos Pilatos

O livro é carregado de simbolismos que não são tão evidentes para aqueles que não estudaram o comunismo soviético: a casa principesca sendo usada como tribunal da comuna; o doutor sádico; o Andryusha; um revolucionário fraco, mas que não se abstém nunca de suas funções sanguinárias; a mãe — Maria —, que é pintada como ideal de vítima solapada pela revolução; e o próprio protagonista, preso entre o dever revolucionário, a sua função de juiz dos traidores e um simples filho que se defronta com sua consciência e seus sentimentos.

O autor deste livro foi também uma das vítimas, se suicidando após se ver encurralado pela asfixia cultural promovida por Stálin contra escritores, especialmente os ucranianos. Khvylovy seria mais uma história para confirmar a máxima de Georges Jacques Danton (1759-1794), que, diante da guilhotina da revolução que ele ajudou a perpetuar na França, disse, em 5 de abril de 1794: La révolution, comme Saturne, dévore ses enfants [“A revolução, como Saturno, devora seus filhos”]. Khvylovy nos mostrará que ela não devora apenas os filhos, mas também as mães, os inocentes, a consciência, e a mais basal humanidade dos indivíduos…

Ps. Parte desse ensaio foi aproveitado como nota editorial no livro resenhado.

O livro é carregado de simbolismos que não são tão evidentes para aqueles que não estudaram o comunismo soviético | Foto: Divulgação/LVM
O livro é carregado de simbolismos que não são tão evidentes para aqueles que não estudaram o comunismo soviético | Foto: Divulgação/LVM

Leia mais sobre:

5 comentários
  1. Valdy Fernandes da Silva
    Valdy Fernandes da Silva

    Pelo ensaio trata-se de um livro de leitura obrigatória; aguardo a publicação para adquiri-lo.

  2. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Impactante, inadmissível para um ser humano. A esquerda é feita de irracionais materialistas.

  3. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Impactante, inadmissível para um ser humano. A esquerda é feita de irracionais materialistas.

  4. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Impactante, inadmissível para um ser humano. A esquerda é feita de irracionais materialistas.

  5. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Impactante, inadmissível para um ser humano. A esquerda é feita de irracionais materialistas.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.