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Saúde

Saiba por que a troca de etanol por metanol em bebidas pode ser letal

Fraude em bebidas alcoólicas causa intoxicações e expõe o perigo de uma substância usada em combustíveis e solventes industriais

Depois de ingerido, o metanol demora algumas horas para manifestar seus efeitos | Foto: Reprodução/Pexels
Depois de ingerido, o metanol demora algumas horas para manifestar seus efeitos | Foto: Reprodução/Pexels

Um composto químico barato, invisível ao paladar e ao olfato, está por trás da atual crise sanitária em São Paulo, onde dezenas de pessoas foram intoxicadas nesta semana depois de consumir bebidas adulteradas. O Instituto de Criminalística da Polícia Científica e o Instituto Médico-Legal (IML) confirmaram a presença de metanol — álcool usado em combustíveis e solventes industriais — em amostras de bebidas apreendidas. Até agora, o Estado registrou dez casos confirmados de intoxicação, com seis mortes, e outros 37 episódios suspeitos permanecem em investigação pela Secretaria Estadual da Saúde.

O etanol (C₂H₆O), também chamado de álcool etílico, é a substância presente nas bebidas alcoólicas comuns, como cachaça, vodca e uísque. Quando ingerido, o fígado o converte em acetaldeído e depois em ácido acético — compostos que o organismo consegue processar, embora causem embriaguez e ressaca. Já o metanol (CH₃OH), o chamado álcool metílico, é destinado a uso industrial e nunca deveria ser ingerido. No corpo humano, é metabolizado em formaldeído e ácido fórmico — substâncias que causam acidose metabólica, danos severos ao sistema nervoso e ao nervo óptico. Em alguns casos, pode levar à cegueira irreversível ou à morte. Apenas cerca de 30 mililitros de metanol puro já podem ser fatais.

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O avanço das ocorrências levou autoridades sanitárias a reforçarem campanhas contra o consumo de bebidas sem registro, rótulo ou selo fiscal. As investigações mostram que parte da adulteração ocorre em destilarias clandestinas, que usam álcool industrial para baratear custos. Em São Paulo, também há relatos de consumo de etanol vendido como combustível por populações mais pobres, prática que pode expor ao risco de contaminação.

Os riscos do consumo de metanol

Depois de ingerido, o metanol demora algumas horas para manifestar seus efeitos. Por isso, muitas vítimas acreditam que a bebida era segura. Entre seis e 30 horas depois do consumo, começam sintomas como náusea, vômito, dor abdominal, tontura e visão borrada. Sem tratamento rápido, a intoxicação pode evoluir para cegueira permanente, convulsões e morte.

O atendimento médico é uma corrida contra o tempo. Antídotos como o fomepizol — ou, em casos específicos, o próprio etanol medicinal — competem com o metanol no metabolismo hepático e impedem que este se transforme em ácido fórmico. Em casos graves, é necessária hemodiálise para remover o veneno do sangue.

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O metanol é incolor, tem odor semelhante ao do etanol e não altera significativamente o sabor das bebidas. Isso torna quase impossível para o consumidor detectar a adulteração. A única defesa prática é a procedência: evitar bebidas sem rótulo, sem lacre, vendidas a preços muito abaixo dos de mercado ou em locais de origem duvidosa.

“É importante ficar atento às reações do corpo ao ingerir álcool”, explicou a dermatologista Denise Steiner, em entrevista ao programa Oeste Com Elas desta quinta-feira, 2. “O recomendável é procurar um hospital quanto antes, para que haja o tratamento adequado. Se não for possível, é eficiente consumir mais álcool com etanol. Ele anula o feito do álcool metanol.”

Como o etanol e o metanol são produzidos

O etanol costuma ter duas origens. O caminho mais tradicional é a fermentação de vegetais ricos em açúcar ou amido, como cana-de-açúcar e milho. Nesse processo, microrganismos transformam o açúcar em álcool e gás carbônico. É assim que nascem bebidas como cachaça, vodca e rum, além do etanol que abastece carros no Brasil. Depois da fermentação, o líquido é destilado para concentrar o álcool e remover impurezas.

Existe também um etanol chamado sintético, feito em refinarias e indústrias químicas. Nesse caso, derivados do petróleo e do gás natural são transformados em eteno e depois hidratados para virar álcool etílico. Esse produto vai para a indústria de cosméticos, solventes e combustíveis, mas não é o que chega às garrafas de bebidas.

O metanol tem uma história diferente. Hoje, é produzido quase todo a partir do gás natural: moléculas de metano são convertidas em um gás chamado “gás de síntese”, que depois é transformado em metanol em altas pressões e temperaturas. No passado, o metanol era conhecido como “álcool da madeira”, porque podia ser obtido ao aquecer madeira sem oxigênio, mas esse método é pouco usado atualmente. O produto final serve como solvente industrial, matéria-prima química e combustível.

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1 comentário
  1. Alice Maria Gaspar Godinho Cruz
    Alice Maria Gaspar Godinho Cruz

    Parabéns pela reportagem tão minuciosa e esclarecedora, sobre esta grave situação de bebidas adulteradas, que ,infelizmente, já causaram muitas mortes.

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