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Cristália demite funcionários e abre auditoria sobre oferta a influenciadores

Laboratório afirma que não patrocina divulgação da polilaminina e cita cumprimento de regras regulatórias

Frasco de polilaminina, fabricada pelo laboratório Cristália | Foto: Divulgação/Cristália
Frasco de polilaminina, fabricada pelo laboratório Cristália | Foto: Divulgação/Cristália

O laboratório Cristália informou que demitiu “profissionais envolvidos na eventual oferta de pagamentos a influenciadores digitais”. A empresa argumentou que a conduta violou o código de ética interno e anunciou uma reestruturação no setor de marketing e comunicação.

A decisão ocorreu depois de reportagem do portal UOL revelar que a agência Gutta, que presta serviços ao laboratório, teria buscado influenciadores para divulgar conteúdos sobre a polilaminina.

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O laboratório declarou que cumpre as normas brasileiras e afirmou que não concorda com práticas que violem regras sobre publicidade de medicamentos sujeitos a prescrição. A empresa também abriu uma auditoria interna para avaliar a necessidade de novas medidas.

Em nota, o Cristália disse que não realiza qualquer tipo de pagamento a formadores de opinião, profissionais de saúde ou influenciadores para tratar da polilaminina em redes sociais ou na mídia.

Gutta diz que não houve contratação de influenciadores

Em comunicado oficial, a agência Gutta afirmou que “não realizou qualquer contato, abordagem, proposta ou tratativa com perfis dessa natureza, tampouco atuou em nome do Cristália nesse tipo de iniciativa”.

Segundo a empresa, houve apenas um contato inicial com quatro perfis de “caráter médico-científico”, no contexto de um “levantamento preliminar”.

A agência declarou que três desses perfis demonstraram interesse, mas que o processo não avançou. A Gutta alegou que “não houve aprovação, contratação, pagamento, formalização ou implementação de qualquer ação com esses nomes”. Também negou contato com páginas de fofoca.

Pesquisadora nega influência sobre decisões da Anvisa

Já a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio afirmou que o desenvolvimento da polilaminina seguiu trâmites “éticos e regulatórios”. Ela disse que o estudo foi aprovado em comitê de ética em 2013 e que as aplicações em pacientes começaram em 2016.

A cientista declarou que não houve tentativa de influenciar decisões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que “responde às críticas científicas sempre que formalmente provocada, inclusive em manifestação pública disponível em seu canal no YouTube”.

Anvisa se manifesta sobre o caso

A Anvisa, por sua vez, informou que autorizou até o momento 59 pedidos de uso compassivo relacionados ao produto. A agência explicou que esse tipo de uso não substitui estudos clínicos e serve apenas para pacientes sem alternativas terapêuticas.

Segundo o órgão, ainda não existem evidências de segurança e eficácia da substância em humanos — e “este é justamente o objetivo do estudo clínico”. A agência afirmou que os dados disponíveis até agora referem-se a estudos não clínicos.

+ Leia também: “Jovem recebe tratamento experimental com polilaminina no Tocantins”

“Por fim, só é permitida a divulgação institucional ou científica de informações sobre pesquisas clínicas, desde que não haja promoção do medicamento, indução ao uso, compra ou prescrição; e que o conteúdo seja informativo, educativo ou de recrutamento ético, respeitando as regras da pesquisa clínica e da ética em pesquisa”, acrescentou a Anvisa.

Governo e Ministério da Saúde destacam incentivo à pesquisa

O Ministério da Saúde informou que ampliou investimentos em pesquisa desde 2023 e destacou a criação de mecanismos para acelerar o acesso a novos tratamentos. O órgão disse que o incentivo à pesquisa não dispensa o cumprimento de exigências científicas e regulatórias.

“Sobre páginas pessoais de colaboradores e servidores, o Ministério da Saúde não monitora nem se responsabiliza por seus conteúdos”, disse a pasta. “Em casos de possível conflito com a lei, ao tomar conhecimento, solicita a retirada imediata do ar e adota as medidas internas necessárias.”

O Palácio do Planalto afirmou que encontros com pesquisadores integram agendas institucionais e reforçou a importância de análise técnica de estudos com potencial impacto na saúde pública.

Já o governo do Espírito Santo declarou que todas as aplicações da substância ocorreram por determinação judicial e afirmou que segue critérios técnicos e regulatórios nas decisões relacionadas ao tema.

Eis a íntegra da nota do laboratório Cristália:

“O Laboratório Cristália informa que fez uma reestruturação em seu departamento de Marketing e Comunicação e que os profissionais envolvidos na eventual oferta de pagamento a influenciadores digitais ou outros formadores de opinião foram dispensados por violação ao código de ética da empresa.

O Cristália reitera que cumpre rigorosamente com as legislações brasileiras, em especial as legislações regulatórias, e que não concorda com essa prática, que fere a legislação para o mercado farmacêutico relacionada à publicidade de medicamentos ou substâncias que necessitam de prescrição. A empresa também iniciou um processo de auditoria interna para averiguar a necessidade de outras providências.

O Laboratório Cristália informa que não patrocina e nem faz qualquer contribuição financeira a formadores de opinião, profissionais de saúde ou influenciadores digitais para que falem sobre a substância polilaminina por meio da mídia ou em suas redes sociais. O laboratório não compactua e não concorda com essa prática.

Neste ano de 2026, o Cristália postou em suas mídias sociais (Facebook e Instagram) 4 posts sobre a polilaminina que tiveram o intuito de alertar para tentativas de golpe envolvendo a medicação, além de orientar sobre as regras de uso compassivo do medicamento. Esses posts são oficiais, têm a logomarca do Cristália e não tiveram qualquer tipo de impulsionamento ou patrocínio.

Consideramos lamentável que pessoas inescrupulosas estejam utilizando o tema “polilaminina” para gerar audiência em suas redes sociais, ainda que não tenham finalidade financeira. Mas não podemos controlar ou conter possíveis impulsionamentos de posts fora de nossas redes.

Desde dezembro de 2022 o Cristália vem fazendo reuniões e trocas de informações com a Anvisa para evolução do desenvolvimento de um produto de inovação inédito no mundo e que requer uma avaliação cuidadosa por parte da Agência. Tivemos uma curva de aprendizado muito importante ao longo desses anos que trouxe o processo regulatório até o ponto em que chegamos.

A aprovação só não se deu antes porque não existia arcabouço regulatório para a aprovação de projetos de inovação radical no Brasil. O País nunca havia se deparado com um desenvolvimento 100% nacional e sempre foi seguidor de inovações trazidas do exterior.

Para que se pudesse criar esse arcabouço era necessário que a Diretoria Colegiada estivesse completa, o que não era possível desde a saída do diretor Alex Machado Campos, em agosto de 2023. A criação do comitê de avaliação de projetos de inovação radical foi criada para dar a segurança jurídica necessária para avaliação de projetos disruptivos com desenvolvimento nacional e só poderia ter sido criada com a Diretoria Colegiada completa, que só foi reconstituída com a nomeação dos 3 diretores em setembro do ano passado.

[A entrevista coletiva de setembro do ano passado] não foi estratégia publicitária.

Em 17 de agosto de 2025 o programa Fantástico veiculou uma reportagem sobre o cão Teodoro e outros cinco animais que participaram da pesquisa com a Polilaminina no Brasil. A referida pesquisa havia sido divulgada na revista científica Frontiers in Veterinary Science alguns dias antes, com o estudo da UFRJ liderado pela dra. Tatiana Sampaio. A reportagem do Fantástico não procurou o Laboratório Cristália, mas informou que os testes com humanos seriam iniciados logo, o que provocou uma enxurrada de pedidos de médicos, pacientes e público em geral.

Para informar corretamente a população, evitar informações incorretas ou até mesmo tentativas de golpes que pudessem prejudicar os pacientes, o Laboratório decidiu convocar a coletiva, realizada dia 9 de setembro, e informar os jornalistas com total transparência. Além disso, publicamos informações corretas sobre a substância e a pesquisa em nossos canais oficiais, colocando nosso SAC à disposição.

Nosso intuito inicial era realizar o lançamento oficial da polilaminina apenas após a finalização dos testes clínicos fase 3 e registro na Anvisa. Mas hoje consideramos que antecipar a coletiva foi a decisão correta, pois conseguimos conscientizar a imprensa e a opinião pública, que passaram a buscar fontes oficiais.

Todas as comunicações do Laboratório Cristália relacionadas à Polilaminina estão sendo feitas por canais oficiais ou por meio da imprensa, que nos procura cotidianamente para esclarecer dúvidas e fazer questionamentos, uma vez que se trata de um tema de interesse público. Todos os jornalistas que nos procuram são atendidos de forma transparente, pois consideramos que a imprensa crítica e construtiva é o melhor meio de esclarecer a sociedade.

O Cristália informa que não comercializa a Polilaminina, que está em fase 1 de pesquisa, fornecendo-a gratuitamente para uso compassivo apenas após os trâmites estabelecidos pela Anvisa.

O Cristália não decidiu realizar o uso compassivo. O laboratório recebeu ordem judicial que nos obrigou a submeter à Anvisa um pedido de uso compassivo para um paciente em dezembro de 2025. O pedido foi anuído pela Anvisa e desencadeou uma série de outros pedidos judiciais na sequência.

Foram mais de 8.000 contatos no SAC, sendo que 216 foram considerados para avanço na avaliação para uso de acordo com o programa de uso compassivo regulamentado pela RDC 38/2013.

O art. 7º da RDC 38 deixa claro que esses dados não são passíveis de uso no lugar de um estudo clínico, mas todos eles são acompanhados pela Farmacovigilância do Cristália. Os dados de segurança são reportados à Anvisa, garantindo a segurança do tratamento.

No art. 18 item da RDC 38 é determinado que a empresa forneça o tratamento de forma gratuita ao paciente. O tratamento se baseia no medicamento, mais sua aplicação. Por conta disso e pelo fato de apenas dois médicos naquele momento estarem aptos a realizar a aplicação, o Cristália fez um contrato com esses médicos por meio de sua empresa Lamilab, para a garantia do tratamento aos pacientes. A operação e seus custos e pagamentos de funcionários da empresa ficam a cargo da mesma.

Em fevereiro houve uma reunião com a Presidência da Anvisa na qual acordamos que a judicialização não era necessária, que poderíamos subir os pedidos para a Anvisa sem ordem judicial apenas com a solicitação formal do médico do paciente. A Anvisa se comprometeu a analisar em até 48 horas. É preciso entender que o foco da ordem judicial não é a aplicação em si. Quem decide isso é a Anvisa.

A ordem é para que a Anvisa avalie em até 24 ou 48 horas. Isto porque a RDC 38, que estabelece as normas do uso compassivo, dá à Anvisa prazo de até 45 dias para decidir se isso é incompatível com a urgência do caso. Como a polilaminina precisa ser aplicada idealmente até 48 horas após a lesão, a ordem judicial tem como finalidade acelerar o processo. A partir de fevereiro, a Anvisa se ajustou para avaliar tudo dentro da janela de 48 horas. Portanto, a ordem judicial perdeu seu objetivo.

Em 2021, em meio à Pandemia Covid-19, o Cristália apresentou a documentação à Anvisa do processo de desenvolvimento do produto e recebeu a orientação de quais caminhos regulatórios deveriam ser seguidos para o pedido de registro e para o enquadramento correto dessa petição. Naquela ocasião aventou-se a possibilidade de acesso via uso compassivo, que foi afastada naquele momento por não termos toda a documentação necessária do produto submetida à agência.”

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2 comentários
  1. Rubem B.
    Rubem B.

    Impressionante a incapacidade brasileira de usar, expandir e aplicar o que e bom. Algo tao bacana, e com resultados visiveis nos pacientes, acaba caindo em uma estranha “auto-sabotagem”. Deixa isso de lado, e vamos em frente para solucionar os problemas de tanta gente que precisa. Parabens a essa cientista, e seja quem mais acreditou nesse projeto.

  2. Jorge Augusto Santos
    Jorge Augusto Santos

    Esse laboratório é uma raridade no Brasil é realmente sério não se deixa envolver com malandragens e deve limpar a are de comunicação e chutar essa agência de propaganda.

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