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Brasil

A barbárie em Porto de Galinhas

'Não existe terra acolhedora no Brasil. Pernambuco, exemplo da vez, é o Estado com a maior taxa de vítimas de homicídios dolosos do país'

porto de galinhas x agressão - ipojuca
Em Porto de Galinhas, barraqueiros se uniram para agredir um casal — gay — de turistas de Mato Grosso | Foto: Reprodução/X

Eu ia escrever sobre o Masterchef no STF. Mas resolvi abordar esse episódio que ocorreu em Porto de Galinhas, em Pernambuco, para variar de barbaridade nesta nossa barbárie. Provavelmente, vou perder audiência.

Deixe eu dar uma volta: não gosto de ir à praia. Areia demais para o meu gosto. Gente demais para o meu desgosto. Sintomas nacionais demais para o meu estômago.

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A exceção é Itacaré, na Bahia. Tem areia, mas quase não tem gente. Mesmo assim, não aguento permanecer mais do que quatro dias.

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O último Réveillon que passei em praia foi em Florianópolis, de 2019 para 2020, o ano da Besta. Natureza esplêndida. A besteira foi me hospedar em um lugar com nome ridículo: Jurerê Internacional.

Gente demais, e um tipo de gente da qual o dinheiro só potencializou a falta de educação. Foi em Jurerê Internacional que conheci o gênero musical que os brasileiros estavam escutando na época, não sei se ainda o fazem, em caixas de som que levavam para a praia e ligavam em volume ensurdecedor: um batidão recheado de palavrões dirigidos a mulheres, principalmente.

A delicadeza mais branda era chamá-las de cachorras. Curiosamente, as mulheres na praia pareciam gostar das letras em que eram ofendidas. Algumas rebolavam ao som daquela excrescência. Mudei de praia para evitar o espetáculo degradante. Havia praias vazias a alguns quilômetros dali.

Desci ao Sul e, antes de subir ao Norte, paro um pouco no Sudeste por ser um democrata. Rio de Janeiro: Copacabana já era faz tempo; Ipanema virou Copacabana; e o Leblon está virando Ipanema. Ou seja, Copacabana.

As praias cariocas

show da madonna em copacabana
Vista panorâmica de parte da orla de Copacabana, na zona sul carioca, onde vendedores ambulantes e beach clubs marcam presença | Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro

A orla carioca tem um monte de paus — de rede de vôlei, de traves de futebol, de bandeira — espetados na areia. Lembra Omaha Beach depois do Dia D. Uma feiura para qual todo mundo faz vista grossa.

Onde não tem pau disso e daquilo, tem barraqueiro. As condições de higiene nas barracas de comida são péssimas. Talvez só haja mais cloriformes fecais na água do mar.

Para completar, há a multidão de vendedores ambulantes. Eu só deixaria os dos biscoitos Globo. Sei que são todos trabalhadores, mas o conceito de pegar uma praia não se casa com o de ir a um souk.

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Inventaram também os beach clubs, constatei recentemente. Quem anda no calçadão tem a visão do mar obstruída por esses quiosques com ambição desmedida. Alguns promovem festas nos finais de tarde que transbordam, em música alta e gente bêbada, para o calçadão.

Na hora do almoço, esses beach clubs viram botecos que vendem prato feito. A brisa do mar agora invisível recende a cheiro de ovo frito. Parecem as esquinas de São Paulo.

Sobre o episódio em Porto de Galinhas

Rumo finalmente para Porto de Galinhas, mas só como cronista. Nunca fui até Porto de Galinhas. Dificilmente irei a qualquer lugar que tenha “galinha” no nome. E a honestidade nacional está bem representada nos preços cobrados em Porto de Galinhas.

O sururu: um casal de Mato Grosso, Cleiton Zanatta e Johnny Andrade, alugou cadeiras de um barraqueiro e, ao devolvê-las, o preço havia aumentado para quase o dobro do combinado. O casal reclamou, disse que pagaria o preço acertado.

A discussão ficou acalorada, e o salafrário mostrou ser também um marginal. A cena está na internet. Cleiton e Johnny quase foram linchados por uma chusma de colegas do salafrário. Um bando de marginais.

“Quando me dei conta, não era nem um, nem dois. Tinha uns dez, 15, em cima da gente, batendo na gente”, relatou Johnny. “O Cleiton, meu companheiro, saiu correndo e conseguiu escapar. Tinha aproximadamente uns 30 (sujeitos) mais ou menos nesse momento.”

Salva-vidas acorreram para salvar o casal do linchamento. Teria sido um massacre se eles não tivessem intervindo.

“Inaceitável o caso de violência ocorrido com dois turistas em Porto de Galinhas, no município de Ipojuca, no último sábado. Pernambuco é uma terra acolhedora e não admite nenhum tipo de violência”, disse a governadora do Estado, Raquel Lyra.

Terra acolhedora?

Não existe terra acolhedora no Brasil. Pernambuco, exemplo da vez, é o Estado com a maior taxa de vítimas de homicídios dolosos do país, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O anuário mostra que, em 2024, houve 3.349 vítimas de assassinatos em Pernambuco, o equivalente a 35,1 mortes por 100 mil habitantes.

Um lugar com tantos homicídios não pode ser afável, receptivo, em nada. Assassinato é a expressão extrema de uma sociedade onde imperam a falta de ordem e de civilidade, como em Porto de Galinhas e demais praias brasileiras. Também houve um episódio de pancadaria naquele Balneário Camboriú, em Santa Catarina, a Miami bolsonarista.

Fato é que já ocuparam a sua praia, não importa a latitude em que ela esteja, e os ocupantes nunca mais sairão dela. Amanhã talvez volte ao Masterchef no STF.

Leia também: “Dois pés na jaca”, artigo de Guilherme Fiuza publicado na Edição 302 da Revista Oeste

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3 comentários
  1. Flavio Figueira Jorge
    Flavio Figueira Jorge

    Infelizmente, cada vez mais, o povo brasileiro se resume a uma horda de mal-educados.

  2. José Geraldo da Silva
    José Geraldo da Silva

    … é Raquel Lira, os turistas estão se protegendo mudando de rumo. Sempre que os manos estão no governo do nosso querido Brasil, a segurança é televante. No momento seu estado não é opção de turismo. Espero que os eleitores do seu estado acorde e não te elejam para mais nada.

  3. Marcos Sleiman Molina
    Marcos Sleiman Molina

    “Miami Bolsonarista”? Sempre li com gosto seus artigos Mario Sabino mas, a título de continuar com este hábito e já pedindo desculpas pela minha ignorância, não entendi o adjetivo. Ou será que este artigo saiu na revista errada?

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