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Saúde

Brasil inaugura biofábrica de mosquitos para combater dengue

Unidade poderá produzir até 100 milhões de ovos por semana

A dengue, transmitida por mosquitos, é a arbovirose mais disseminada globalmente | Foto: Jcomp/Freepik
A dengue, transmitida por mosquitos, é a arbovirose mais disseminada globalmente | Foto: Jcomp/Freepik

O Brasil inaugurou neste sábado, 19, a maior biofábrica do mundo especializada na criação do mosquito Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia. A unidade, denominada Wolbito do Brasil, foi instalada no Parque Tecnológico da Saúde, em Curitiba, e marca uma nova etapa na estratégia nacional de enfrentamento das arboviroses, como dengue, zika e chikungunya.

Fruto de uma parceria entre o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e a organização internacional sem fins lucrativos World Mosquito Program (WMP), a biofábrica tem capacidade de produção estimada em até 100 milhões de ovos de mosquitos por semana.

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A tecnologia empregada utiliza a Wolbachia, uma bactéria naturalmente presente em cerca de 50% dos insetos, mas que não ocorre no Aedes aegypti. Quando presente neste vetor, a Wolbachia impede o desenvolvimento dos vírus causadores das arboviroses e reduz sua capacidade de transmissão.

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 5 milhões de brasileiros já foram beneficiados pelo método. A expectativa é que esse número alcance 70 milhões nos próximos anos, uma vez que a estratégia foi incorporada como política pública nacional.

O presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Mario Moreira, ressaltou o papel da instituição no processo de implementação do método contra a dengue no país. “A inauguração da fábrica em Curitiba é mais uma ação inovadora da Fundação, responsável por trazer o método Wolbachia para o país, em parceria com o WMP”, disse.

Wolbito do Brasil é a maior biofábrica do mundo especializada na criação do mosquito Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia | Foto: Wolbito/Divulgação
Wolbito do Brasil é a maior biofábrica do mundo especializada na criação do mosquito Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia | Foto: Wolbito/Divulgação

Com mais de 3,5 mil metros quadrados de área construída e equipamentos automatizados, a Wolbito do Brasil conta com uma equipe técnica de cerca de 70 profissionais. O diretor-presidente do IBMP, Pedro Barbosa, afirmou que “o IBMP acredita que boas soluções devem estar acessíveis para toda a população e gerem impactos positivos para a saúde pública”.

O método Wolbachia foi desenvolvido a partir de pesquisas iniciadas em 2008 pela Universidade de Monash, na Austrália. No Brasil, o primeiro experimento com mosquitos portadores da bactéria foi realizado em 2014, nos bairros de Tubiacanga e Jurujuba, nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói.

A liberação dos insetos é feita em duas modalidades: soltura de mosquitos adultos ou uso de Dispositivos de Liberação de Ovos (DLOs), que contêm ovos de Aedes aegypti com Wolbachia, além de água e alimento.

Ao ser liberado no ambiente, o mosquito com Wolbachia se reproduz com os Aedes aegypti locais e forma novas gerações portadoras da bactéria. Esse processo é progressivo até que a população local de mosquitos passe a ser majoritariamente composta por indivíduos com Wolbachia.

O método é considerado autossustentável, pois, uma vez estabelecida, a bactéria se mantém nas populações de mosquitos de maneira hereditária, sem a necessidade de novas intervenções humanas.

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Impacto na redução dos casos de dengue

O CEO da Wolbito do Brasil, Luciano Moreira, que participou dos estudos pioneiros como pesquisador da Fiocruz, explicou a trajetória da tecnologia: “Nosso objetivo é reduzir significativamente os números de casos de arboviroses no país”, afirmou. “Em dez anos, teremos beneficiado mais da metade da população brasileira.”

A segurança do método contra a dengue foi avaliada por três análises independentes, que classificaram o risco global da liberação dos mosquitos com Wolbachia como “insignificante”. A bactéria, por ser intracelular, não é transmitida para humanos nem para outros animais. Segundo o WMP, “não há qualquer modificação genética no Método Wolbachia, nem no mosquito nem na Wolbachia“.

O WMP atua atualmente em 14 países e tem presença confirmada em diversas cidades brasileiras, como Campo Grande (MS), Petrolina (PE), Belo Horizonte (MG), Foz do Iguaçu (PR), Londrina (PR), Joinville (SC), além de partes do Rio de Janeiro e Niterói. Municípios como Uberlândia (MG), Presidente Prudente (SP) e Natal (RN) estão em fase de implementação.

Antes das liberações dos mosquitos, o WMP realiza uma fase de engajamento com as comunidades locais. A equipe do projeto interage com unidades de saúde, escolas e lideranças comunitárias para apresentar o método, esclarecer dúvidas e divulgar canais de comunicação.

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Um grupo comunitário de referência acompanha as atividades nas localidades atendidas e pesquisas de opinião são aplicadas para medir o nível de entendimento e aceitação da população. Segundo o WMP Brasil, mais de um milhão de pessoas já foram engajadas em ações educativas e informativas.

“Uma parte essencial disso é não apenas aumentar a conscientização e trabalhar em estreita colaboração com as comunidades, mas também desempenhar um papel na promoção de mudanças sociais nessas áreas”, informou a organização.

Depois das liberações, os mosquitos são monitorados por armadilhas instaladas em residências, estabelecimentos e espaços públicos. A presença da Wolbachia é identificada por meio de exames em laboratório com técnicas de biologia molecular. Uma vez confirmada a predominância da bactéria nos mosquitos da região, novas solturas se tornam desnecessárias.

O Ministério da Saúde reforça que o método Wolbachia é uma medida complementar às ações tradicionais de combate à dengue, como eliminação de criadouros e aplicação de larvicidas. A recomendação é que o poder público e a população mantenham essas práticas mesmo nas localidades atendidas pela nova estratégia.

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