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Foto: Montagem Revista Oeste/Gerado por IA
Edição 331

O país dos impostos

Brasil sofre com tributação excessiva sobre o consumo e cobrança em ‘cascata’

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

Um trabalhador brasileiro que ganha um salário mínimo de R$ 1.621 precisa trabalhar 3 horas e 48 minutos para comprar dois quilos de frango, em comparação a 1 hora e 20 minutos no Paraguai, 1 hora nos EUA e 32 minutos no Reino Unido. Essa diferença é atribuída à alta carga tributária no Brasil, que representa 32,4% do PIB, impactando o preço de alimentos, veículos e eletrônicos.

O cidadão brasileiro que recebe um salário mínimo, de R$ 1.621 por mês, precisa trabalhar 3 horas e 48 minutos para comprar dois quilos de frango. No Paraguai, para comprar a mesma quantidade, é necessário 1 hora e 20 minutos. Nos Estados Unidos, o tempo cai para cerca de 1 hora. No Reino Unido, apenas 32 minutos. Na prática, quem recebe o salário mínimo no Brasil precisa trabalhar cerca de 3,5 vezes mais do que um paraguaio, quase 4 vezes mais do que um norte-americano e mais de 7 vezes o tempo de um britânico. Os números levantados por Oeste têm como base os salários mínimos de cada país e os preços médios do frango no varejo, obtidos junto a órgãos oficiais e instituições de pesquisa econômica.

Uma das principais explicações para tamanha diferença é a elevada carga tributária. O Brasil está entre as nações que mais tributam seus cidadãos. E os impostos, de modo geral, não se traduzem em serviços de boa qualidade. Segundo dados do Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta do Governo Geral, do Tesouro Nacional, os impostos representaram 32,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado. Um terço de toda a renda gerada pela economia nacional desembocou nos cofres da União, dos Estados e municípios. Nunca se pagou tanto imposto no Brasil.

Comida, carro, roupa, celular e gasolina ficam mais caros

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Segundo dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), a carga tributária sobre alimentos corresponde a uma fatia entre 15% e 30% do preço final. Nas refeições fora de casa, esse porcentual pode superar 30%, pela incidência de tributos sobre serviços e demais custos da operação.

O mesmo drama é vivenciado em outros setores da economia. Comprar um carro zero quilômetro no Brasil significa pagar de 36% a 47% em tributos, segundo estudos do IBPT e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Um exemplo emblemático é o Toyota Corolla, sedã médio mais vendido no país há mais de uma década. No Brasil, ele varia de R$ 150 mil a R$ 200 mil, enquanto no Chile, por exemplo, a versão de entrada é vendida por cerca de R$ 130 mil.

O peso dos impostos também ajuda a explicar o encarecimento do vestuário, segmento no qual os tributos podem representar até 40% do valor final. De acordo com o Índice Zara, criado pelo BTG Pactual para comparar o preço de uma cesta de produtos da rede varejista espanhola em diversos países, as roupas vendidas no Brasil em 2026 estão 3% mais caras que nos EUA. O contraste também aparece em outros países da região. Levantamentos internacionais de custo de vida mostram que peças de vestuário vendidas no Brasil costumam custar mais do que no Peru. Um vestido curto e básico de verão de rede internacional, por exemplo, sai por cerca de R$ 290 no mercado brasileiro, ante R$ 180 no peruano.

A carga tributária não é a única explicação, mas está entre as maiores responsáveis pelos preços pouco convidativos dos celulares no Brasil, respondendo por mais de 60% do valor de determinados modelos. Em 2025, o país foi o segundo mais caro do mundo para se comprar um iPhone 16 Pro. O modelo de 128 GB custou, em média, US$ 1.835 (R$ 9,3 mil), 70% mais do que se pagou nos EUA, de acordo com o Deutsche Bank.

O mesmo vale para os combustíveis. Embora o preço da gasolina seja influenciado por uma série de outros fatores, como a cotação internacional do petróleo e do dólar, os tributos (especialmente ICMS, PIS/Pasep e Cofins) podem representar cerca de 44% do preço pago na bomba. No Brasil, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) referentes ao período entre 28 de junho e 4 de julho de 2026, o litro da gasolina custa, em média, R$ 6,61. Nos EUA, sai por US$ 1,02 (ou R$ 5,21). Para encher um tanque de 50 litros, o brasileiro gasta R$ 330,50, enquanto o norte-americano desembolsa o equivalente a R$ 260,50. No Paraguai, esse valor é de aproximadamente R$ 290.

Por que pagamos tanto

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Um dos principais motivos pelos quais o brasileiro paga um imposto tão caro é a predominância da tributação sobre o consumo. Aqui, diferentemente do que ocorre em nações mais avançadas, grande parte dos tributos recai sobre o consumo – cerca de 43% da arrecadação tributária vem de impostos indiretos embutidos nos produtos, de acordo com o Banco Central (BC). Entre eles, estão o ICMS (estadual), o IPI (federal, sobre produtos industrializados), o PIS/Pasep e a Cofins, além do ISS, cobrado pelos municípios sobre diversos serviços. Na prática, isso significa que o consumidor paga taxas elevadíssimas ao comprar itens básicos, como alimentos e aparelhos eletrônicos, porque a maioria das empresas e dos prestadores de serviço incorpora esses tributos ao preço de bens e serviços, de modo que o custo acaba sendo suportado pelo consumidor final.

Uma camiseta ilustra bem esse processo. Na produção, há incidência de tributos sobre a compra de algodão, fios, tecidos, corantes, embalagens e diversos serviços contratados pela indústria. Em seguida, a confecção incorpora ao preço custos com mão de obra, energia, transporte e logística, além dos tributos incidentes sobre a produção e a comercialização. O varejista, por sua vez, acrescenta sua margem e seus próprios custos operacionais. Ao final da cadeia, todos esses custos, incluindo os tributos embutidos nas etapas anteriores, contribuem para o preço pago pelo consumidor.

Em outras palavras, muitos impostos incidem em diferentes etapas da cadeia produtiva, levando a um efeito conhecido como cobrança em cascata. O tributo cobrado sobre a matéria-prima é somado ao custo da produção, o que resulta no efeito de “imposto sobre imposto” até o preço final pago pelo consumidor.

A tributação brasileira se situa próxima ao patamar médio de 34,1% do PIB registrado pelos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o “clube dos ricos” — grupo formado por nações da Europa, das Américas, da Ásia e da Oceania. Por outro lado, o Brasil assume o papel de verdadeiro campeão dos impostos quando comparado aos demais países da América Latina e aos do Caribe. Elaborado pela OCDE em parceria com outros organismos internacionais, o estudo Revenue Statistics in Latin America and the Caribbean (“Estatísticas de Receita na América Latina e no Caribe”), que abrange o período entre 1990 e 2022, mostra que a carga tributária brasileira (de 33,3%, de acordo com este outro levantamento) superou, com folga, a média de 27 países da região, que ficou em 21,5%. 

Não é preciso viajar pelo continente para dimensionar o peso da tributação nacional. Quem passa pela Rua Boa Vista, no Centro Histórico de São Paulo, é permanentemente lembrado a respeito do impacto dos impostos no cotidiano das famílias. É lá que fica o Impostômetro, ferramenta criada pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em 27 de junho, o painel indicou que o Brasil havia ultrapassado R$ 2 trilhões em tributos pagos desde o início deste ano — é a primeira vez que a marca foi batida já no primeiro semestre. 

Até a última terça-feira, 14, o montante arrecadado em impostos já tinha superado R$ 2,19 trilhões. Com esse volume de dinheiro, seria possível comprar 1,8 milhão de apartamentos de três quartos, uma suíte e duas garagens no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo. Aplicada na poupança, a bolada renderia juros estratosféricos de R$ 424 milhões por dia. Em 2026, segundo cálculo do IBPT, o brasileiro teve de trabalhar 150 dias só para arcar com impostos. É como se a pessoa ficasse pagando taxas e contribuições ao governo do dia 1º de janeiro até 30 de maio. 

“A discussão mais relevante não é sobre o tamanho dos impostos, mas sobre como eles são arrecadados”, entende Benito Salomão, professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). “A cobrança deveria obedecer aos princípios da simplicidade, de modo que os tributos fossem facilmente assimilados pelo cidadão, e da equidade, fazendo com que pessoas de mesma renda pagassem a mesma quantidade de impostos e pessoas com rendas distintas pagassem alíquotas diferentes.”

Outro problema que afeta o nível de tributação e, por tabela, pesa no bolso do pagador de impostos, é o custo Brasil. Diante da enorme complexidade para calcular e recolher dezenas de tributos, as empresas se veem obrigadas a aumentar seus custos administrativos ao contar com uma equipe de funcionários dedicada exclusivamente à missão de decifrar as normas tributárias do país. Soma-se a isso a precariedade na infraestrutura de transporte, que deixa o frete e a distribuição mais caros.

Aprovada em 2023 e ainda em fase de transição, que só será concluída em 2033, a reforma tributária prevê a substituição dos impostos em vigência atualmente pelo Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Ele será composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), um tributo federal que unificará PIS e Cofins, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado por Estados e municípios, que substituirá o ICMS e o ISS. O problema é que, devido à quantidade de exceções incluídas no texto (tratamentos fiscais diferenciados para alguns setores beneficiados com descontos ou imposto zerado), a alíquota do IVA pode ficar acima das estimativas iniciais do governo, que giravam em torno de 26% a 28%. Nesse patamar, mesmo que não houvesse nenhuma exceção embutida na reforma, o IVA brasileiro já seria um dos mais altos do mundo.  

“A reforma é importante porque haverá simplificação dos impostos”, explica a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Por outro lado, ninguém deve esperar diminuição do peso dos tributos. A carga tributária no Brasil é muito alta para bens e serviços e menor para patrimônio, lucro, juro e dividendos. O que se fará é dividir os tamanhos das fatias da pizza, mas a carga permanecerá em cerca de 33% do PIB.”

Taxas elevadas e serviços precários

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Tecnicamente, os impostos são tributos obrigatórios arrecadados pelo Estado para financiar serviços públicos essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura. O Brasil, ao contrário de grande parte das nações desenvolvidas, não oferece à população serviços de qualidade compatível com o peso dos impostos. Quem pode, opta por serviços privados e, com isso, tem de arcar com novos tributos.

Dados do Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES), elaborado pelo IBPT, mostram que o Brasil é o país que menos converte a arrecadação obtida com impostos em qualidade de vida para sua população. De acordo com o levantamento, que reúne dados referentes a 2024, o país ocupou a 30ª e última colocação do ranking pelo 15º ano consecutivo. Controlar o gasto público seria primordial para a redução dos impostos, mas tal iniciativa parece distante da realidade brasileira, entende Salomão. “Para diminuir a carga tributária, teríamos de fazer reformas que enfrentassem a expansão dos gastos”, afirma.

Mergulhado em uma infinidade de tributos e na burocracia que penaliza desde o microempreendedor até o mais alto executivo de uma grande empresa, o país só conseguirá dar um necessário salto de desenvolvimento e se alinhar a nações mais prósperas a partir do momento em que os impostos deixarem de representar um entrave tão grande na vida do cidadão, ao mesmo tempo em que se converterem em serviços decentes. Até lá, o Brasil continuará tendo de conviver com a incômoda pecha de “país dos impostos”.

Leia também “O orçamento paralelo de Lula”

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1 comentário
  1. Hilciene de Jesus Pereira Salomão
    Hilciene de Jesus Pereira Salomão

    Excelente artigo, muito esclarecedor.

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