Faltavam alguns minutos para amanhecer no Rio de Janeiro. Nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte, muitos moradores se arrumavam para descer o morro rumo ao centro, zona sul e zona oeste, onde trabalham. Comerciantes se preparavam para abrir a porta de enrolar, com o ruído do aço se misturando ao canto dos pássaros. A vida nestes locais tem que seguir, apesar do medo. Mas está cada vez mais difícil.
Há cerca de quatro décadas, a rotina local, no pêndulo entre a dificuldade e a esperança, é atormentada pelo terror imposto pelos narcotraficantes. Naquele dia 28 de outubro, em uma megaoperação, forças de segurança do Rio, formadas por 2,5 mil agentes, entraram nos locais, com 180 mandados de prisão. Lá moram mais de 110 mil pessoas.
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A ação foi denominada Operação Contenção. Como estratégia, estavam a ocupação de ruas estreitas e o avanço por áreas dominadas pelo Comando Vermelho (CV), facção mais antiga do Rio, originada nos anos 1970, na prisão de Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ).
A resistência nos complexos do Rio foi imediata. Criminosos ergueram barricadas, incendiaram veículos e abriram fogo contra os agentes. O confronto deixou escolas e o comércio fechados por dias.
“A Operação Contenção foi o maior baque que a facção já tomou em toda a sua história”, afirmou em nota a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Ao todo, 121 pessoas morreram, entre elas quatro policiais, na operação policial mais letal da história do Brasil. Cerca de cem fuzis foram apreendidos, além de mais de duas toneladas de drogas.
Foram meses de investigação da Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, até a entrada nos complexos. Neste período, os agentes apenas confirmaram o que já se sabia: o crime organizado se tornou uma força paralela ao Estado nestas regiões.
Os complexos do Alemão e da Penha, ao longo dos anos, retrataram o início da urbanização do Rio. Em comum, tinham no Curtume Carioca, fundado em 1920, um polo gerador de renda e de empregos. O local produzia artigos de couro e de peles, além de produtos químicos, de metalurgia e agropecuária.
O curtume, que fechou nos anos 1990, se situava na Penha, bairro próximo do mangue. Em função da Igreja da Penha, a região foi ganhando grande contingente populacional. Nela se inclui o Complexo da Penha, composto por 13 favelas.
Muitos moradores do Complexo do Alemão também trabalhavam no curtume. O local ganhou esse em homenagem ao seu primeiro proprietário, o polonês Leonard Kaczmarkiewicz, o “alemão”
A transição de área rural para industrial foi complementada pelas ocupações nas encostas. No Alemão, quase não se percebem os rastros da Serra da Misericórdia, outrora composta por morros e nascentes, substituídos pelas construções irregulares.
Os narcoterroristas
Agora, a indústria perdeu força por lá. A maior parte da economia gira em torno do CV. A facção impõe regras rígidas de convivência. Controla serviços como gás, internet e transporte e pune qualquer desvio com violência, expulsões ou humilhação pública. O grupo estende seu domínio a conflitos pessoais, circulação de moradores e uso das redes sociais. A vigilância é permanente, com barricadas e olheiros. Assassinatos depois de “julgamentos” em tribunais do crime também são comuns.
Comerciantes, motoristas e moradores pagam taxas e seguem horários e autorizações impostas pelo tráfico. O conjunto de práticas tornou infernal a rotina dos moradores. O terror imposto pelo grupo sustentou a denúncia, acatada pelo juiz Leonardo Rodrigues da Silva Picanço, da 42ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, no dia 8 de julho, ao expedir ordem de prisão preventiva de 51 suspeitos. Vídeos obtidos pelos investigadores mostram situações agonizantes de tortura e crueldade por parte de lideranças do grupo.
Cerca de cem fuzis foram apreendidos, além de mais de duas toneladas de drogas.
A investigação teve início com uma denúncia anônima em janeiro de 2024. O informante relatou que uma reunião de lideranças do CV na comunidade da Penha iria definir estratégias para expansão de seu poder territorial. Os principais líderes não foram encontrados na operação, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro. Entre eles: Doca da Penha (Edgard Alves de Andrade); Pezão do Alemão (Luciano Martiniano da Silva); Pedro Bala (Pedro Paulo Guedes); Gardenal (Carlos da Costa Neves) e BMW (Juan Breno Malta Ramos).
A intervenção, porém, foi considerada um sucesso pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ). “Não teremos mais instituições narcoterroristas, é isso que elas são”, disse. “Não aceitaremos mais que no Judiciário, com todo o respeito que eu tenho a ele, que no governo central se apoie terroristas, eles não serão mais aceitos. E isso tem sido uma promessa recorrente, quando eu converso com todos os governadores.”

Torturadores e traficantes
Castro se apega ao clamor popular. Pesquisas mostraram apoio à ação. Levantamento da Quaest revela que 64% dos moradores do Rio aprovaram a iniciativa. No Portal Procurados, muitos dos procurados pela polícia na região têm condenações por homicídio, sequestro, tráfico, tortura, entre outros crimes. Algumas entidades de direitos humanos criticaram a ação, com o argumento de que apenas os mandados não justificam as mortes e que nem todos os mortos tinham condenação na Justiça.
A polícia do Rio declarou, em nota, que “mais de 95% dos identificados tinham ligação comprovada com o CV e 54% eram de fora do Estado”. Segundo a entidade, a operação cumpriu seus objetivos. “O trabalho de inteligência desenvolvido pela cúpula de Segurança Pública do Estado identificou que 59 tinham mandados de prisão pendentes, pelo menos 97 apresentavam históricos criminais relevantes.”
Em um dos trechos em que justificou as prisões, o juiz Picanço declarou: “Os elementos de convicção trazidos a exame deixam revelar a contento relevantes indícios de autoria e prova da materialidade dos crimes de tortura e associação para fins de tráfico de drogas, praticado nas imediações de estabelecimento de ensino, com emprego de arma de fogo e envolvendo adolescentes”.
Corrupção e negligência
O avanço dessas facções cresceu nos anos 1980, quando a combinação de falta de infraestrutura e a política de evitar confrontos armados durante os governos de Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994) não teve sucesso. Acabou abrindo espaço para que o tráfico assumisse funções que deveriam ser do governo.
A partir dali, seguidas gestões estaduais, assoladas pela corrupção, fracassaram em enfrentar o problema. O crime, então, se incrementou. Passou a operar com hierarquia e disciplina. A megaoperação escancarou esta realidade. E apressou um debate adormecido havia meses, desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança.
A PEC propunha uma unificação das investigações em um Sistema Único de Segurança Pública, existente desde 2018, mas que não é constitucional. Nada saiu do papel. Enfraquecido no Congresso, o governo teve dificuldades de conseguir os 308 votos necessários. A operação, no entanto, mostrou que o tema era urgente. No Congresso, a oposição cobra do governo respostas rápidas.
O senador Efraim Filho (União Brasil-PB) afirmou a Oeste que “a sociedade está cansada de acordo com o bandido”. Ele prossegue: “Ou você está ao lado da lei, ou você está ao lado da bandidagem. Não dá pra conciliar isso”. Para ele, o Projeto de Lei Antifacção representa a resposta que a população exige. “O que o Brasil precisa hoje é da resposta efetiva.”
Governadores também passaram a tratar o episódio como marco político. Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) destacou o impacto do projeto relatado pelo deputado Guilherme Derrite (Progressistas), secretário de Segurança Pública de São Paulo.
O projeto, segundo Caiado, “passa a capitanear o início desse debate”, abrindo espaço para emendas que vão do fim da “saidinha” a restrições de visitas íntimas e endurecimento penal. Para o governador, o enquadramento das facções como terroristas é indispensável para enfrentar a criminalidade. O governo federal é contra essa mudança de status dos criminosos. “O Lula agora quer criminalizar a polícia do Rio de Janeiro”, disse Caiado. “Se você quer ficar ao lado do crime, fique com o Lula e com o Nicolás Maduro.”
A questão está no centro da agenda nacional, enquanto o governo federal tenta postergar. O real combate ao crime agora depende da vontade política. Para que não se repitam mais mortes de inocentes. E que eles possam viver com tranquilidade. Senão, a polícia continuará entrando sozinha.
Leia também: “Direita retoma espaço na América do Sul”, reportagem publicada na Edição 293 da Revista Oeste





































A célebre frase atribuída a Luís XIV, o “Rei Sol”, simboliza a concentração absoluta de poder em um indivíduo. No Brasil atual, porém, não se trata de um monarca iluminado, mas de um coletivo de medíocres, oportunistas e criminosos que tomou o Estado à força. Fraudes, coerções, perseguições e prisões se tornaram instrumentos de captura institucional.
O que deveria ser o alicerce da democracia foi transformado em palco de manipulação. As instituições públicas, em vez de servir ao povo, foram cooptadas por grupos que se legitimam pelo medo e pela imposição. O Estado de Direito, relativizado, tornou-se ferramenta de conveniência.
Desde antes do fim do regime militar, parte da elite acadêmica brasileira, especialmente ligada à USP, alimentou projetos de poder que buscavam alinhar o país a regimes estrangeiros como China, Cuba e a antiga URSS. Lula, nesse contexto, aparece como “boi-de-piranha”: uma figura usada para distrair enquanto a verdadeira engenharia política se consolidava.
O resultado é claro: perdemos. Perdemos feio. As instituições foram tomadas, os mais fracos de caráter nas Forças Armadas foram cooptados, e a intelligentsia brasileira finalmente pôde avançar em seu projeto de reconstrução da sociedade ao seu modo e feitio.
O Brasil vive hoje uma inversão completa de valores. O que deveria proteger a sociedade se volta contra ela, e o que deveria ser exemplo de ética se transforma em instrumento de destruição. É uma loucura institucional que corrói a confiança e mina a esperança.