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Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Edição 329

Brasil que produz e Europa que regula   

A lição é simples: para ter mais alimentos o mundo precisará de mais produtividade, tecnologia e produtores, e não de mais obstáculos contra quem produz

Confira o resumo que a OESTE.IA, a IA da Revista Oeste, fez pra você

O Brasil, que alcançou a produção de 350,2 milhões de toneladas de grãos na safra 2024/25, destaca-se como um protagonista na segurança alimentar global, enquanto a Europa enfrenta a perda de milhões de propriedades agrícolas, com uma queda de 37% nas explorações entre 2005 e 2020. O crescimento brasileiro é atribuído a ciência, tecnologia e liberdade econômica, contrastando com a dificuldade europeia em manter a produção devido a altos custos e regulação.

Enquanto o Brasil multiplica sua produção de grãos, a Europa perde milhões de propriedades agrícolas. A segurança alimentar do mundo dependerá cada vez mais de quem consegue produzir em escala, com ciência, tecnologia e liberdade.

Escrevo este artigo em Lisboa, onde vim participar de uma palestra na Universidade Católica Portuguesa sobre a contribuição do agronegócio brasileiro para a sustentabilidade do planeta. Estar aqui, no coração da Europa, ajuda a enxergar com ainda mais clareza uma comparação essencial: enquanto o Brasil amplia sua capacidade de produzir alimentos em escala, parte da Europa enfrenta dificuldades crescentes para manter suas propriedades agrícolas ativas.

A primeira vez que o Brasil produziu 100 milhões de toneladas de grãos foi em 2001. Foram praticamente cinco séculos para alcançar esse patamar. Quatorze anos depois, em 2015, o país ultrapassou a marca de 200 milhões de toneladas. Em 2023, superou 300 milhões. Na safra 2024/25, segundo a Conab, a produção brasileira de grãos foi estimada em 350,2 milhões de toneladas — um novo recorde.

Na safra 2024/25, segundo a Conab, a produção brasileira de grãos foi estimada em 350,2 milhões de toneladas, um novo recorde | Foto: Shutterstock

É um salto extraordinário. Mas não foi obra do acaso, nem resultado de voluntarismo político. Foi fruto de ciência, pesquisa, liberdade econômica nos anos 1990, tecnologia, correção de solos, tropicalização da agricultura, sementes mais eficientes, máquinas modernas, gestão empresarial, investimento privado e produtores rurais dispostos a assumir riscos.

O Brasil transformou solos considerados pobres em uma das maiores plataformas de produção de alimentos do planeta. Criou uma agricultura tropical competitiva, produtiva e cada vez mais sustentável. Em poucas décadas, deixou de ser um país associado à insegurança alimentar para se tornar peça central na segurança alimentar global.

Enquanto isso, a realidade europeia revela um contraste importante. Segundo o Eurostat, entre 2005 e 2020, a União Europeia perdeu 5,3 milhões de explorações agrícolas, uma queda de cerca de 37%. Em 2020, ainda havia 9,1 milhões, mas quase dois terços tinham menos de 5 hectares. Em Portugal, o quadro é ainda mais evidente: mais de 70% das explorações agrícolas têm menos de 5 hectares.

O Brasil transformou solos considerados pobres em uma das maiores plataformas de produção de alimentos do planeta | Foto: Shutterstock

Esses números não significam que a Europa deixou de produzir. A agricultura europeia continua relevante, sofisticada e tecnicamente avançada em muitos setores. Mas os dados mostram uma realidade difícil de ignorar: produzir alimentos em ambientes de alto custo, excesso de regulação, margens apertadas e crescente pressão burocrática tem se tornado cada vez mais difícil, especialmente para o pequeno produtor.

A consequência é clara. Milhões de propriedades desaparecem. A atividade se concentra. O produtor envelhece. A sucessão rural se torna mais complexa. E a produção de alimentos passa a depender cada vez mais de quem consegue operar com escala, tecnologia, capital e eficiência.

Nesse cenário, o protagonismo brasileiro não é discurso. É realidade medida em toneladas, produtividade, exportações, inovação e competitividade.

O mundo quer alimento barato, seguro, rastreável e sustentável. Mas muitas vezes esquece que nada disso nasce em gabinete. Não nasce em conferência internacional. Não nasce em decreto. Não nasce em regulamento europeu.

Alimento nasce no campo. Nasce de quem planta, colhe, investe, enfrenta clima, preço, crédito, logística, insegurança jurídica e burocracia. Nasce da combinação entre ciência e liberdade econômica. Nasce quando o produtor tem condições de produzir, inovar e competir.

O Brasil tem muito a melhorar. Ainda enfrenta gargalos de infraestrutura, excesso de impostos, juros elevados, insegurança jurídica e uma burocracia que frequentemente trata quem produz como suspeito. Mas, apesar de tudo isso, o campo brasileiro continua entregando resultados impressionantes.

o campo brasileiro continua entregando resultados impressionantes | Foto: Shutterstock

A lição é simples: o mundo precisará de mais alimentos, não de menos. Precisará de mais produtividade, não de romantização da escassez. Precisará de mais tecnologia, não de medo da inovação. Precisará de mais produtores, não de mais obstáculos contra quem produz.

A Europa pode até regular. Mas quem alimenta o mundo é quem produz. E nisso o Brasil tem muito a ensinar.


Antonio Cabrera é veterinário com pós-graduação em produção animal e presidente do Grupo Cabrera, que atua no agronegócio. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária no governo Fernando Collor e ex-secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de SP durante a gestão Mário Covas. Atualmente, é titular da Sociedade Nacional de Agricultura e membro de várias entidades nacionais e internacionais, além de cônsul honorário da Espanha. Ele está no LinkedIn: Antonio Cabrera

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