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O biquíni, hoje comum nas praias do mundo, foi considerado escandaloso em sua origem, enfrentando resistência de modelos, proibições em países e condenações da Igreja Católica. Criado em 5 de julho de 1946 pelo engenheiro francês Louis Réard, o traje, que expunha o umbigo, foi apresentado pela dançarina Micheline Bernardini, a primeira a usá-lo. Apesar da rejeição inicial, o biquíni ganhou popularidade nas décadas de 1950 e 1960, especialmente com ícones como Brigitte Bardot, refletindo mudanças nos costumes.
Hoje, ele é uma peça comum nas praias de praticamente todo o mundo. Está associado ao verão, à moda, à liberdade e até ao esporte. Mas, quando surgiu, o biquíni foi considerado tão escandaloso que modelos se recusaram a usá-lo, países proibiram sua exibição e a Igreja Católica o condenou publicamente. Sua história vai além da criação de uma roupa de banho: ela acompanha a transformação dos costumes e da posição da mulher na sociedade ao longo do século 21.
Durante o século 19, a ideia de tomar banho de mar era vista muito mais como uma prática medicinal do que como lazer. As mulheres frequentavam as praias usando vestidos pesados de lã ou algodão escuro, acompanhados de mangas compridas, golas altas, meias, sapatos e, muitas vezes, até pequenos pesos costurados na barra da roupa para impedir que o tecido subisse dentro da água. Em algumas praias europeias existiam até as chamadas bathing machines: pequenas cabines sobre rodas que levavam as banhistas diretamente ao mar, protegendo-as dos olhares masculinos.

No início do século 20, os trajes começaram a ficar mais leves e funcionais. Os vestidos deram lugar a macacões de uma peça só, geralmente confeccionados em malha de lã. Ainda assim, era comum que cobrissem o tronco, as coxas e parte dos braços. Mostrar o umbigo era considerado absolutamente impensável.
As mudanças vieram lentamente durante as décadas de 1920 e 1930, quando estilistas passaram a reduzir o comprimento das pernas e ajustar melhor os tecidos ao corpo. As praias tornavam-se espaços de lazer, e o bronzeado começava a substituir a antiga preferência pela pele extremamente pálida. Mesmo assim, os maiôs continuavam cobrindo todo o abdômen.

Mas tudo mudou no verão europeu de 1946. Em 5 de julho daquele ano, o engenheiro francês Louis Réard apresentou durante a Fête de l’Eau (“Festa da Água”) na Piscine Molitor (piscina pública de Paris) uma peça de banho formada por apenas quatro pequenos triângulos de tecido ligados por cordões. O conjunto deixava o umbigo completamente à mostra, algo jamais visto em um traje de banho comercial.
Réard precisava de uma modelo para desfilar sua criação, mas nenhuma manequim profissional aceitou usá-la. A solução veio com Micheline Bernardini, dançarina do famoso Casino de Paris e acostumada a apresentações muito mais ousadas. Ela tornou-se a primeira mulher a vestir oficialmente um biquíni diante da imprensa internacional.
Ironicamente, o primeiro modelo usado por Micheline foi confeccionado com um tecido que imitava páginas de jornal impressas, uma jogada de marketing de Réard para sugerir que a novidade preencheria todas as manchetes do mundo.


O nome da peça também foi cuidadosamente escolhido. Apenas quatro dias antes, os Estados Unidos haviam realizado uma série de testes nucleares no Atol de Bikini, no Oceano Pacífico. Réard acreditava que sua invenção provocaria o mesmo efeito de uma bomba atômica. Seria uma “explosão” semelhante no mundo da moda, por isso decidiu batizá-la de “biquíni”.
A reação, entretanto, foi imediata. A imprensa da época usou a expressão “quatro triângulos de nada” para descrever a criação de Réard. Em diversos países, o biquíni foi proibido em praias públicas. Itália, Espanha, Portugal e Bélgica adotaram restrições. Concursos de beleza vetaram seu uso e o Vaticano classificou a peça como moralmente inaceitável. Em muitos lugares, mulheres podiam ser multadas por aparecer usando o novo traje.
Apesar da resistência, o biquíni começou lentamente a conquistar espaço. Nos anos 1950, as pinups americanas e estrelas de Hollywood como Brigitte Bardot, Ava Gardner, Marilyn Monroe e Rita Hayworth ajudaram a popularizar a peça em fotografias, filmes e revistas. Bardot, especialmente, tornou-se um dos maiores símbolos do traje ao desfilar nas praias da Riviera Francesa durante o Festival de Cannes, em 1952.
A verdadeira consolidação veio na década de 1960. A revolução sexual, a maior autonomia feminina e a mudança dos padrões culturais fizeram com que o biquíni deixasse de ser um símbolo de escândalo para se tornar uma expressão de liberdade, juventude e modernidade.

No Brasil, o presidente Jânio Quadros — como parte de sua agenda de ‘moralização dos costumes’ — emitiu o Decreto nº 51.182, assinado em 11 de agosto de 1961, que vetava o uso de trajes de banho de duas peças em desfiles e concursos, além de censurar o uso em praias brasileiras, exigindo maiôs mais comportados. Foi uma das muitas decisões excêntricas no curto período em que esteve na Presidência. Duas semanas depois ele renunciou e a medida perdeu força.
Ainda assim o Brasil teve um papel importante na evolução da peça. A partir dos anos 1960 e, principalmente, nas décadas seguintes, estilistas brasileiros passaram a criar modelos menores e mais ousados, influenciando tendências internacionais. Foi nas praias do Rio de Janeiro que surgiram versões como a tanga e, posteriormente, a famosa fio-dental, que redefiniram novamente os padrões da moda praia mundial.
Hoje, existem biquínis de todos os formatos, tecidos e estilos, adaptados aos mais diversos corpos e preferências. O que antes era considerado ofensivo tornou-se uma peça comum, usada por milhões de mulheres em todo o planeta.
Poucas peças de vestuário ilustram tão claramente como os costumes podem mudar ao longo do tempo. A evolução do biquíni acompanhou a transformação da moda, da percepção sobre o corpo feminino e das discussões sobre liberdade individual.

Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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