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Cultura

O dogma dos doutores

Reflexão sobre o esvaziamento intelectual das universidades e o avanço do dogmatismo ideológico

'Como católico romano, aliás, posso afirmar com uma serenidade assustadora que vi muito mais dogmatismo e extremismo de ideias em ambientes acadêmicos — ou na mente de universitários — do que em qualquer incursão religiosa que fiz', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
'Como católico romano, aliás, posso afirmar com uma serenidade assustadora que vi muito mais dogmatismo e extremismo de ideias em ambientes acadêmicos — ou na mente de universitários — do que em qualquer incursão religiosa que fiz', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Não sou um acadêmico. Na verdade, mesmo quando estava na universidade, tinha claro que não queria sê-lo. Apesar dos bons professores que tive, bons colegas que fiz e os direcionamentos intelectuais oportunos que recebia naquele ambiente, sempre via as grades e as matérias direcionadas como uma espécie de castração ou determinismo intelectual; a verdade é que não me sobrava tempo para estudar o que queria e o que julgava ser essencial para aquilo que realmente queria compreender e pesquisar. Por isso, nunca fiz muita questão de buscar um avanço curricular para além da graduação, e tive, por isso, muita oportunidade de me aprofundar com muito afinco nas coisas que queria estudar. É bem verdade que nunca deixei de ter contato com professores e intelectuais, seja pessoalmente, pelas redes ou pelo bom e eficiente e-mail.

Nestes contatos sempre fui seletivo, falava com aqueles que intelectualmente respeitava, principalmente por eles terem aquilo que julgava como uma “mente autônoma”. Se estudarmos os princípios da ciência filosófica veremos que a primeira e indispensável condição para compreender com profundidade é estar liberto de amarras ideológicas — ou “preconceitos”, como preferir. Ou, se as tiverem, ser capaz de domá-las ao ponto de colocar acima das agendas uma clareza de espírito e psique, para que, caso venha perceber falsidades e hipocrisias nesse itinerário, seja capaz de criticá-las com liberdade e até mesmo abandoná-las com decisão.

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Esse, aliás, é de longe o principal motivo de não ter me encantado com a vida acadêmica. Se você é brasileiro, estuda humanas numa universidade, sabe que estamos rodeados de determinismos, militâncias e cegueiras consentidas. E apesar de generalizações serem uma das principais armadilhas de um canalha intelectual, essa generalização — no Brasil — é uma das poucas das quais me asseguro ao afirmá-la publicamente. Já tive debates, já estive em palestras, aulas e colóquios de grandes acadêmicos brasileiros, e, na grande maioria das vezes, notamos uma verdadeira enxurrada de militância — por vezes aberta, por vezes comedida, mas ainda assim sempre presente.

Como católico romano, aliás, posso afirmar com uma serenidade assustadora que vi muito mais dogmatismo e extremismo de ideias em ambientes acadêmicos — ou na mente de universitários — do que em qualquer incursão religiosa que fiz. Há uma intransigência mascarada de ciência democrática entranhada na própria maneira de se pensar ciências humanas no Brasil. Por muitos anos, acreditei que isso fosse de certa forma inconsciente, algo que foi apreendido e tomado como fórmula de conduta a priori, ao ponto de que os próprios militantes não notassem suas posturas e cartilhas dogmáticas — e aqui estava minha sincera crítica a Olavo de Carvalho. Não enxergava nos militantes acadêmicos a conspiração comunista que ele e seus alunos viam com tanta facilidade, via apenas uma estrutura que se retroalimentava a partir de uma ilusão consentida, emanada da ideia falsa de que o ambiente universitário aceitava todas as ideias sem preconceitos, e que estava aberta sinceramente a investigá-las sem paixão.

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Todavia, com o passar do tempo comecei a duvidar dessa minha leitura, principalmente pois me parecia cada vez mais improvável que uma estrutura independente fomentasse cada vez mais paixão ideológica sem que organizações e grupos poderosos alimentassem esse mergulho cada vez mais dogmático e apaixonado. A verdade lógica que “do nada, nada vem” parecia cada vez mais ilustrativa nas criações e aprofundamentos pós-modernistas das ciências humanas e sociais. O identitarismo, por exemplo, é uma prova disso. Nele, os próprios arraigados conceitos de observação e questionamento, formulação de hipótese, experimentação ou coleta de dados, e análise seguida da conclusão, são reinventadas para servirem a um propósito que caiba numa agenda pré-fabricada, a verdade de algo não seria mais a busca uma pesquisa, mas sim o enquadramento de um novo conceito a uma linha política maior já pré-estabelecida. O que nos evidencia a mais profunda das hipocrisias acadêmicas do pós-modernismo, pois, ao mesmo tempo que se questiona e tenta debelar a validade do conceito de “verdade” aferível, eles estabelecem suas verdades ideológicas de forma intransigente e inquestionável, cercando-as de militâncias sociais aguerridas e munidas chavões sentimentalistas prontos para ataquar quem questione tais princípios sacrossantos. Entre numa universidade federal hoje e tente questionar a identidade de gênero. Se voltar vivo, nos conte a sua experiência.

A morte da verdade enquanto conceito crível de ser alcançado, seja em sua inteireza ou em sua parcialidade, dentro de um assunto ou objeto, é a morte da própria ciência e da causa de ser da academia. Aliás, chega a ser engraçado assistir ao progressismo apostar em provar que é verdade que não se pode definir nada como verdade, e em seguida ver a comunidade acadêmica bater palma para um absurdo lógico que uma criança de cinco anos já consegue reconhecer como um non sense óbvio.

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O dogmatismo acadêmico é um ataque frontal à humanidade, pois, se matarmos o esteio social encarregado de trazer esclarecimento intelectual e avanço civilizacional baseados na busca da verdade, apostando num modelo de ciência ideológica, traremos para a sociedade a confusão e falsidades como verdades de proveta; e tudo que se estruturaria em conclusões pautadas em pesquisas sérias a partir de um esforço intelectual desprovido de preconceitos e cartilhas será trocado por vontades guiadas, sentimentalismos militantes e agendas políticas assentadas no poder de dominância. A ciência, que estava fincada no dever da busca da verdade e na liberdade de questionamento, passa a se fiar na busca do conformismo ideológico pautado pelos donos do poder.

Numa análise detida dos espólios da militância acadêmica, aquilo que outrora parecia conspiração se materializa como a resposta mais viável para o panorama que se apresenta. Não digo que todos são agentes de grupos determinados, e nem que estejam conscientemente trabalhando para um grande leviatã globalista com aspecto de réptil. Porém, nem tudo e todos operam sobre a consciência de quem os domina. Para alguns basta acreditar piamente nas ideologias que professam e serem carregados pela linhas das mãos que os fazem dançar sob determinados comandos. Nem todos têm coragem de olhar para cima.

Não tenho dúvidas que a reforma universitária tem de ocorrer, de forma orgânica, pela recusa determinada de cartilhas, num esforço hercúleo e quase de martírio; se os acadêmicos têm de ostentar alguma fé, que seja na liberdade mental ante determinismos, principalmente os políticos, que se transvestem de ciência. Afinal, a morte da verdade é ao mesmo tempo a morte do motivo pelos quais eles trabalham e se dedicam, e se o pós-modernismo está certo e a verdade não pode ser alcançada, os pensadores passam a não ser mais que meros retardados de jaleco batendo panelas num manicômio qualquer.

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3 comentários
  1. Patrícia Oliveira
    Patrícia Oliveira

    Não conseguiria entender as reais nuances do texto se o lesse há um ano e meio. Hoje, tendo que me submeter a um programa de doutorado profissional, concordo plenamente com a leitura do Pedro. Sinto-me contemplada, pois não conseguia expressar, tão assertivamente em palavras, o incômodo.

  2. bowzee bow
    bowzee bow

    Ao meu ver, se trata de uma questão aritmética ligada à forma em que se realizam os concursos para professor em universidades públicas. Se trata de um desequilíbrio de favorecimento indevido. Na banca, qualquer esquerdista sempre favorece, ainda que minimamente ou subconscientemente, outro esquerdista. Os outros na banca tendem a favorecer mérito acadêmico mais que posicionamento político. Após muitas seleções, só sobram esquerdistas, escolhidos por afiliação. E após mais tempo, o sentido de ensinar o que devia ser a pauta é substituído pela propaganda de esquerda.

    1. JOSE GERALDO VIANA
      JOSE GERALDO VIANA

      Mil desculpas. Faltou revisar o texto. Erros de grafia, construção e objetividade. Não é culpa exclusiva do autor. Mestre Guzzo anda fazendo falta.

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